As fotografias de Júlio Moreira da Silva não saem no jornal, não marcam presença em exposições ou sequer se transformam em livros. Mesmo assim, seu trabalho é tão especial que é admirado com carinho por milhares de pessoas. E não é exagero. São 52 anos de profissão só em Londrina sempre clicando crianças e eventos familiares, de batizados a casamentos de boa parte dos moradores da cidade.
Na verdade, com tantos anos atrás das câmeras, o fotógrafo Moreira, como é mais do que conhecido na região, por diversas vezes tem acompanhado famílias desde o casamento, passando pelo batizado dos filhos, as festas de 15 anos e até o casamento da segunda e terceira gerações. Não por acaso, ele costuma dizer que tem ''netos fotográficos''.
Gaúcho de Passo Fundo, Moreira mudou-se para Londrina em 1951, atrás das maravilhas que tanto ouvira de um corretor de terras que visitava o Rio Grande do Sul. Naquela época, além de recém-casado, o fotógrafo também tinha acabado de completar dois anos de especialização na arte de fotografar crianças. Por conta disso, trouxe na bagagem não apenas a vontade de se estabelecer na cidade, como também a novidade da multifoto. Ou, quem é que não se lembra, o quadro das sete poses ou sete carinhas.
Surgida nos anos 1940, a tal multifoto teve sua época de glória até meados de 1970, segundo o fotógrafo. Toda família queria registrar para a eternidade o pimpolho em sete poses diferentes, desde chorando, passando pela carinha emburrada até o riso aberto. ''Na época em que lancei as sete carinhas foi um sucesso tremendo e fiquei conhecido em toda a região como o fotógrafo das crianças'', explica Moreira, que só fotografou os pequenos nos 10 primeiros anos em Londrina.
''Em 1975, as pessoas começaram a procurar pelos pôsteres'', lembra Moreira. Mas como tudo o que vai, volta, de uns seis anos para cá, a procura pela multifoto voltou. E como é um dos únicos da cidade que ainda sabe as técnicas, o fotógrafo segue como campeão nas lembranças. ''Tenho fotografado muitos filhos daquelas crianças que fotografei anos atrás'', conta.
''Eu muito me honro de ver como tantas famílias permaneceram fiéis ao meu trabalho. Por acompanhar tantos casamentos, batizados, já sinto que essas pessoas fazem parte da minha família e eu também já sou um pouco parte da família delas'', conta.
Pai de quatro filhos, que lhe deram oito netos, todos londrinenses, Moreira também se diz e se considera um ''pé-vermelho com muita honra e satisfação''. Da família, nenhum dos filhos seguiu seus passos fotográficos. Talvez o neto, Danilo, seja o primeiro. Aluno de jornalismo, segundo o avô, já se destaca tanto na produção de bons textos, como também de boas fotos. ''Sempre conversamos sobre o que é e o que não fotojornalismo'', diz.
''Isso aqui (o estúdio no Edifício Tuparandy) nunca foi exatamente uma escola, mas melhor do que a escola é o trabalho na prática'', conta Moreira, que transmitiu seus ensinamentos para muitos e muitos assistentes. ''Muitos deles até acabaram se tornando fotógrafos independentes'', lembra.
De olho na mudança dos tempos, Moreira avisa que está pensando seriamente em ''navegar na era da informática''. Isso significa que seu tradicional estúdio está a poucos passos de entrar no mundo digital, com câmeras mais modernas e computadores. Na verdade, um passo e tanto para quem teve o primeiro contato com a fotografia em 1939, que aprendeu a colorir manualmente as fotografias, que na época só podiam ser em preto-e-branco.
''De 1950 para cá, a evolução na fotografia foi extraordinária. Desde a produção de máquinas a materiais, como os filmes. Tudo isso colocou a fotografia a alcance de qualquer pessoa, até mesmo das crianças'', explica Moreira. ''Os amadores podem conseguir fotografias tão boas como os profissionais'', garante.
Mas é claro que a prática, a experiência e, principalmente, o ''olho'' fazem a diferença. Moreira, que ainda hoje trabalha com as câmeras Rolleiflex e Mamiya C330, compradas em 1958 e 1968, é pra lá de reverenciado pelos fotógrafos da cidade. Muitos deles passaram ainda crianças pelo estúdio do Edifício Tuparandy, onde Moreira faz desde retratos 3x4 a fotografias de crianças, passando até por registros de grávidas. ''Agora está moda'', conta.

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