Cláudia Ohana está visivelmente possuída pela Aurora de ''As Filhas da Mãe''. Tanto que não consegue pronunciar corretamente o nome de sua personagem, exatamente como faz a própria Aurora na trama de Sílvio de Abreu. ''Estou fazendo até aulas de neurolinguística para saber quando estou na pele da Cláudia e quando na da Aurora. Me confundo toda'', assume a atriz de 38 anos. Na verdade, a personagem, que ''assassina'' o português e fazia strip-tease antes de laçar o endinheirado Manolo, papel de Tony Ramos, é o primeiro papel assumidamente cômico de Cláudia na televisão. ''Estou achando ótimo, mas tenho de mostrar serviço, pois só tem humoristas feras na novela'', ressalta.
Desligada, Cláudia também se surpreende ao constatar que está completando 20 anos de televisão. Ela estreou em 1981 no seriado global ''Obrigado, Doutor'', protagonizado por Francisco Cuoco e dirigido por Walter Avancini. Apesar de não recordar direito da produção, a atriz garante que vivia uma personagem esquizofrênica, tipo dramático que nunca mais incorporou na televisão. ''Não gosto de personagens naturalistas. Minha preferência são os papéis de composição, exatamente como a Aurora'', comemora Cláudia, que está em sua sétima novela.
A atriz se diverte ao comentar o melindre de Tony Ramos ao fazer cenas mais ousadas entre Manolo e Aurora. O ator fica encabulado, por exemplo, de dar os costumeiros tapinhas que Manolo desfere no ''bumbum'' da namorada. ''Digo para ele que não tem problema'', diverte-se. Cláudia também encara com bom humor a fama de ''amazônica'' que ganhou desde que posou em pêlo para a revista ''Playboy'' em meados da década de 80. ''Acho que vou fotografar de novo para tirar esta minha imagem. Isto já virou folclore'', despista a atriz carioca.
Rodrigo Teixeira
TV Press
Você geralmente interpreta tipos exóticos na televisão. Como é fazer um personagem voltado para o humor?
Realmente é novo para mim. Brinco inclusive com o Jorginho, dizendo que ele está me transformando em uma humorista. Mas o que mais me chama a atenção nesta novela é que estou vivendo o meu primeiro personagem realmente popular. A Aurora é uma pessoa que vem do povo. Ela era pobre e fazia strip-tease em boates decadentes. É uma pessoa ignorante que não teve estudo. Acho, inclusive, que ela é mais erótica do que sensual, pois ela não tem nada de sutil. Como fiz pouca comédia na tevê, participar de uma novela com um elenco de grandes comediantes é uma honra mesmo. Estou do lado de feras e, por isso, tenho de manter o nível. Em ''A Muralha'', a minha personagem também tinha toques cômicos, mas agora é bem mais engraçada.
E qual a diferença em fazer humor?
A primeira diferença que senti foi a abordagem, que está mais erótica nesta novela. Quando ando na rua, percebo um povo me olhando de maneira diferente, aquela coisa mais sexualizada mesmo. Deve ser porque a Aurora tem um lado mais vulgar. Mas, no fundo, acho que ela é bastante ingênua. Como é muito comunicativa, acho que o público se anima mais em vir falar comigo. Além do mais, esta dobradinha com o Tony reforça este lado mais popular, porque são dois personagens de composição e que brincam com os tipos comuns e fáceis de identificar. Me inspirei em muitos tipos para compor a Aurora.
Você pode citar alguns?
Primeiro fui fazer aulas de strip-tease, já que era isso que a Aurora fazia antes de agarrar o Manolo. Sempre que posso, assisto a programas de auditório para ver como são as tais popozudas também. Fico vendo e pensando ''gente, isto é totalmente Aurora''. Elas fazem umas caras ótimas para as câmaras, tipo ''estou aqui'', que às vezes imito na novela. Mas essencialmente vi muitos filmes. Entre eles, ''My Fair Lady'', de George Cukor, com a Audrey Hepburn. Como acontece no filme, minha personagem também vai tentar se transformar em uma dama refinada da sociedade. Também vi algumas produções como ''Strip-tease'', com a Demi Moore, e ''O Povo Contra Larry Flint'', em que a Courtney Love tira a roupa em uma apresentação. Assisti algumas vezes a ''Nascida Ontem'', um filme de 1950 que o Sílvio revelou que a minha personagem é meio inspirada. Por minha conta também me inspirei no estilo da Marilyn Monroe. Aquela coisa ingênua, engraçada, burra e sexy. Tem o diabo e o anjo ao mesmo tempo.
