No filme ''Desconstruindo Harry'', de Woody Allen, o protagonista, um escritor, passa por inúmeras confusões depois de fazer inserções da sua vida real em seus livros de ficção. A comédia ácida, bem ao estilo de Allen, de alguma forma inspirou o artista plástico curitibano André Mendes a montar a sua ''Desconstrução'', a primeira grande exposição individual que apresenta desde que decidiu ser artista e passou a ver diversos quadros, painéis e murais seus nas principais praças, prédios e galerias da Capital.
A trajetória de Mendes não aconteceu por acaso. Sobrinho do também artista Jair Mendes e filho da decoradora Yara Mendes, ele cresceu em um ambiente criativo. Passou a infância em Curitiba e, no final da década de 90, fez o que seria a primeira, de muitas viagens ao exterior, em um intercâmbio na Austrália. ''Foi quando eu conheci gente do mundo inteiro e comecei a perceber que a amizade não tem fronteiras'', conta o artista.
Na volta para a capital paranaense, Mendes cursou Design Gráfico na PUC . Durante um tempo trabalhou na área, mas decidiu se inscrever em um edital para fazer um mural do colégio Sion, em São Paulo. Acabou sendo aprovado e dando início à sua experiência com murais de grande proporção. ''Esse primeiro trabalho tinha a ver com a educação e foi uma coisa bacana porque o Sion foi a escola que estudei em Curitiba'', conta o artista. Logo em seguida, ele assinou mais um mural, dessa vez na capital, para um instituto de direito. Foram os primeiros de dezenas de murais que hoje estão espalhados pela cidade.
Prédios como o da Sanepar, do Clube Curitibano, hospitais, bares e até praças públicas ostentam murais e painéis do jovem artista. Porém, paralelamente a esse trabalho, Mendes continuou seu périplo de pesquisa e experiências por diversas cidades do mundo. Em 2003, após terminar a faculdade, seguiu para Barcelona. Na Espanha chegou a trabalhar com design gráfico, mas as artes plásticas sempre esbarravam no seu caminho.
Fez um curso de ilustração na Escuela de Imagem y DeseÀo e expôs os seus trabalhos por lá. No ano seguinte, de volta a Curitiba, executou painéis em cerâmica e começou a participar ativamente do cenário artístico da capital, integrando-se a eventos, como a Casa Cor, e desenvolvendo os murais que ajudaram a projetar a sua carreira. Em 2005, foi convidado pela Porto Esfera Artefacto Design, em Portugal, para uma exposição individual em território lusitano. Aceitou o convite e em três meses criou mais de 20 peças exclusivas para a mostra.
Depois de Portugal, Mendes ainda passou uma temporada na Espanha e em Paris. Há há dois anos integra, em Curitiba, o Coletivo Interlux, uma reunião de artistas que promovem revoluções culturais na cidade usando a arte como arma. A essa altura o leitor deve estar se perguntando como o jovem artista consegue fazer tantas coisas vivendo apenas de ''arte''. É possível? Mendes prova que sim, mas avisa que é preciso encontrar um meio-termo dentro do cenário artístico e da sua relação com o comercial.
''O cenário é complicado, mas minha pesquisa pessoal se encaixa em um lugar que permite uma contextualização''. Ele admite que tem um trabalho comercial, mas que não deixa a irreverência de lado em projetos como os que desenvolve com o Interlux, por exemplo. ''Tudo vai depender de quem é você'', salienta. Mendes está nesse processo de descoberta, tanto que na sua recente exposição reuniu técnicas diversas, estilo pessoal e inseriu novas pespectivas no trabalho. ''Minha grande pesquisa é não ter limites no trabalho'', conclui. Pois na desconstrução, é possível encontrar a própria essência.

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