Um bom exemplo
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sábado, 03 de março de 2007
Karla Matida<BR>Reportagem Local 
Ainda pequena em Assaí, Kimiko Yoshii recebeu o que chama carinhosamente de herança de família: aprendeu logo cedo a levar bem-estar para o próximo. A lição herdada dos pais já estava no DNA dos bisavós japoneses e deve seguir passando para as próximas gerações. Tanto que foi idéia do seu filho Leonardo lançar o Instituto Atsushi e Kimiko Yoshii, criado no final do ano passado e que promete levar cultura, esporte e educação para quem precisa. ''É uma forma de oficializar a nossa solidariedade'', conta.
Mas muito antes de ver seu nome e de seu marido na bela placa - que traz um cristal de gelo, símbolo do brasão da família Yoshii -, Kimiko já era associada às causas nobres de Londrina. Há mais de 25 anos é voluntária da Apae e há três foi convidada para fazer parte da diretoria da Guarda Mirim, que atende mais 350 jovens carentes.
''As pessoas falam em responsabilidade social, mas para mim é amor ao próximo'', explica Kimiko, que é formada em Letras e Direito - faculdade que, aliás, cursou depois de casada e com o filho criado. ''Comecei aos 15 anos a participar de grupos de jovens da Igreja Católica'', lembra.
Anos depois ela volta a se reunir com um especialíssimo grupo de jovens, o Ishindaiko, vitorioso no ano passado num concurso nacional de Taiko (tambores japoneses). No próximo dia 20, Kimiko dá a volta no planeta para acompanhar 11 meninos e meninas de 14 a 16 anos num concurso em Kyoto, no Japão. ''Eles vão competir de igual para igual'', entusiasma-se. Os primeiros tambores do grupo foram comprados pela família Yoshii, que também é responsável pela criação do espaço de ensaios.
Na Guarda Mirim, os 373 adolescentes entre 14 a 18 anos têm proporcionado a ela muitos motivos de orgulho. Nos últimos dois anos dois deles ficaram entre os primeiros lugares do prêmio de jovens talentos do Encontro de Atividades Científicas promovido pela Unopar. ''A grande maioria das escolas públicas e particulares participou'', conta a diretora. ''Isso prova que eles têm potencialidades e que vale a pena investir nos jovens'', ensina.
''Todos nós podemos doar algo. Sejam horas de boa companhia ou uma boa palavra'', avisa Kimiko, que está sempre procurando inspirar mais e mais pessoas com seu exemplo. ''Uma pessoa faz muito pouco se for sozinha'', diz. Não por acaso, ela usa seu tempo para buscar novas parcerias ''O objetivo é tornar a Guarda Mirim auto-sustentável'', afirma.
''Eu me preocupo com três faixas etárias, as crianças, os idosos e os adolescentes, que são esquecidos. É uma faixa de grande risco porque os jovens estão morrendo mais cedo e estão desesperançados. São carentes de tudo, tanto familiar quanto economicamente. Investir na educação deles é o melhor instrumento para livrá-los da delinquência'', garante. Além das parcerias com empresas e entidades, a Guarda Mirim também está sempre promovendo beneficentes. ''Há uma lista de espera de 100 nomes, mas a estrutura ainda é limitada''.
Casada há 39 anos, Kimiko diz ter encontrado um excelente parceiro com quem compartilha os sonhos. Além de estarem juntos no Instituto - ele é o presidente, ela a vice -, o casal também está na comissão de preparativos para as comemorações dos 100 anos de imigração japonesa no Brasil, o Imin 100. E os valores da cultura nipônica ajudam a nortear não só os passos da dupla como de quem os cerca.
É o caso dos participantes do Ishindaiko. Com a aproximação da viagem para o Japão, Kimiko passou a reuni-los para palestras especiais que contam um pouco da história e da cultura do país. ''Transmitimos o que há de melhor como a disciplina, o espírito de equipe, a solidariedade, a responsabilidade, a pontualidade, a união e a amizade'', enumera. ''É revigorante estar ao lado dos jovens. É uma renovação em todos os aspectos'', ensina.
Além do contato com os mais novos, Kimiko também se renova com as viagens - já conhece boa parte do planeta -, com os estudos e a leitura. ''Pretendo viajar até morrer'', avisa. Antes de cada novo embarque, ela se prepara captando o maior número de informações sobre o lugar escolhido. ''Se você não se prepara, muitas coisas se perdem'', garante.
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, Kimiko lembra do seu novo desafio, inspirar mulheres nikkeis (descendentes de japoneses) de 40 a 70 anos para se modernizarem. ''Muitas ainda estão sob o jugo da família e dos afazeres domésticos'', explica. Ela tem promovido palestras para essas mulheres lembrando que é preciso estar ''ao lado dos homens, atualizada e lançando idéias. Para isso é fundamental que elas estejam informadas'', afirma.
''Viver é um privilégio e eu procuro desfrutar bem de cada etapa'', lembra a mulher de múltiplas atividades. Ela ainda cita Dom Helder Câmara: ''Sonho que se sonha só é apenas um sonho. Mas sonho que se sonha junto é o início de uma realidade''. Um bom exemplo como Kimiko também pode virar uma nova realidade para muita gente. Os meninos da Guarda Mirim que o digam.


