Simone Mattos
De Curitiba
Alguns tecidos foram tratados com terra, o jeans foi impregnado por barro e ganhou aspecto de couro, resíduos de cinza foram fixados na seda, estampas ganharam efeitos gráficos que lembram cascas de árvores e peles de animais. Mais do que uma simples fonte de inspiração, os elementos da natureza estão presentes na coleção inverno 2000, que a marca Ellus apresentará hoje à noite em Curitiba, abrindo a programação do II Crystal Fashion.
Propositalmente, o convidado especial para o desfile é o ator Leonardo Brício. ‘‘Ele é o símbolo do homem atual, da beleza rude’’, define o diretor de criação da Ellus, Nélson Alvarenga. Para incrementar o clima, a passarela será barrenta e a trilha sonora cantará o planeta na voz de Caetano Veloso.
A razão de explorar o tema ‘‘Terra’’ tem várias explicações. ‘‘Quisemos voltar as origens, buscar um contraponto à neurose de final de século e de milênio, oferecendo ao consumidor um descanso junto à natureza’’, explica Alvarenga. Outra pretensão foi a de combater o minimalismo pregado pela moda na última década.
Toda a coleção foi desenvolvida, fotografada e filmada na Chapada dos Guimarães (MT), localizada exatamente no centro da América do Sul. ‘‘Quisemos nos voltar para este cenário agreste também para comemorar os 500 Anos do Brasil’’, complementa.
Criada pela equipe de Alvarenga e Adriana Bozon, a coleção traz nas cores todos os tons da natureza, passando pelo marrom-terra, terracota, chocolate-amargo, verdes, leite e café. Todas as inovações aplicadas aos tecidos foram resultado de muita pesquisa, aliando o trabalho de estilistas, químicos e artistas plásticos. A alta tecnologia foi usada para dar conforto e naturalidade ao consumidor.
O lançamento oficial da coleção foi durante o MorumbiFashion desse ano, em São Paulo, quando a modelo sudanesa Alek Wek roubou a cena do evento e se tornou notícia nacional. Mais exótica do que bela, a top model foi escolhida pela grife brasileira por se adequar perfeitamente à proposta. ‘‘Queremos quebrar as regras, fugir do óbvio e causar surpresa’’, define Alvarenga. Além de São Paulo, o desfile só será apresentado em Curitiba.
Na opinião do diretor de criação da grife, o tema ‘‘Terra’’ tem um sentido muito amplo e atinge diretamente a afetividade das pessoas. ‘‘É onde nascemos, onde estamos’’, define. A proposta de retornar às origens serve ainda para negar todas as expectativas que se criaram em torno da virada do século, de que as pessoas estariam vestidas de astronautas.
Apesar de rude, a nova coleção não economiza em sensualidade e glamour. Para quem acha difícil usar as estampas que lembram peles de animais e outras ousadias dessa coleção, Alvarenga dá uma aula: ‘‘Não tenham medo de pecar por excesso. Chegou a hora de as mulheres se enfeitarem mesmo e usarem o que sempre quiseram usar’’, aconselha.
Ele lembra que a tendência é mundial e que todas as revistas de moda do planeta têm trazido editoriais e capas com tais estampas. Seu palpite é de que quanto mais essas imagens foram veiculadas, mas as pessoas irão se acostumar com a nova moda, tornando-a mais fácil de usar. ‘‘As mulheres sempre quiseram usar essas peças, isso agora só ficou em evidência’’, arrisca.
Segundo ele, o que já chegou nas lojas está vendendo muito bem, o que prova a rápida aceitação da proposta. ‘‘Acertamos em cheio. Elas estão adorando a idéia de ser cobras ou onças’’, provoca Alvarenga.

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