Curitiba - Ser uma mulher participativa, ter uma posição definida frente à sociedade e saber fazer valer suas opiniões são características que acompanham a atual primeira-dama do Paraná, Maristela Requião, desde pequena. Nascida em 1943, em Santa Catarina, e criada ao lado de mais três irmãos, Maristela herdou da mãe a força e a determinação que norteiam sua vida e, do pai, a liberdade de expressão.
  ‘‘Minha mãe era uma mulher muito forte. E tanto da parte dela quanto do meu pai eu tive uma educação diferenciada que considero privilegiada. Meu pai tinha uma educação à moda européia e tinha mais liberdade. Tanto que eu fui estudar num colégio interno alemão em Rio Claro (SC), que era um colégio misto. E isso para época já era uma coisa: Ah! Meu Deus!’’.
  Com esses primeiros passos dados em direção à formação de uma personalidade com estilo próprio, Maristela saiu de Santa Catarina e acompanhou os pais em São Paulo, onde o pai tinha um grande escritório. Mais tarde viria a morar em Curitiba para continuar os estudos. Durante um tempo sua vida dividiu-se entre Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Eles tinham uma fazenda que o pai comprou para ‘‘agradar’’ a mãe.
  Da época em que passou em São Paulo, mais lembranças da educação progressista do pai. Ainda adolescente, Maristela recebia em mãos a responsabilidade de apanhar um ônibus e fazer alguns pagamentos do escritório. ‘‘Lembro claramente que ele me dizia que se eu tivesse algum problema nunca falasse com um funcionário, que falasse com o gerente. Isso para mim e meus irmãos foi um ensinamento para a vida. Nos ensinou a enfrentar o mundo lá fora.’’
  Quando veio morar em Curitiba, para fazer o segundo grau, na época chamado de científico, Maristela já era mocinha. E foi logo aos 15 anos que teve o primeiro contato com aquele que viria a ser pai de seus filhos e companheiro de uma vida inteira. Foi no cenário das Sete Quedas que ela viu pela primeira vez o jovem Roberto Requião. A mãe de Maristela gostava de levar os filhos para ter contato com a natureza. Tinha formação de Bandeirantes e lá naquele cenário acamparam. Requião também. Tinha 17 anos e já mostrava traços fortes de líder. ‘‘Ele já era uma liderança nas entidades estudantis. Essa liderança já existia, não no sentido político, e sim num senso muito grande de justiça social’’, conta.
  Depois desse primeiro encontro, a jovem Maristela estudou jornalismo. Formou-se na primeira turma da Universidade Federal do Paraná e chegou a estudar alguns anos de arquitetura quando morou em Assunção. Requião formou-se advogado e trabalhava também como jornalista. Os dois se casaram, e Requião vivia envolvido com causas sociais. Trabalho duro com associações de bairros. A mulher sempre a seu lado. Como jornalista, Maristela chegou a escrever nos jornais Gazeta do Povo e O Estado do Paraná. ‘‘Eu e o Mussi tínhamos uma coluna. Eu escrevia mais sobre política.’’
  Os filhos do casal, Maurício e Roberta, viriam antes do auge político do governador. Mas bem depois do casamento. Maristela e Roberto somente deram inicio à prole depois de 10 anos de casados. ‘‘Eu acompanhei muito o Roberto no trabalho das associações.’’
  A criação das crianças aconteceu de uma maneira participativa. Para onde o casal ia, os filhos iam junto. ‘‘Nas reuniões políticas eles iam e ficavam dormindo em cadeiras. Seja na política, no trabalho e também nos momentos de diversão.’’ Do jornalismo, Maristela desistiu. O motivo? ‘‘Ganhava-se muito pouco. A gente era muito boicotado e só saía seu artigo se estivesse de acordo com o dono do jornal. Isso me revoltou muito na época e ainda hoje tenho essa revolta. Acho que você não pode ser censurado quando procura demonstrar a verdade. E quando você distorce a verdade, eu acho um crime. Por isso abandonei a profissão.’’
  E como é ser primeira-dama? Como é viver ao lado do governador? ‘‘Como eu sempre participei dos projetos políticos, quando assumi a primeira vez como primeira-dama de Curitiba, eu tinha uma visão social muito aprofundada. Aí já montei um trabalho chamado Soma. Um trabalho muito difícil, mas gratificante porque víamos o resultado’’, relembra. Assim nasceu a Maristela primeira-dama. Dessa primeira passagem participativa pela prefeitura de Curitiba viriam muitas outras.
  A carreira de Roberto Requião jamais retrocedeu e Maristela sempre a seu lado. Uma tarefa e tanto, visto que o gênio do governador é forte e ele é um tanto exigente e desafiador. Para a mulher, um fator de estímulo. Uma mola propulsora para que ela própria desenhasse uma carreira de sucesso. E o que é mais difícil nessa relação? ‘‘Ser casada com Roberto Requião é sempre superar os obstáculos e estar à altura do que ele espera que você faça. É desta maneira que eu encaro todo o secretariado dele. Ele espera muito. E às vezes se decepciona e fica bastante bravo. Mas o grande desafio é acompanhá-lo’’.
  E há algum embate entre os dois já que ambos têm personalidades fortes? ‘‘Não existe. Ao longo desses 35 anos, eu faço um balanço da minha vida e de como ela é neste momento em relação a tudo, e chego à conclusão de que somos muito companheiros. A gente sempre esteve muito presente um no trabalho do outro. Isto foi muito importante para mim, para meus filhos e acredito que também para o Roberto. Não existe uma disputa.’’
  Essa batida de estar à altura daquilo que o marido espera enquanto governador Maristela tem. À frente da direção do Museu Oscar Niemeyer, a primeira-dama tem surpreendido. Ao assumir o governo do Estado, seu marido recebeu uma bela obra restaurada pelo arquiteto de maior nome nacional, Oscar Niemeyer, sem nada dentro. Na época, falava-se que as coisas ficariam daquele jeito mesmo. O museu não tinha acervo e havia sido feito somente como maquiagem do trabalho do ex-governador Jaime Lerner (ele inaugurou o espaço dias antes de sair do poder).
  No entanto, não foi assim que as coisas aconteceram. Com sua sensibilidade para as artes, fruto da educação recebida ao longo de sua formação, Maristela transformou o Museu Oscar Niemeyer em um local onde se abrigam grandes exposições nacionais e internacionais. Com isso ganhou o respeito, não só do marido – ‘‘ele diz com todas as letras que tem orgulho do que eu fiz pelo museu’’, mas de críticos de arte e da própria mídia.
  ‘‘Sempre gostei de artes, inclusive meu primeiro emprego foi numa grande galeria daqui. Conheci grandes artistas daqui. Esse conhecimento facilita e muito a escolha das exposições que são trazidas para cá. Hoje, quando fala-se em Museu Oscar Niemeyer já associa-se a qualidade a um certo vanguardismo na forma com que as mostras são montadas.
  Com a confiança depositada pelo marido e conhecimento que tem sobre arte, Maristela acabou por se entregar de corpo e alma ao museu. Quando não está viajando em busca de novas exposições, vive lá dentro. Participa de tudo com afinco. E tem funcionado bem. Quanto ao futuro, Maristela é categórica, se entrega somente ao hoje. ‘‘O futuro é agora e o meu lazer é estar aqui dentro’’.

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