Um desenhista de sensações
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de maio de 2005
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba- O currículo de Sérgio Póvoa Pires tem dez páginas de extensão. Curitibano, nascido numa família em que a ópera e os sons de um piano de cauda da avó formaram sua sensibilidade, ele tem uma vida interessante e recheada de passagens ligadas ao urbanismo, arquitetura e design de jóias. Sem falar nos desenhos e pinturas em aquarela, um dom que apareceu logo aos cinco anos de idade, que Pires tratou de desenvolver ao longo de seus 52.
Encravada nessa história de amor às formas que o levou a cursar arquitetura e urbanismo na Universidade Federal do Paraná, no período entre 1971/75, e que o coloca hoje como um premiado designer de jóias, está uma profunda admiração e observação das coisas da vida. ''Eu observo tudo. Desde uma roda de carro até a tua bolsa''.
Para Sérgio, o olho bom serviu para que sua carreira se construísse com bases tão sólidas que hoje a sua função é desenhar cursos para os alunos da Fundação Getúlio Vargas. Ele é Coordenador de Assuntos Internacionais do Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getulio Vargas Isae/FGV, de Curitiba. Trocando em miúdos, como ele mesmo falou, esse ''desenho'' é traçar rotas intelectuais a serem seguidas pelos alunos da FGV que saem para estudar fora ou vice-versa.
Na relação arte-arquitetura a conexão sempre foi natural. Por isso fica até meio difícil traçar uma linha reta do que fez em sua vida. Como assessor na prefeitura municipal de Curitiba foram várias passagens. É de Sérgio o desenho de parte do mobiliário urbano da cidade. Bancos de praças, floreiras, pontos de ônibus e por aí vai. É dele também um projeto que ajudou a formar a imagem Primeiro Mundo da cidade. Como sua mãe tinha um trabalho junto ao Instituto Paranaense de Cegos veio primeiro a dúvida ''Como será o mapa de Curitiba que eles têm na cabeça?'', pensou. E foi aí que desenhou o mapa da cidade em braille. Uma iniciativa nobre que mais tarde se transformaria em ouro. E que foi pioneira no Brasil.
Dos tempos da ditadura, um dado interessante. Quando o então presidente da República, General Ernesto Geisel, esteve em Curitiba, em 1978, para visitar os pomares públicos, ele e seu colega Lauro Tomaziwa foram chamados para uma missão: desenhar um medalhão que seria dado de presente ao presidente. Fizeram o mapa de Curitiba em ouro e diamantes. Uma peça que hoje está no Palácio do Planalto.
Mas fazer jóias ainda não era uma realidade visível em sua vida. Pires fala várias línguas. Já morou em Berlim, esteve no Japão, Estados Unidos. Sempre pintando, entre idas e vindas, já fez várias exposições por aqui. É citado por Regina Casillo em seu livro ''Pintores Contemporâneos do Paraná''. Bem, mas como um cara que desenha móveis urbanos e traça rotas para cegos, hoje está embrenhado pelo tênue caminho que une moda a design de jóias? Mais uma história interessante, mostrando que às vezes uma atitude de quem gosta da gente pode mudar nossa vida.
Um amigo de Pires, Marcelo Jugend, teve a grande sacada ao ver seus desenhos em 1991. ''Ele me perguntou porque eu não desenhava jóias e eu disse que não sabia as técnicas. Daí ele me pagou um curso em São Paulo e eu fui''. Foi o que bastou. O faro de Jugend é bom. Já no ano seguinte, Pires ganhou seu primeiro prêmio com a nova profissão. Com a jóia intitulada ''Broche para Mulher Executiva'', Pires surpreendeu. Era uma espécie de calota de carro, que fechada não mostrava o diamante maravilhoso que tinha lá dentro. Pensada para mulheres que passam o dia na rua e que, sem tempo de voltar para casa, engatam um programa noturno. À noite, o broche-calota era aberto e pronto, a eternidade do diamante estava lá, brilhando. O prêmio foi o De Beers.
''Pensei na segurança da mulher. E a idéia veio'', disse. Sobre o talento que tem para deslumbrar com criações não rebuscadas, mas que traduzem beleza e funcionalidade, o designer conta que pensa em como a mulher lida com o seu corpo. ''A mulher tem isso. Lida com a coisa do corpo, com a sensualidade. Gosto de fazer coisas que a envolvam''.
Em 2002, foi convidado a participar da Anglogold, um concurso feito por uma mineradora de ouro da África do Sul. Pires mais uma vez teve a idéia que faria a diferença. Criou jóias com inscrições em braille. Imagine você sentir a jóia... Com isso, Sérgio ultrapassaria a barreira visual e entraria no campo das sensações. E entrou. Mais um prêmio. Também foi a primeira vez que alguém pensou nisso por aqui.
As criações de Pires não são óbvias. São peças feitas para quem tem um link aguçado e sensível. Ao criar uma corrente de 15 metros de comprimento para ''envolver o corpo da mulher'', ele coloca uma pitada grande de arte nisso. É como se quisesse ir além do valor de uma jóia. Fazê-la penetrar na alma de quem a usa, apoderar-se um pouco dela.
''Uma peça para mim só tem valor se tiver conceito. E não é por ter dinheiro que se tem conhecimento'', define ele ao se referir ao valor intrínseco da criação que, claro, não pode ser vendida em lojas populares e acaba sempre em catálogos. Mais recentemente, ele tem sido procurado por estilistas. Foi para participar do desfile do estilista Silmar Alves que Pires criou tiras de alumínio com os poemas de Helena Kolody em braille. Sucesso total. Este ano, Alves recorreu novamente ao design para homenagear o escritor Dalton Trevisan. Lá foi Pires ''pirar'', criando marcadores de páginas em aço escovado. Dessa experiência relata que ''nunca tinha pensado na jóia como acessório de moda'', mas é.
E da experiência de criar a jóia, qual o maior prazer, fazê-la ou vê-la pronta, ganhando prêmios? ''É quando eu faço. É uma força inacreditável. O gozo é individual em qualquer um que goste do seu trabalho.''


