Os percalços e lances mais emblemáticos da trajetória de Juscelino Kubitschek são um prato cheio para qualquer roteirista. Principalmente os que dizem respeito à maturidade do ex-presidente, fase que está sendo retratada no atual momento da minissérie ''JK'', da Globo. Ao abordar a saga do carismático político, no entanto, os autores Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira cometem alguns pecados, como a exposição de uma mal-traçada fronteira entre ficção e realidade.
Assim como acontecia na fase anterior, a nova etapa se mostra um retrato por demais romanceado, com um roteiro excessivamente folhetinesco, incontáveis histórias paralelas e numerosos núcleos narrativos. Mesmo com bons índices de audiência a média é de 32 pontos , os números não traduzem, necessariamente, que a trama esteja sendo conduzida com perfeição ou, tampouco, que ela reflita adequadamente a importância política de Juscelino. Ao contrário, o roteiro tem ''furos'', em especial no que diz respeito ao confuso ''embaralhamento'' de personagens reais e fictícios, o que forma uma ''colcha de retalhos'' de difícil ''digestão''.
Apesar de bem produzida, com uma direção de arte caprichada e rica em detalhes, o enredo da minissérie tem deixado a desejar. Ao supervalorizar as tramas paralelas, em detrimento da história de Juscelino Kubitschek, os autores mais confundem do que esclarecem, fazendo com que o público chegue até a pensar que alguns personagens realmente existiram. Uma pena, já que é louvável a intenção da Globo de retratar a vida do ex-presidente.
Como não poderia deixar de ser, o momento é oportuno para se homenagear JK, já que em 2006 se completam 50 anos de sua chegada à presidência da República e 30 de sua morte. Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, contudo, resolveram seguir o caminho mais fácil, o do apelo fácil da ficção, o que demonstra até certo menosprezo pelos telespectadores.
Mesmo tendo uma boa história para contar, os autores pecam pela falta de apuro na condução das tramas envolvendo a vida de JK. Além disso, um estranho e curioso detalhe cerca o desenvolvimento da história: uns personagens envelhecem e outros, não. Nessa terceira fase da minissérie, chama a atenção o ''amadurecimento'' repentino de JK e de Dona Sarah, por exemplo, agora interpretados por José Wilker e Marília Pêra. O rápido envelhecimento também atingiu as mães do casal, Dona Luisinha e Dona Júlia, que atualmente são ''encarnadas'' por Eva Wilma e Ariclê Perez, assim como a irmã e o cunhado do presidente, Naná e Júlio Soares, vividos por Denise del Vecchio e Tato Gabus Mendes. Acontece, porém, que a passagem de tempo entre as duas fases foi um tanto curta cerca de cinco anos para que eles envelhecessem tão rapidamente. Para piorar, outros personagens continuam sendo interpretados pelos mesmos atores da segunda fase, casos de Salomé e Leonardo, de Deborah Evelyn e Caco Ciocler. Tal recurso deixa duas possíveis impressões para o público: ou foi utilizada uma incompreensível ''licença poética'' com relação à idade dos personagens, ou a direção de elenco não se preocupou com um detalhe que salta aos olhos.
Mesmo com todos os erros, os rumos da nova fase da minissérie ainda poderão ser corrigidos, caso os autores se detenham realmente na história de vida de JK, com a valorização dos fatos reais. Apesar de ainda contarem com diversos personagens fictícios, Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira têm nas mãos o melhor momento da saga de Juscelino Kubitschek, que são os anos em que o ex-presidente entra definitivamente com força na política brasileira. É nessa época que ele, ao assumir o cargo de deputado federal e, em seguida, o governo de Minas Gerais, inicia a marcha rumo à presidência da República. Além disso, os autores terão a oportunidade de ''dissecar'' o tempo em que Juscelino deixa de ser um ''caudilho'' local e passa a exercer liderança nacional. Basta, em suma, que os autores não se percam novamente na ênfase às histórias paralelas e se lembrem de que têm nas mãos um grande e real personagem.

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