Um amor de chef
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de dezembro de 2004
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Dizer que o empresário do ramo gastronômico, dono de umas das pizzarias mais famosas da cidade, a Gepetto, e mais recentemente, do Zé Firino, bar e restaurante, Vanderlei Amor é um amor de pessoa, é uma redundância no sentido literal e metafórico da palavra. É que o paulista, radicado aqui há anos, herdou da mãe o sobrenome que já lhe rendeu as mais divertidas brincadeiras, e não é pra menos. Amor já traz na certidão de nascimento a nomenclatura de um sentimento que é o mais ambicionado por todos os seres vivos do Planeta.
Bem, mas isso é só um detalhe na vida de um perseverante arquiteto que estudou na Faculdade de Belas Artes da capital paulista e a esse fato atribui a sua sensorialidade de ter virado chef por instinto. Quando era mais jovem fui até músico, tocava violão, guitarra. Cheguei a trabalhar com meu pai numa indústria de cerâmica. Tudo isso contribuiu quando eu optei pela culinária. Autodidata na manipulação de alimentos, Vanderlei Amor começou cedo a brincar de cozinheiro, bem antes de se profissionalizar e de fazer alquimicamente as pizzas do Gepetto virarem uma febre.
As primeiras vezes foram aquelas de praia, quando alguém tinha que cozinhar. Esse alguém sempre era eu. Ai comecei com macarrão que é o que todo mundo faz. Depois parti para os frutos do mar. Disso para Amor virar chef profissional ainda
levou tempo.
Foi num final de semana, no interior do Paraná, que o então arquiteto, músico, cheio de empreendedorismo, conheceu o amor de uma curitibana que o fez vir para cá. Tucha, como é conhecida sua mulher, era bailarina e acabou trazendo-o para viver em Curitiba.
Logo que chegaram investiram tudo o que tinham numa loja de roupas. Trabalharam com moda durante seis anos. Com o tempo, a história foi cansando e Amor ficou inquieto por recomeçar tudo. Convenceu a mulher e investiu o que tinha em um conceito novo de pizzaria. A Gepetto abriu seis anos atrás, num pequeno espaço, no bairro Batel, um dos principais centros gastronômicos, e tinha um caráter completamente diferente. Poucas mesas, pizzas com massa bem fininha e o pizzaiolo era ele mesmo: o dono.
Vanderlei ficou um ano se preparando para abrir o novo negócio. A princípio era ele mesmo quem fazia tudo. E foi assim que o milagre que todo mundo que abre um negócio espera aconteceu. Um dia, eu estava lá atrás e meu garçom falou para eu olhar lá fora. Quando vi havia uma fila enorme de gente esperando para ser atendida. Isso aconteceu depois de uns seis meses que a Gepetto havia inaugurado. Seu sucesso veio certamente por que a pizza é deliciosa e por outros dois motivos: o charme de uma pizzaria ter menos de dez mesas e o fato de que de onde Amor preparava os pratos havia um vidro e todo mundo acompanhava o trabalho do chef. Era uma nova atitude tomando conta e encantando os tradicionais curitibanos.
O mais interessante na história de Amor é que ele fez tudo sempre por seu caráter de apostar numa intuição, sem esperar esse ou aquele resultado exato. Não pensei muito que isso poderia acontecer, conta. Mas aconteceu.
Há poucos meses, Amor investiu novamente numa idéia. Criou um personagem, o Zé Firino, para dar nome a um bar restaurante com característica totalmente brasileira. Zé Firino tem até naturalidade, nasceu em Feira de Santana, Bahia, mas se considera um cidadão do País. Amor aposta numa filosofia que acredita ser uma tendência: comida brasileira, simples, sem muitos invencionismos. É o botequim puro, com cervejinha, cachaça da boa e atendimento cuidadoso.
Nesse novo momento, Amor continua com o mesmo espírito de acreditar no novo, sem medir muito de que forma esse negócio poderá crescer. Mas uma coisa ele faz com afinco: trabalha muito, poucas vezes tira férias, é viciado no batente e quando sai busca em cenas do passado a
paisagem para seu descanso: adora ir à praia.


