Cláudia Raia pensou que fosse enfartar quando foi chamada para fazer um transexual em ''As Filhas da Mãe''. O convite - ou melhor, a ''notícia-bomba'', como ela própria define - chegou a caminho de Nova York, num vôo em que, coincidentemente, o autor Silvio de Abreu também estava. Até hoje, ela não sabe se naquele instante o avião entrou numa turbulência ou se foi ela que começou a tremer. Na dúvida, pediu um copo de água com açúcar para a aeromoça. ''Não preguei os olhos a viagem inteira. Fiquei assustadíssima'', recorda. Espantado com a reação da atriz, Sílvio aproveitou o vôo para jogar sua lábia. Explicou que Ramona não passava de uma grande brincadeira e que a personagem não seria enfocada com a mesma seriedade com que foram vistos homossexuais como Sandrinho e Jefferson, de ''A Próxima Vítima'', ou Rafaela e Leila, de ''Torre de Babel''. Por fim, lustrou o ego da moça dizendo que nenhuma outra atriz teria a coragem de se expor num papel como este. ''Papéis como esse exigem um certo despudor. Mas, depois que fiz o Tonhão no 'TV Pirata', faço qualquer coisa'', diverte-se.
Mesmo sendo uma ''piada'', Ramona trouxe problemas para a classificação da novela para o horário das sete. A princípio, o Ministério da Justiça queria que ''As Filhas da Mãe'' fosse exibida no horário das oito. ''É uma hipocrisia só. Todos os domingos, a gente vê bundas em profusão na tevê e ninguém fala nada'', reclama a atriz. Mais uma vez, o autor se encheu de paciência e explicou que, na verdade, Ramona pode ser apenas uma impostora se fazendo passar por uma das três personagens-título. ''É uma comédia deliciosa e Ramona é a mocinha. É como se ela fosse a Regina Duarte da novela. No meu caso, um Reginão'', corrige a simpática mulher de Edson Celulari e mãe do pequeno Enzo, de quatro anos.
Para compor o tom farsesco da personagem, Cláudia não julgou necessário fazer laboratório. Ela se diz familiarizada com o universo gay e elaborou a Ramona a partir da própria observação. Quando começou a carreira como bailarina, Cláudia se cansou de ouvir brincadeiras que a comparavam a travestis e ''drag queens''. Tudo por causa da beleza exuberante, os lábios carnudos sempre pintados de vermelho, a vasta cabeleira que já mereceu puxões de fãs mais desconfiados e a altura de 1,80 m, ressaltada pelo inseparável salto 15. ''Na adolescência, era maior do que o normal. Mas acho que hoje estou do tamanho certo'', torna a brincar.
Aos 34 anos, Cláudia Raia é a primeira a reconhecer que sempre teve inclinação para o humor. Não por acaso, estreou na tevê no humorístico ''Viva o Gordo'', em 1983, fazendo comédia ao lado do ex-especialista no gênero, Jô Soares. Dois anos depois, fez a sensual Ninon em ''Roque Santeiro'' e não parou mais. Em 18 anos, já fez mocinha, heroína e vilã. Mas ficou famosa mesmo graças a tipos cômicos, como a escandalosa Tancinha, de ''Sassaricando'', ou a estabanada Adriana, de ''Rainha da Sucata'' - as duas de Silvio de Abreu. ''A não ser pelo trabalho, nunca levo nada a sério. Sou debochada por natureza'', confessa.
Por essa associação com o humor, Cláudia pouco foi chamada para fazer tipos dramáticos na tevê. Quando Denise Saraceni sugeriu a atriz como protagonista da minissérie ''Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados'', o diretor Carlos Manga levou um susto: ''Mas ela é comediante!''. Só com muita insistência, ele deu uma olhada nos testes da atriz. Na mesma hora, Manga mandou chamar Cláudia e pediu desculpas a ela. ''Em vez de ficar reclamando da vida, corri atrás e virei a mesa. Consegui mostrar que posso fazer vários tipos'', gaba-se.

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