TRABALHO RECONHECIDO
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de março de 2003
Renê Muller<BR>Reportagem Local 
Dom Albano Cavallin completa 73 anos no próximo dia 25 de abril. ''Sou de touro'', brinca o arcebispo, que, garante, não é afeito aos prognósticos do Zodíaco. Na noite de quarta-feira, ele recebeu um presente antecipado da Câmara de Vereadores de Londrina: o título de Cidadão Honorário. É na cidade que ele vive há 11 anos. Comandando a Arquidiocese local, sente-se um verdadeiro londrinense, apesar de ter nascido em Lapa (71 km a oeste de Curitiba). Descendente de italianos, cultiva o gosto pela prosa. É um contador de histórias. Curiosas, elas recheiam os sermões do arcebispo, seguidas com atenção por milhares de fiéis durante as missas da catedral.
En casa, dom Albano mostra seu ritmo calmo, cativante de conversar. Em meio a reformas e mudanças em sua residência, no Jardim Champagnat (Zona Oeste de Londrina), mantém preocupação com os compromissos. Na tarde de quarta-feira, enquanto liam os telegramas que chegavam felicitando-o pela homenagem, estava com a cabeça voltada para a agenda diária. Atrás da mesa da copa, está um quadro que estampa toda a programação da semana.
São pelo menos dois acontecimentos previamente marcados a cada dia. Isso sem contar assuntos e eventos que aparecem de sopetão e que, pelos desígnios da função, precisam ter participação ativa do sacerdote. E foi em casa, na tarde de quarta-feira, cinco horas antes de ser oficialmente declarado cidadão londrinense, que dom Albano recebeu a reportagem da Folha de Londrina.
Folha de Londrina Quando foi que o senhor iniciou o sacerdócio?
Dom Albano Cavallin Eu sempre dediquei minha vida a Deus. Nasci padre. Com sete anos, fiz minha primeira comunhão, com oito anos fui coroinha, e aos 10 já era estudante para padre no seminário em Curitiba.
Folha O que significa para o senhor o título de cidadão honorário?
Dom Albano Logo de início o situo como um título para nossa igreja. Nesse sentido, sem faltar humildade, a igreja faz juz a isso. Está nas favelas, ela está nas escolas, nas periferias, no interior, ela está nas cidades, está ao lado das problemáticas, do desemprego, da terra, da moradia, do trânsito, da violência, está ao lado das 42 campanhas da fraternidade, que são um patrimônio de educação social do povo brasileiro. O título de cidadão honorário é mais um reconhecimento ao trabalho da igreja.
Folha O que mais o orgulha como cidadão londrinense, nesses 11 anos participando da vida da cidade?
Dom Albano Eu gosto de Londrina, eu me sinto bem aqui, e admiro a força, a juventude dos pioneiros. Até situaria Londrina e o Norte do Paraná em uma experiência bem acabada de reforma agrária, como pólo de desenvolvimento urbano admirável. Em 60 anos, praticamente um país nasceu aqui. Hoje a região tem cerca de 4 milhões de habitantes. Talvez só no Oeste americano tenha havido um processo tão rápido de colonização e desenvolvimento.
Folha O que incomoda o senhor na cidade, e que deveria ser olhado com mais atenção pela população e pelo governo?
Dom Albano O que está marcando e assustando, e para o qual não tem-se explicação imediata, é a questão da violência. Ela está fora dos parâmetros. Não sei explicar se é porque a cidade está na rota do tráfico. Conhecendo as boas famílias descendentes de paulistas e descendentes de mineiros que aqui vivem, de uma geração já trabalhada, não sei se isto está acontecendo vindo de fora. A árvore daqui só poderia dar bons frutos.
Folha A pobreza também não é uma problema grave?
Dom Albano Também. Mas aí, acho que já existe uma explicação mais fácil, tem um histórico. Nós saímos do paraíso da época da cafeicultura. Quem paga o preço é toda uma geração que vem crescendo nesses últimos 25 anos. Ainda sofremos um pouquinho com o empobrecimento da agricultura daquele tempo. Mas agora, a retomada agrícola me parece estar acontecendo de novo.
Folha A igreja está trabalhando com os pobres em Londrina?
Dom Albano Graças a Deus, a igreja de Londrina é uma igreja encarnada, uma igreja trabalhadora, que busca formar seus filhos, seja como cristãos seja como bons cidadãos. É uma igreja presente em todas as coisas: na política, nas escolas, nos hospitais, nas favelas.
Folha Como o senhor vê a relação do povo londrinense com a igreja católica?
Dom Albano Londrina foi fundada por ingleses de caráter evangélico. Aqui nesse sentido, como em todo o Brasil, a presença evangélica está aumentando. A gente não se impressiona com isso. A minha missão é cuidar dos católicos, sobretudo daqueles que tenham se afastado de Deus, de Jesus Cristo e do seu Evangelho. O católico está voltando a participar da igreja. As pessoas que passam por aqui se mostram admiradas pela frequência e a participação católica nas igrejas. Não é o único modo de avaliar o êxito, ver se a casa está cheia ou não, mas eu sinto que, no social, estamos muito atuantes em Londrina. Tem mais gente abraçando o trabalho da Igreja Católica.
Folha E a situação do país e do mundo? Como o senhor analisa?
Dom Albano A situação mundial está triste, ridícula. As atitudes de Bush e Saddam Hussein não parecem as de duas pessoas que vivem no século 21. Parecem dois meninos briguentos, moleques até. A gente nota que a opinião mundial está totalmente desfavorável. Dá impressão que nos últimos dias há uma mudança: da radicalidade total, estão respeitando um pouco mais o diálogo e a diplomacia. Já o Brasil, sempre foi um país de contrastes, mas uma onda de esperança está penetrando de Norte a Sul do Brasil. Várias teses que estavam embutidas no cultivo do social estão começando a ser postas em práticas. Mas não gostaria de ser ingênuo nesta matéria: o fator tempo faz parte de toda a renovação e toda reforma. Tenho receio de um exagerado paternalismo político. É verdade que falharam, enganaram, mentiram muito na história do Brasil, mas isto não exime o cidadão de fazer sua parte. Para mim o 4º mandamento, honrar pai e mãe é honrar pai e mãe e a mãe pátria, com direitos e deveres da nossa parte.
Folha O que o senhor gostaria de dizer aos londrinenses, aproveitando a homenagem que está recebendo?
Dom Albano Eu já disse e já pautei em meu contato com os líderes londrinenses que a cidade ainda tem um tamanho viável para o trabalho conjunto de suas lideranças, envolvendo as universidades, a Acil, o Sebrae, e todas as entidades mais que aqui existem. Já venho me comprometendo com o desenvolvimento de Londrina antes, mas agora, como cidadão honorário, meu comprometimento é ainda maior. Para mim, ser cidadão honorário de Londrina não significa uma noite de homenagens, mas todo o resto da minha vida em compromisso com a cidade.


