Talento reconhecido
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de setembro de 2005
Ana Clara Garmendia<br>Equipe da Folha 
Curitiba A designer Angela Guerra ficou durante muito tempo associada somente ao nome do marido, o ex-ministro Alceni Guerra. Obviamente que isto tinha que acontecer. Angela é e sempre foi uma mulher e mãe dedicada de quatro filhos de um casamento de quase 30 anos e seu marido figurou entre os principais nomes da política nacional durante algum tempo. Mas isso não quer dizer que ela, paralelamente, não tenha trilhado um caminho só seu cheio de arte e criação.
O resultado se vê hoje com Angela no auge profissional e na calmaria de uma relação bem-sucedida. Sobre essa parceria de amor e de amizade ela não tem dúvidas: o fato de ter sempre tido uma preocupação com o lado profissional e de ter seguido um caminho onde a criatividade e a observação são as bases de tudo ajudou e muito a manter tudo em ordem. ''Bom, estamos casados há quase 30 anos, né! Não é para qualquer casal. Eu acredito numa coisa: quando você investe em você mesmo, no seu crescimento pessoal e profissional, acaba por se tornar uma pessoa mais interessante. Há um crescimento interno, aliado ao desenvolvimento dos seus talentos, à sua realização como pessoa. Uma pessoa realizada é uma pessoa de bem com a vida, gostosa de conviver. Qualquer relacionamento fica melhor assim. Sai fortalecido das crises que passa'', ensina.
Essa mentalidade, maneira de levar as coisas vem de uma ligação inevitável: em sua família todos são voltados para o lado artístico. ''Desde antes dos 20 anos quando comecei a trabalhar com design, o clima familiar já estimulava um lado artístico. Meus irmãos trabalham com design gráfico, teoria da arte, escultura, pintura, entre outras coisas'', conta. Nascida na Lapa, cidade do interior do Paraná perto de Curitiba, a designer já cedo começou a trabalhar com formas, mas ainda não tinha entrado no ramo das jóias onde está hoje.
''Na verdade eu trabalho desde sempre. Acho que é da minha personalidade ser mais independente. Eu comecei cedo, com 20 anos já tinha minha empresa que produzia para vários clientes, entre eles a C&A''. Estes primeiros passos na vida da designer já mostram a profunda ligação que ela tem com moda. Hoje Angela está num processo de crescimento e de mostrar um trabalho extremamente vanguardista em cima daquilo que sempre foi chamado de jóia. Só que no caso das criações de Angela Lima, nome dado a sua grife, as peças são mais que preciosas. Funcionam como complementos muito fortes de produções de moda. É um algo a mais que serve para mulheres contemporâneas, chiques, que adoram o básico, mas de forma alguma querem e nem poderiam passar desapercebidas.
Para chegar nessas criações Angela passa o tempo todo observando. Cria sempre, a partir de tudo que vê e o resultado são peças fabulosas vendidas em templos de bom gosto como a paranaense Capoani e a paulistana Essencial. ''Vejo o formato do pé de uma mesa, o xadrez da blusa de um pedestre, o arabesco do vitral de uma igreja. Passo 24 horas por dia observando. Como me chamou atenção um amigo sobre uma frase que ficava atrás da mesa de Einstein: ''A imaginação é mais importante que o conhecimento''. É colocando a imaginação e o sonho juntos que potencializamos o processo criativo. Isso justifica para mim o fato de eu não ter formação acadêmica e trabalhar como designer'', explica.
Mas se não tem a formação profissional, isso não quer dizer que ela não esteja sempre estudando e muito o que acontece no mundo para poder criar um trabalho tão conectado com a moda. Apaixonada por grandes nomes da moda internacional e também pelo genial brasileiro Jum Nakao, a designer acredita que exista uma nova linguagem a ser abordada na criação. E os estilistas estão menos parados do que os designers de jóias. ''Uma amiga consultora de moda me confidenciou certa preguiça de ir a desfiles, exposições de jóias, por não conseguir visualizar nas jóias o conceito e a inspiração que o designer lhe atribui. O que não acontece com a moda. Quando falamos que Galliano se inspirou na cultura egípcia enxergamos essa releitura da cultura inspiradora. Eu busco no meu trabalho a relação tendência do universo da moda, até mesmo pela afinidade que sempre tive com ele'', diz.
Bem para isso acontecer e Angela chegar onde chegou, ou seja, criar o que está criando: braceletes de pérolas com pedras preciosas que podem ser usados por cima de uma camisa branca ou com um pretinho básico, crucifixos pendurados em pedaços de seda com um caráter absolutamente internacional, a designer teve que evoluir muito. ''A minha criação foge do que estamos acostumados ver nas jóias. Esta mistura de elementos e materiais que utilizo me deixa até apreensiva quando mostro para alguém. Existe o fator surpresa. As pessoas estão acostumadas com uma jóia mais convencional. Não esperam ver anéis com laços de fitas, cordões de couro com fitas de seda pura, ouro, pérolas, brilhantes e pedras. Vivemos um momento de tantas mudanças! Coisas novas surgindo rapidamente, e tudo isso mexe muito com a gente. Revemos conceitos, quebramos paradigmas. Busco traduzir tudo isso, com peças bem construídas, bem acabadas, porém suspensas em cordões e sedas esfiapadas''.
Para encerrar a designer acaba por responder àquela pergunta inevitável: como depois de 10 anos de sumiço das colunas sociais coisa que ela nunca foi lá muito fã por acreditar que o sucesso profissional deve vir na frente do pessoal de repente ela aparece linda e ruiva e com um trabalho tão diferenciado? ''Dizem que a mulher não envelhece, ela fica loira ou ruiva! (risos) Bom, no meu caso fiquei ruiva. Acho que a vida é assim mesmo... a gente tem que estar sempre se renovando, se desenvolvendo, trabalhando seus talentos'', completa Angela.


