Francisco Gregori, conceituado cirurgião cardiovascular, um homem romântico e por acréscimo entendido em vinhos
Dorico da SilvaFrancisco Gregori com a mulher, Thelma: ‘‘A riqueza maior é a família’’

Walmor Macarini

Coisas do coração, como cultivar o romantismo e a gratidão às pessoas, não ter medo de manifestar os bons sentimentos, entregar-se por inteiro à mulher que se ama. Coisas do coração, como agradecer a Deus por todas as dádivas.
Coisas do coração, como consertar o próprio, restaurar suas válvulas originais e fazê-lo bater de novo, forte e compassadamente.
Francisco Gregori, um homem que tem intimidade com todas essas virtudes do coração. Cirurgião cardiovascular, faz do coração o seu mais fiel companheiro de jornadas.
Melhor que o chamemos de Chico, porque é assim que todos o chamam e é assim que ele gosta. E Gregori com ‘‘i’’, não com ‘‘y’’, porque de origem italiana, brasileiro de Bocaina, um lugar de 10 mil habitantes plantado bem no coração (tinha que ser...) do Estado de São Paulo.
Chico Gregori, 52 anos, operador de coração, como as pessoas dizem. E dos bons, dos melhores entre os melhores. Cidade-sede: Londrina.
Duas cirurgias por dia, 60 por mês, 500 por ano, 13.000 (melhor repetir: treze mil) desde 1975, quando ele aqui chegou.
Mal termina esta entrevista e ele já corre para o Hospital Universitário, onde mais opera (e segundo suas palavras o melhor e mais bem equipado centro regional de cirurgias cardiovasculares), ou pode ser na Santa Casa ou no Hospital Evangélico. Passam pelas suas mãos, na maioria, corações de gente pobre, atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas Chico nestas horas não vê rostos, apenas corações, e para ele são todos iguais. Ele opera com mais dois cirurgiões e a equipe de pós-operatório. Entre eles sua mulher, Thelma, que é médica anestesiologista, com curso de Pós-Operatório no Instituto do Coração da USP, companheira presente em todos os seus momentos e que acalanta seu coração, eis que ele também tem um...
Esta equipe é consagrada como a mais experiente, na América Latina, em cirurgia reconstrutora de válvulas cardíacas.
Chico é apaixonado por coração, mas antes de tudo pela família. Tem cinco filhos, de diferentes idades, os dois últimos ainda crianças.
Mora num paradisíaco recanto à margem do Lago Igapó, onde não faltam espaços. E muitas cadeiras, para que se sentem muitos amigos... Chico gosta de cultivar estas coisas: boa roda, boa conversa, muitas partidas de tênis, em sua própria quadra. (Nos dias do Pré-Olímpico o global Galvão Bueno andou jogando lá).
Depois de 23 anos de estudos, desde o primário em Bocaina, é esta a ficha técnica de Chico Gregori: curso médico, pela Escola Paulista de Medicina; curso de Cirurgia Geral, pela Universidade de São Paulo (USP); curso de Cardiologia Vascular, também pela USP, com o professor e cirurgião Eurícledes Zerbini (já falecido e Pai da Cirurgia Cardíaca na América Latina, e o primeiro a fazer transplante de coração nesta região do continente); mestrado em Cirurgia, pela USP; doutorado em Cirurgia Cardiovascular, pela Escola Paulista de Medicina; e especialização em técnicas de reconstrução de válvulas cardíacas, pela Universidade de Paris.
A partir daí passou a desenvolver técnicas suas, que seus colegas pelo mundo passaram a adotar. A classe médica de sua especialidade conhece a técnica denominada ‘‘Anel de Gregori’’, uma prótese que remodela a válvula mitral, e já tem 12 anos de aplicação prática.
Gregori tem feito cirurgias demonstrativas em vários hospitais do Brasil e do exterior, sobre suas técnicas. É chefe da disciplina de Cirurgia Cardiovascular da Universidade de Londrina, operou com Zerbini e hoje atende pacientes de todo o Paraná, de todo o Brasil e também de países vizinhos. Há cinco anos recebeu a Comenda Ouro Verde, da Câmara Municipal de Londrina, pelos serviços prestados à causa do salvamento de vidas e do bem-estar dos cidadãos.
‘‘O trabalho é a diversão mais barata que existe’’ – ele ensina. Por isso não se importa de levantar às 3 da madrugada, se for chamado para um atendimento urgente.
O recurso repentino que ele empregou, ao usar super-bonder numa cirurgia, ganhou notoriedade. Aconteceu há três anos, em Londrina, com uma paciente que tivera o coração ‘‘estourado’’. O tecido necrosado não aceitava a sutura e se rasgava. Havia muito sangramento e Chico não teve dúvida: mandou que pegassem rápido um super-bonder, e como no hospital não havia, alguém saiu correndo e buscou-o numa loja de conveniência próxima. Gregori colou com esse adesivo as paredes do coração e estancou a hemorragia.
‘‘Vale tudo para salvar uma vida, e como não usar se pode dar certo?!’’ - enfatiza. Ele usou e deu certo, porque a paciente está viva, e bem, até hoje.
Este famoso cirurgião tem alguns ensinamentos, e os passa aos alunos. Um deles é que o estudante de Medicina escolha a especialidade de que mais gosta. ‘‘Porque ele às vezes escolhe pela oportunidade, que pode ser uma necessidade da região. O recém-formado sem uma definição sabe pouco sobre muita coisa, mas quando identifica antes o que gosta, e se especializa nisto, saberá muito sobre essa área em que se especializou’’ – recomenda.
A uma pergunta sobre se o cirurgião se comove ao abrir o peito de uma pessoa e manipular um órgão delicado como o coração, diz que é solidário com a dor do paciente, e que todos os médicos são assim. E afirma que, em contrapartida, médico gosta da gratidão do paciente.
Chico Gregori, que lida com corações, ensina que é preciso seguir o coração... porque, ‘‘quando se calcula muito, pode-se chegar ao mesmo resultado porém com alguns atropelos. Seguindo o coração você poupa mais as pessoas, em todos os sentidos’’ - aconselha.
Este operador de corações é católico, mas confidencia que até 12 anos atrás estava ausente de Deus, embora sem deixar de ser cristão, eis que sempre praticara o cristianismo, ‘‘não como religião mas como essência’’. E que hoje já não pede coisas a Deus mas apenas agradece a Ele por todas as coisas que lhe foram concedidas.
Revela que sua mulher, Thelma, contribuiu muito para fazê-lo enxergar o que ele não via. Ela lhe mostrava que em tudo havia ‘‘uma mão ajudando-o’’, e que ‘‘essa mão era a de Deus’’. E diz que reencontrou Deus não num momento amargo, como tem acontecido com muita gente, mas justamente quando tinha todas as coisas. Revelava-se aí a percepção e o sentimento genuíno de gratidão.