Curitiba - Prazer, arte da criação e flores. Três passos básicos e elementares que levaram a vida de Manu Daher a tomar um caminho virgem na confecção de arranjos florais. Jovem, 24 anos, filha de atriz, irmã de malabares e mulher de músico. Referências fundamentais para que sua vida não passasse emaranhada atrás de um computador.
Há cerca de cinco anos, Manu não sabia o que fazer da vida. Pensou: ''Vou estudar na Sorbonne''. E foi. Chegando em Paris acabou se interessando por flores. ''Lá acabei me envolvendo pelas flores que a cidade tem. Como sou de Morretes (litoral paranaense) queria fazer alguma coisa que tivesse a ver com a natureza. Mas tinha aquele certo preconceito. Até que fui para Boston, onde acontecia uma exposição de arte floral lá. Foi aí que saquei que tinha como ligar arte às coisas da natureza.''
''A arte sempre me acompanhou'', reafirma. Quando voltou do exterior investiu direto na nova história de vida. Abriu o Engenho das Flores. Uma casa que não é uma floricultura tradicional. É um lugar onde se faz design de flores, profissão escolhida pela curitibana. E também onde a antiga tradição da era vitoriana, quando as espécies e cores de flores tinham sempre um significado para demonstrar um sentimento bom ou ruim, começa a ser quebrada. ''Eu não acredito muito nisso. Sou bem cética. Acredito sim na energia das cores.''
Com esse conceito de quebrar tabus, a designer teve muito para desbravar. ''Ao abrir o Engenho das Flores, as pessoas chegavam aqui e falavam: estive numa festa sábado e vi uns arranjos de flores que quero idênticos para a minha festa. Traziam até fotos querendo que eu copiasse.''
Estabelecer uma imagem sólida e própria de criação passou a ser, daquele tempo até hoje, uma questão fundamental em seu trabalho. ''Tive que ter um poder de persuasão muito forte.'' Como não queria copiar ninguém e sim desenvolver sua veia artística, Manu criou uma clientela que apostou em seu processo criativo. ''Eu não tenho intenção nenhuma de fazer uma loja tradicionalista. Tanto que isto aqui não é uma loja. É um ateliê. Não quero deixar um arranjo pronto durante três dias. Aqui a gente faz tudo na hora e não faz nada igual.''
Hoje seu trabalho é ponta de lança. Manu dita tendências desde que caiu nas graças dos arquitetos da cidade e também do povo da moda (foi ela quem desenvolveu arranjos de flores e folhas, imersos em vidro, que mais pareciam bolas de cristal, no evento de moda Curitiba Fashion Art, em março deste ano). ''Quando aconteceu de eu ficar conhecida pelos arquitetos comecei a poder criar. Agora tenho eventos com espaços reservados para eu fazer uma instalação. Os clientes chegam aqui e pedem para eu criar alguma coisa especial para eles''.
Manu desenvolve arranjos com um alcance muito maior do que o comum. É o caso das esculturas florais. Criando em cima de telas especiais, ela conseguiu fazer verdadeiras obras de arte com folhas e flores. Ao invés de um arranjo durar dois ou três dias, as esculturas podem permanecer expostas até um mês. ''Quem adquire uma escultura pode deixá-la pendurada e acompanhar o processo de mudança das flores e folhas'', explica.
Dentre as muitas coisas que encantam quem conhece de perto as habilidades de Manu, uma chama muita atenção: fugindo totalmente do tradicional, a designer inverteu a ordem e costuma utilizar flores de cabeça para baixo. As chamadas ''flores em negativo''. Por exemplo: em casamentos, onde tudo geralmente é feito em cima de ditames sociais existentes há muito tempo, usar este método dá uma boa renovada. ''O casamento é uma instituição antiga da qual as pessoas não se desvencilham de maneira nenhuma. Mesmo assim a gente está conseguindo criar coisas novas.''
A designer inventou também uma pirâmide de flores. Sobrepostas dentro de caixas de vidro, rosas vermelhas (podem ser de outra cor também) ganham uma leitura que já virou um sucesso na cidade. A primeira vez que a designer fez este trabalho foi para a mostra da Artefacto, há um ano. Agora, quando a loja renova seus espaços de decoração, após 11 meses com trabalhos de profissionais da cidade expostos lá, Manu ganha um lugar só para mostrar as criações do Engenho das Flores.
Outro dado importante: Manu gosta de pesquisar materiais novos. Quando viaja busca elementos novos. Em Brasília, certa vez, encontrou algumas sementes grandes no Cerrado. Pareciam coquinhos. Com isso criou arranjos inusitados, unindo as sementes com velas e sempre com folhas e flores.
''As pessoas mais simples estão mais próximas daquilo que eu preciso. Estão mais perto da natureza. Então eu vou para Morretes, para o meio do mato, e converso com os caiçaras para ver o que eles andam plantando.'' Essa é a parte gostosa do processo, segundo Manu. Como busca um ''caminho alternativo'' para suas criações, ela sai na frente.
Descobrindo, inventando uma maneira de fazer diferente. Com o tempo, e as descobertas lançadas no mercado, Manu começa a ser seguida pelos concorrentes. ''Às vezes passo em uma floricultura e vejo umas flores em espiral que foram originalmente lançadas por mim'', diz. Esta é mais uma das facetas da moda em Curitiba. Um processo de interferência milenar que anda junto com roupas, decoração e comportamento, influenciando no astral dos moradores da cidade que vão atrás de uma característica especial para sua festa.

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