Trabalho e amor: o caminho de Fani
Curitiba - Antes de ser a história de uma mulher de sucesso que estudou medicina contra a vontade dos pais, numa época em que somente ela e mais duas representavam a parte feminina numa turma de 120 homens, a vida de Fani Frischmann é uma história de amor. Uma palavra longe dos ideais da maioria que pensa em conquistar um sucesso profissional, já que desde sempre se fala que a ''carreira'' de uma mulher não combina com exercícios familiares como a maternidade e os afazeres domésticos.
Mas, milagrosamente, ou ''naturalmente'' como ela mesma prefere dizer, essa curitibana filha de poloneses, viveu tudo isso. Formou-se em medicina na Universidade Federal do Paraná em 1944, uma época de terrores e incertezas não só para as mulheres que ainda nem tinham pensado em queimar o sutiã, mas para o mundo todo aterrorizado com as barbáries da Segunda Guerra.
Apesar das mulheres não serem maioria, Fani conta que eram tratadas muito bem pelos colegas. A maior oposição era dentro da própria casa. Mesmo assim ela não desistiu. ''Para mim era doce de coco. O ideal.'' Além dessa teimosia de enfrentar os pais que temiam que ela, envolvida com a profissão, adquiri-se uma tuberculose, Fani queria trabalhar com as pipetas. ''Meu tipo ideal era a Madame Curie. Desde criança eu queria ser médica. Tudo me encantava na profissão, principalmente as pipetas''. A inspiração era o casal Curie, pioneiro no estudo da radioatividade. Por isso, logo cedo arranjou um estágio no laboratório da médica Maria Falce de Macedo, primeira professora universitária do Paraná.
Já na faculdade conheceu Oscar Aisengart. O estudante polonês estava um ano atrás, e não demorou a se apaixonar por ela com seus sonhos profissionais. ''Começamos logo no início. Foi meu primeiro e único amor. Minha paixão até o fim, todo mundo é testemunha (Oscar faleceu há mais de dez anos). Tive o melhor marido do mundo.'' No começo, conta, nem era namoro, e sim amizade. ''Éramos em três moças. Tínhamos toda a atenção. Ele sempre foi muito estudioso, aplicado. E já se encaminhava para a cirurgia, pois era muito habilidoso, mas como eu já estava nas pipetas e ele era muito cavalheiro, veio me ajudar''.
A oficialização do namoro aconteceu em ambiente médico. Fani trabalhava no Hospital Vitor Ferreira do Amaral (uma maternidade) e ele ia acompanhá-la. Até que ouviu um comentário ''esse doutorzinho tem muita intimidade com a enfermeira'', esta, no caso, era Fani. Aisengart decidiu então declarar sua paixão e começar um namoro que iria dar, além de filhos, netos e um bisneto, início a uma história de sucesso com a formação do laboratório Frischmann Aisengart.
Um pouco antes de se formar, Fani abriria seu próprio laboratório junto ao namorado. Assim foi inaugurado no dia 29 de maio de 1945, dia do aniversário dela, um hábito que o marido manteve durante toda vida. ''Ele sempre fazia as inaugurações dos laboratórios no dia do meu aniversário''. Declarações evidentes de um amor recheado de admiração profissional. No mesmo ano aconteceu o casamento, meses antes de ela se formar. ''Foi interessante, eu queria me formar com o nome de casada. Mas no diploma ainda consta o de solteira''.
Fani hoje tem 83 anos e do alto de sua idade e do baixo de sua altura brinca com os acontecimentos daquela época. ''Corri um pouco e me formei antes dele. Sou pequenininha e valente e ele não ia escapar das minhas garras'', brinca.
Depois deste início glorioso e digno de ser contado, a vida dos dois era muito trabalho. O império de laboratórios completa 60 anos agora em maio e foi um tempo em que vida pessoal e profissional caminharam juntas para a doutora Fani.
Um exemplo de mulher pioneira e forte, Fani não só tornou seu laboratório uma fortaleza (16 unidades laboratoriais da empresa na Grande Curitiba, 1,5 mil tipos de análise e mais de 600 funcionários) como ainda teve tempo para ser amorosa e construir uma família. Aos seis anos de casada Fani adotou uma filha. Ela ainda não tinha engravidado e se comoveu ao conhecer a criança na maternidade. ''Ela era muito franzina, estava na incubadora e pensei que se eu não a pegasse iria ficar desamparada. Acho que me deu sorte, pois algum tempo depois engravidei e dois anos depois engravidei de novo.''
A conciliação entre esses elos familiares e profissionais mais uma vez foi ''as mil maravilhas'' conta. ''Eu tinha tempo de cozinhar, fazer um bolo. Fazia os almoços de domingo para meu pai. Ele dizia que a filha dele era a melhor cozinheira do mundo. Tinha todo prazer de fazer isso. Eles acabaram sendo meus vizinhos. Perderam o medo que eu ficasse tuberculosa'', brinca.
Desfazendo tabus da sua época, como fazer medicina e adotar filhos, Fani foi mais além: há alguns anos abriu sociedade para dois de seus principais aliados no trabalho. Mais uma inovação e uma prova de que a vida tem de ser vivida em sua integralidade e com integridade.
Por isso que até hoje Fani vai quase todas as tardes para o laboratório. Bem arrumada, perfumada e atenciosa com todos vai alimentar seu vício. ''É como uma cachaça.''





