Maurício Arruda Mendonça traduziu "Hamlet", de Shakespeare, e escreveu a versão comemorativa para a companhia que nasceu em Londrina e é radicada no Rio de Janeiro desde 1998
Maurício Arruda Mendonça traduziu "Hamlet", de Shakespeare, e escreveu a versão comemorativa para a companhia que nasceu em Londrina e é radicada no Rio de Janeiro desde 1998 | Foto: Ricardo Chicarelli


Para onde se olha na obra de William Shakespeare, a natureza humana estará no piso, nas paredes e no teto. Singularmente, a tragédia "Hamlet" é o terraço a partir do qual se vislumbra toda a condição humana e precipita-se sobre nós um embate psicológico. Como uma espécie de restaurador das minúcias do clássico para os dias de hoje – preservando a magnitude do autor inglês –, o dramaturgo londrinense Maurício Arruda Mendonça traduziu o texto e escreveu a versão comemorativa dos 30 anos da carioca Armazém Companhia de Teatro, grupo que nasceu em Londrina.

"‘Hamlet’ é um texto que você sente ser um grande canteiro de obras porque foi escrito durante muito tempo por Shakespeare, que acrescentou muitas ideias em vários anos", afirma Mendonça, que foi convidado pelo diretor Paulo de Moraes para a versão do texto.

Poeta e músico que volta e meia faz apresentações musicais com o amigo londrinense Bernardo Pellegrini, Mendonça é um dramaturgo premiado internacionalmente.

Com Paulo de Moraes, tem dois prêmios Shell (Melhor Autor), a maior premiação do teatro brasileiro, por "A Inveja dos Anjos" (2008) e "A Marca da Água" (2012).

Esta última peça também foi premiada pelo Fringe First Award, Festival de Edimburgo, Escócia (2013), premiação repetida em 2014 com "O Dia Em Que Sam Morreu".

"O Dia Em Que Sam Morreu" ainda ganhou o Prêmio Cesgranrio de Melhor Texto 2014. A parceria habitual rendeu aos dois o Coup de Couer de la Presse d’Avignon (2014), no Festival Off de Avignon, na França.

Os grandes centros culturais brasileiros, como Rio de Janeiro e São Paulo, têm mais chances que os londrinenses de conferir a exuberância do texto poético de Mendonça. Além de dramaturgias para o Armazém, ele tem trabalhos que envolvem atores conhecidos do público por participações em novelas. É autor, por exemplo, de "Plínio – A História do Maldito Bendito", monólogo com o ator Roberto Bomtempo, que deve voltar aos palcos no segundo semestre. Já para a atriz Carolina Kasting, o londrinense escreveu uma peça que conta a história da atriz Liv Ullmann, uma das mulheres do cineasta Ingmar Bergman.



Mas é aqui, andando pelas ruas de Londrina, levando os dois filhos para a escola, em uma vida cotidiana na cidade, que Mendonça constrói personagens que, ora podem estar no terraço dos dramas psicológicos shakespearianos, ora na escala maldita de Plínio Marcos.

"Tenho uma rotina igual a de todo mundo. Isso implica ver os filhos crescendo, viver as coisas do dia a dia. É uma rotina que eu gosto. Agora, chegou a vez dos meus filhos. É a vez deles. A gente aprende muito com essas crianças, seres humanos com curiosidades, que trazem outras referências para nós. Trabalho também com crianças, dando aulas de teatro, e percebo que trazem coisas, referências, que não temos", avalia Mendonça.

O encontro inevitável do Armazém com "Hamlet" se passa nos 30 anos da companhia.

"É um texto muito contemporâneo e, dentro do potencial artístico do Paulo de Moraes, ele precisava trazer um ‘Hamlet’. Ainda mais neste momento do País e nos 30 anos da companhia", assegura o dramaturgo.

Mendonça é um autor com tradição na poesia e de muito estudo.

"Teve uma época em que estudei desde cenografia à dramaturgia de Grotowski, Eugenio Barba, Antunes Filho, entre outros, até aprender a fazer vidro de açúcar. Fiz tudo isso, ralando durante cinco anos. Com o Armazém, eu venho trabalhando há muitos anos e, com o Paulo, tem essa coisa geracional, que facilitou muito. Mas sempre temos desafios e é preciso trabalhar com esses desafios como se fosse uma dança, principalmente neste nível de trabalho coletivo, que se faz no grupo", afirma.

Em "Hamlet", o dramaturgo, além de traduzir do inglês, buscou soluções no texto que ficassem melhor no palco.

"Muitos diretores têm uma visão pessoal de ‘Hamlet’, mas eu trabalhei no sentido de entender a obra, traduzi-la, e que a poesia, a retórica de Shakespeare fossem entendidas pelo público. Que não ficassem obscuras. Hoje, o dramaturgo inglês é um clássico, mas, nunca deixou de ser popular", afirma o londrinense sobre a versão do texto, que considera quase um trabalho duplo de tradução e restauração para os dias de hoje.

O Mendonça, que se encontra em qualquer esquina de Londrina, é o mesmo capaz de criar uma versão perturbadora de "Hamlet" para um momento não menos perturbador da história brasileira e mundial. Em que morrer e matar são evidências de algo de podre sob o terraço de Shakespeare, de onde se vislumbra a humanidade.

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