Você é do tipo que não consegue se desligar do personagem após as gravações?
Tento, mas não consigo. Estou até fazendo neurolinguística para ver se melhoro. O meu médico me disse que tenho de fazer alguns exercícios. Um deles é dizer, quando acabar de grava: ''agora eu sou a Cláudia'' e, quando reiniciar a gravação, repetir: ''agora eu sou a Orora'' (sic). Meu Deus, continuo errando o nome da Aurora. Ela faz isso o tempo todo e eu também. Este negócio de falar errado está fazendo uma enorme confusão na minha cabeça. O Tony até brinca que, quando acabar esta novela, vou ter de entrar na escola de novo. Porque erro tudo. Pelo menos até agora nenhuma feminista implicou com esta coisa de ela ser meio burrinha. Talvez porque ela pareça sincera. Então as pessoas gostam. E também tem mulheres gostosas que não são burras. Outras não são gostosas e também não são inteligentes. Então, a burrice da Aurora não quer dizer que toda mulher gostosa seja burra.
Em ''A Próxima Vítima'', você fez uma vilã. É mais difícil participar de uma novela em que você passa o tempo todo praticando maldades?
Para mim, conviver com uma personagem dramática é bem mais difícil. Em ''A Próxima Vítima'', sofria muito de enxaqueca. Embora tenha sido uma ótima personagem, a Isabela me dava muita dor de cabeça. Como levo a personagem para casa, foi uma loucura, pois são as pessoas da família que acabam tendo de aguentar. Desta vez, como a Aurora é engraçada, toda a minha vida fica mais divertida. Brincar durante as gravações diverte mais o ator de uma forma geral. Fica uma relação mais leve com o trabalho. Quando vou para a gravação de ''As Filhas da Mãe'', esqueço do mundo.
O Tony Ramos é conhecido por sua dedicação à família. Como é protagonizar cenas tão ''calientes'' entre a Aurora e o Manolo?
É muito engraçado, porque ele fala ''dá licença?'' antes de encostar em mim. Falo para ele: ''vamos lá, Tony''. Porque, às vezes, ele me dá uns tapas na bunda e digo: ''vai, Tony, não tem problema não''. A gente ri muito. O Tony é uma pessoa muito séria, íntegra. Mas ele é Manolo na hora que tem de ser Manolo, não tenha dúvida. O principal é que ficamos à vontade um com o outro e tivemos uma boa química. Porque deve ser complicado quando um casal não dá certo e tem uma novela inteira pela frente. Mas o Manolo e a Aurora são perfeitos um para o outro. Além disso, o Tony é um ator experiente e eu não estou exatamente começando. Só de cinema, já são 21 anos.
Já na tevê, você está completando 20 anos de carreira. Lembra de algo especial de sua estréia na telinha?
Foi em um dos capítulos do seriado ''Obrigado Doutor'', em 1981, e não esqueço do Walter Avancini. Tinha feito um teste na Globo para outra produção e não passei. O Avancini viu e me chamou para conversar com ele. Disse que tinha achado meu rosto exótico e meus olhos expressivos. Fiquei muito feliz. Mas o Avancini era uma pessoa superdura. E ele era do tipo que gritava o tempo todo e eu ficava péssima. Depois ele falava que tinha sido ótimo e tal. Tem diretor que trabalha com a agressividade do ator... Ainda mais comigo, que estava vivendo uma esquizofrênica.
Na sua opinião, qual foi o ponto alto e baixo de sua carreira na televisão?
O baixo foi ''Zazá'', pois era um personagem naturalista que não teve nada de nada. ''Tieta'', apesar de ter sido apenas o primeiro capítulo, foi muito mais marcante. Na verdade, só melhorei como profissional depois de fazer teatro em 1993. Antes disso, não me considerava uma boa atriz. Por isso, ''Vamp'', além do ponto alto, foi a produção mais importante da minha carreira.
Por quê?
Porque foi quando comecei a gostar de fazer televisão. Antes não conseguia gostar porque fazia cinema, que tem um esquema diferente. Foi ''Vamp'' que me abriu a cabeça. Comecei a achar maravilhoso não decorar o texto e inventar na hora, exercitar a profissão todo dia. Na verdade, tinha preconceito contra a televisão. Achava muito rápido, que ninguém dava atenção para o ator, que não existia laboratório. Mas em ''Vamp'' aprendi a brincar e ter prazer em fazer televisão.

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