Curitiba - Ele tinha 15 anos quando começou a trabalhar na fábrica de tricô da família. Uma experiência precoce que se deu muito mais pela educação rígida do que pela necessidade, mas que determinaria o futuro do estilista Jefferson Kulig. Hoje, aos 35 anos - 16 de carreira -, ele acumula nove participações na São Paulo Fashion Week, um dos maiores eventos de moda do Brasil, e vê suas peças ganharem espaço em território nacional e estrangeiro. Uma consagração que chega depois de muito trabalho, pesquisa e, principalmente, determinação.
Kulig acaba de inaugurar uma loja conceito em São Paulo, no bairro Jardins. A loja completa seis meses no competitivo mercado paulista e já chama a atenção da mídia e de compradores de todo o mundo. Toda essa atenção que o estilista, formado em economia pela Universidade Federal do Paraná, vem recebendo, não acontece por acaso. Ele lançou sua primeira coleção aos 21 anos, mas o interesse pelas roupas surgiu bem antes. ''Trabalhar na fábrica dos meus pais despertou meu interesse pela forma, pela tecnologia'', salienta. Acostumado a ver como eram desenvolvidos os fios e os tecidos, ele era capaz de repetir qualquer ponto apenas observando um retrato.
O resultado foi o crescente interesse pela tecnologia, que se manifesta até hoje nas suas criações. ''A necessidade de me expressar fez com que eu passasse a reproduzir algumas peças e construir coisas novas''. Necessidade que não ficou no passado. ''Eu nunca penso primeiro na roupa, antes penso na possibilidade que o tecido pode proporcionar''. Essa capacidade de explorar a matéria-prima de forma única foi uma das características que deram projeção ao estilista curitibano e também abriu as portas para o mercado internacional.
Ele já mostrou quatro coleções na Itália, por exemplo, e suas peças também podem ser encontradas na Grécia, África do Sul, Bélgica e Paris. Esse último é o próximo foco de mercado que ele pretende conquistar. Das dificuldades de emplacar no requisitado mercado internacional, claro, ele tem ciência, mas os obstáculos acabam tranformando-se em desafios. ''Para lançar um produto lá fora é preciso persistência. O mercado internacional dá muito importância à continuidade, à credibilidade do estilista'', considera, complementando: ''Hoje, a qualidade não é um diferencial, é uma obrigação''.
E qualidade é uma constante na carreira do estilista. Persistente, ele dedica o tempo necessário a uma criação, até que esteja satisfeito com o resultado. Desenvolveu, por exemplo, um tecido da mais alta tecnologia, a partir de um processo de vulcanização que altera a própria estrutura do tecido. Batizado de Borracha, o tecido compõe, há quase uma década, um dos principais itens de suas coleções.
Na última coleção, para o Verão 2009, mostrada na São Paulo Fashion Week, mês passado, Kulig também apresentou diferenciais. Vestidos recortados, sabotas (aquele calçado que invade os tornozelos e deixa os dedos livres e confortáveis), além de chapéus com proteção UV, que despertaram a curiosidade de muita gente. A mesma coleção ele apresenta na semana que vem, em Curitiba, no 2º Paraná Business Collection. O desfile do estilista vai abrir a semana de moda, dia 28 de julho, às 19 horas, no Centro de Exposições Horácio Sabino Coimbra (Cietep).
Mas Kulig salienta que nem sempre o que se vê na passarela é o que vai estar nas lojas. ''São os detalhes que transformam a roupa no comercial, um recorte, um tecido. O que está na passarela acaba se revelando um desejo de consumo''. E quem consome as criativas roupas de Kulig? Para as mulheres, não existe faixa etária. ''Eu transformo uma mulher de 70 anos em uma de 50'', brinca o estilista. No desfile em São Paulo, aliás, que a reportagem da FOLHA acompanhou, muitas senhoras estavam na primeira fila muito bem vestidas com as peças do estilista.
Receber clientes, fãs e imprensa no backstage é quase novidade para o experiente estilista. Conhecido por sua personalidade tímida, Kulig está numa fase muito mais receptiva. ''Antes acreditava que conseguia falar com as pessoas apenas através do meu trabalho, hoje consigo aproveitar mais, me divertir mais'', conta. Fruto de cinco anos de análise e - mais uma vez - da exigência do mercado, que quer conhecer o criador muito mais do que apenas o resultado do seu trabalho.
Quanto ao futuro, Kulig é confiante. ''O futuro é algo que me fascina, mas não penso nisso como um filme de ficção científica e, sim, como um espaço em que meu trabalho possa dar uma maior qualidade de vida para as mulheres''. Elas agradecem.

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