O neurologista Mauro Cunha, formado pela Faculdade Nacional do Rio de Janeiro em 1967, especialista e membro titular da Academia Brasileira de Neurologia, há mais de 35 anos exerce a especialidade. Trabalhou em Londrina de 1970 a 72, e veio para Maringá, onde tem clínica, é professor de Neurologia no curso de Medicina da UEM. Também leciona nos cursos de Fisioterapia e Fonoaudiologia do Cesumar. Em entrevista à Folha, Mauro Cunha falou sobre a Síndrome de Tourette.
O que é Síndrome de Tourette?
É uma doença neuropsiquiátrica, crônica, hereditária (o gene ainda não foi mapeado), com início na infância e caracterizada por múltiplos tiques motores e vocais, de intensidade variável ao longo da vida.
O que são exatamente esses tiques?
São movimentos rápidos, repetitivos, involuntários, principalmente faciais, em que o paciente pisca, contrai o queixo, encolhe o pescoço, etc. Na maioria das vezes causa apenas embaraço social. Inicia-se na infância na faixa dos 6/18 anos (75% dos casos iniciam-se na faixa dos 11/12 anos). Além dos tiques motores (geralmente múltiplos) há tiques vocais (pigarrear, grunhir) com tendência a emitir palavrões curtos (propolalia) e gestos obscenos (copropraxia).
Todo tique é Tourette?
Não, de fato existem tiques transitórios na infância que desaparecem ao longo dos anos, de caráter benigno. São geralmente isolados e não são acompanhados dos outros sintomas da síndrome.
A doença se resume ao tiques?
Infelizmente, não. Modernamente descobriu-se que Tourette apresenta comorbidade com outras síndromes. Isso significa que Tourette é acompanhada com muita frequência por outras duas doenças: o transtorno obsessivo compulsivo (TOC), e a síndrome da hiperatividade/déficit da atenção.
Fale um pouco do TOC...
A maioria das pessoas com TOC tem rituais como guardar palitos de fósforos usados, catar ciscos no chão de casa, verificar várias vezes se desligou o gás, se fechou as janelas e torneiras, etc. No entanto, quando esses comportamentos não são desejados, não conseguem ser controlados e chegam a interferir na vida social e ou profissional da pessoa, eles deixam de ser traços de personalidade e se transformam em sintomas de um distúrbio obsessivo-compulsivo. Há um grande grau de ansiedade e de convicção de que a compulsão deve ser realizada. Pessoas com o TOC não conseguem diminuir o medo e a ansiedade de outro modo que não seja repetindo sem parar o ritual, como por exemplo lavar as mãos até irritar a pele. Essas pessoas têm tendência à negação da doença e se aceitam como portadoras de um pequeno ‘‘defeito’’. Com isso fogem do tratamento.
E o que é hiperatividade/déficit de atenção?
São crianças que não param quietas, mexem em tudo sem parar, têm uma grande atividade física. Têm o Q.I. normal ou acima do normal. Porém vão muito mal na escola por causa dos déficits múltiplos: atenção, concentração. Não conseguem perserverar numa tarefa e já a abandonam, e com isso têm péssima produção na formação escolar acadêmica. Quando adultos, eles melhoram um pouco da hiperatividade, porém os déficits da atenção persistem se não forem tratados.
É difícil diagnosticar Tourette?
Uma criança com múltiplos tiques motores e vocais, tendência a gestos obscenos e a comportamento compulsivo, e que eventualmente seja hiperativa/desatenta é portadora da Síndrome de Tourette.
E no adulto?
A doença, que é três vezes mais comum nos homens que nas mulheres, vai melhorando com o correr dos anos, pode se estabilizar ou melhorar acentuadamente no adulto.
E o tratamento?
O tratamento farmacológico evoluiu muito nos últimos anos, e os bloqueadores da dopamina melhoram os tiques de forma acentuada. A hiperatividade apresenta uma resposta de razoável a boa com uma droga chamada Ritalina, e o resto do conjunto de manifestação responde à terapia cognitiva e comportamental, geralmente feita por psicólogos.
Como os portadores de Tourette se comportam na sociedade?
A História da Medicina refere que nomes como Napoleão, Pedro o Grande, Mozart, entre outros, possam ter sido afetados pela doença. Curiosamente, meu professor de Neurologia, o mestre Deolindo Couto, que exerceu Cátedra nas décadas de 1960 a 1980, foi membro da Academia Brasileira de Letras, era portador da Síndrome de Tourette. Portanto, não há empecilho para que essas pessoas sejam extremamente bem sucedidas na vida.
Mas ter um tique não significa ser tourético...
Exatamente, assim como ter uma mania não significa ser um obsessivo compulsivo. Tanto em tiques como em compulsões, é a frequência, a intensidade dos sintomas e o quanto eles vão interferir na qualidade de vida que devem nortear o indivíduo da necessidade de procurar o médico.

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