Trajetória iluminada
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sábado, 16 de junho de 2012
Paula Costa Bonini <br> Reportagem Local 
Na vida da médica Zuleika Thomson, 70 anos, não há espaço para nenhum tipo de frustração ou arrependimento. Muito pelo contrário. Ao olhar para trás e lembrar da trajetória de mais de 40 anos atuando na área de pediatria e em programas de estímulo ao aleitamento materno, a sensação que vem à tona é de dever cumprido. Nem mesmo o fato de ter tido dificuldades para amamentar os dois filhos é motivo de descontentamento.
''Eu tentei muito, mas tive uma complicação e a minha mama empedrava. Na década de 1970 a equipe médica não tinha conhecimento para resolver o problema, que hoje é facilmente solucionado. Meu primeiro filho mamou três meses e meio e a minha filha menos tempo ainda'', revela a médica, referindo-se a André, 42, e Márcia, 39.
A situação, no entanto, não a abalou. ''O importante é dar o máximo de si para as pessoas que a gente ama. E, naquele momento, eu fiz tudo o que podia. Era outra realidade'', contextualiza. A experiência pessoal, de certa forma, refletiu positivamente na sua carreira. ''Desenvolvi muitos treinamentos voltados para profissionais de saúde. Nos cursos tinha um momento chamado 'História de Vida de Amamentação' em que cada participante contava a sua experiência. Eu sempre era a primeira a contar as dificuldades que enfrentei e, com isso, buscávamos soluções para que outras mulheres não sofressem com o mesmo problema'', destaca.
Em 1976, Zuleika criou em Londrina o Programa de Estímulo ao Aleitamento Materno (PEAM) do Hospital Universitário (HU). O seu nome é reconhecido nacional e internacionalmente devido aos estudos e treinametos voltados ao tema. Coleciona alguns prêmios, como do Ministério da Saúde, Comitê de Aleitamento Materno de Londrina (Calma), entre outros, inclusive, internacionais.
No mês passado, foi homenageada pela Câmara de Vereadores com o título de Cidadã Honorária de Londrina durante sessão solene no plenário do Legislativo. ''Este prêmio não é só meu, mas de toda a equipe que sempre trabalhou comigo. A minha família também tem grande responsabilidade em tudo o que conquistei'', afirma a médica, que se aposentou no ano passado e hoje divide o seu tempo entre os cuidados com a família - tem dois filhos e quatro netos - e os trabalhos desenvolvidos na Associação de Assistência à Criança Cardiopata - Pequenos Corações.
Quando mudou-se com a família da capital paulista para Londrina, em 1971, Zuleika não imaginava o futuro promissor que a aguardava. ''Nasci e fui criada em São Paulo. Toda a minha formação é de lá. Fiz Medicina na USP. Depois de cinco anos de formada, eu e meu marido (o médico João Carlos Thomson) prestamos concurso para a Faculdade de Medicina do Norte do Paraná e nos mudamos para Londrina'', conta, lembrando que na época foram convidados para ajudar a montar o curso de medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Zuleika afirma que quando chegou em Londrina ficou surpresa com a quantidde de crianças desnutridas. Era a época áurea do leite em pó. As propagandas do produto traziam bebês fortes e saudáveis. ''Com os estímulos, as mães acreditavam que o produto era bom para a saúde da criança. Nos anos de 1970 tem-se o índice mais baixo de aleitamento materno da história'', diz a médica, que naquela década, em sua tese de doutorado, estudou os motivos que levavam as mães a desmamarem os filhos. ''Verifiquei que elas acreditavam que o leite materno era muito fraco e insuficiente para garantir o bom desenvolvimento da criança'', pontua.
A partir daí, iniciou-se um forte trabalho para sensibilizar as mães e os profissionais de saúde sobre a importância do leite materno. ''Percebi que deveríamos intensificar os estímulos e em 1976 criamos o programa de aleitamento do HU, que antecede em cinco anos o Programa Nacional de Aleitamento Materno'', salienta.
O primeiro momento foi de sensibilização e depois o foco passou a ser a proteção ao aleitamento, que envolve algumas leis, tais como a licença maternidade e paternidade e o Código Internacional em defesa da amamentação, de 1981. ''Hoje o objetivo maior é dispensar orientações sobre o manejo. O programa se modificou, pois as necessidades mudam com o passar dos anos. Atualmente já não é mais preciso dizer que a mãe tem que amamentar, mas sim ensiná-la a fazer isso corretamente'', explica.
Entre as passagens marcantes de sua carreira, Zuleika destaca a época em que morou na Inglaterra, onde fez pós-doutorado em Pediatria Social no Instituto de Saúde Infantil de Londres, entre 1988 e 1989. ''Fiz contatos muito ricos nesse período. O David Moore, pioneiro da pediatria social no mundo, me apresentou para a doutora Felicity Savage King, que me convidou a traduzir, do inglês para o português, o livro 'Como ajudar as mães a amamentar'. Já temos quatro edições publicadas. O livro percorreu os países de origem lusofônica e divulgou muito o meu nome'', diz.
Ela destaca que somente conseguiu conciliar a carreira profissional com a maternidade devido ao apoio do marido. ''Ele ficava com os nossos filhos quando precisava cumprir plantões, em minhas viagens. O Thomsom tem um papel importantíssimo na minha vida. Estamos juntos há 55 anos'', declara-se.
A médica sente que a aposentadoria chegou na hora certa. ''Senti que era o momento, pois para oferecer uma atenção médica de qualidade a pessoa não pode estar cansada. A minha trajetória profissional superou muito as minhas expectativas'', comemora.
Conquistas
Apesar das conquistas alcançadas no que diz respeito ao aleitamento materno, Zuleika destaca que ''ainda temos um caminho para percorrer, uma vez que existe um grande esforço por parte das indústrias de leite em pó para ganhar o mercado''. Para a médica, é preciso manter as campanhas de amamentação fortes, dispensar orientações sobre o manejo da prática e investir em treinamentos para os profissionais de saúde.


