O olhar expressivo e o rosto de traços marcantes do cantor, compositor e produtor Bruno Morais, de 33 anos, se tornam detalhes diante do talento, criatividade e inovação que o londrinense tem mostrado no cenário musical. Arrancando elogios da crítica especializada, tanto no Brasil quanto no exterior, o menino de família simples, mas de sonhos ambiciosos, sempre que pode, volta à cidade natal para rever parentes e amigos. Alguns deles, da época em que era apenas mais um garoto atípico e rebelde tentando mostrar sua arte, quando muitos diziam que não tinha dom para a música.
Recentemente citado pelo jornal Le Monde e pela imprensa britânica como destaque da nova música brasileira com o seu último CD, ao lado de cantores consagrados como Caetano Veloso, Bruno Morais diz que ainda fica assustado com o reconhecimento. ''Já ouvi tanto que não tinha vocação, que quando falam o contrário, fico até desconfiado'', conta. Também pudera. Desde a infância, por várias vezes foi desestimulado a seguir carreira por causa de sua voz desafinada. ''Mas minha obsessão pela música era tanta, que de alguma forma dava um jeito de estar perto dela.''
Antes mesmo de pensar em trabalhar com música, até porque não teve influência alguma da família, o filho de uma pernambucana e um mineiro, descobriu na vitrola da tia um brinquedo divertido e fascinante. ''Não tinha música na minha casa. Então, quando visitava minha tia, ficava ouvindo os discos dela. Me lembro que havia Caetano Veloso, Simone, Saltimbancos. Mas quando tocava a música da Amelinha eu me transformava: iniciava uma espécie de número, dançando e pulando de um sofá para outro'', lembra, enquanto esboça um leve sorriso sobre as noites de sono abraçado aos vinis.
A criança tímida, ainda que nada discreta, e que gostava de conversar com adultos, via ali, portanto, seu refúgio, já que a relação com outras da mesma idade era difícil. ''Era muito questionador para a idade. Lia livros de filosofia e adorava conversar com os professores. Por isso, minhas brincadeiras se resumiam a ficar desenhando, lendo e escutando música.'' Foi nessa época, inclusive, que fez vários desenhos com as milhares de canetas e lápis que havia na sua casa.
Foi somente no início da adolescência que teve a identificação com outras pessoas da escola - um marco e divisor de sua história. ''Me abriram para um mundo de descobertas e experiências.'' Participou do Grêmio Estudantil, de Festivais de Música, no qual fez a melodia de uma canção crítica sobre o cenário político do Brasil. ''Tudo isso me trazia mais sede de conhecimento. Tinha medo de ficar alienado'', resume.
Encantado com a fase que se abria, rompeu com limites e convenções da sociedade. Em meio às transgressões, uma prima mais velha, pela qual sempre teve admiração pelas longas conversas, o convidou para participar de um grupo de jovens da Igreja Católica. ''Era, novamente, uma forma de estar próximo da música. Ao mesmo tempo, precisava reaprender o que era disciplina, moralidade e sociabilidade.'' Tudo, porém, foi por água abaixo, quando ouviu que não entraria na banda de louvor por não ter o talento para o ''Ministério da Música''. ''Saí de lá revoltado.''
Trabalhou um tempo como office-boy e depois procurou emprego em uma loja de discos. ''Era responsável pelo catálogo e os pedidos de compra. Só que não entendia nada do mercado popular e solicitava coisas que ninguém conhecia. Ficava tudo encalhado nas prateleiras e fui demitido por justa causa'', lembra dando risada.
A passagem rápida pelo local lhe rendeu novas amizades e oportunidades. Uma delas, a entrada para uma turma da Companhia Armazém de Teatro, onde experimentou o sucesso relâmpago como ator da peça ''Alice através do espelho''.
Certo de que queria trabalhar com algo que tivesse uma ''mensagem visual, estética e que comunicasse'', Morais acompanhava os ensaios de uma banda local e começou a participar com intervenções e performances artísticas em eventos com os integrantes do grupo. ''Fui conhecendo novas pessoas e ideias não paravam de surgir na minha cabeça. A intenção era fazer uma música diferente, peculiar, que não tinha visto até então.'' Surgia a Madame Brechot, uma banda com ''pegada'' funk e que fugia do cover, dando uma nova roupagem às canções. ''Éramos a banda cult da cidade'', brinca.
Entre outras tentativas posteriores, Morais tem uma história que começou a ser vista e reconhecida somente nos últimos anos, numa estrada que se consolida, atualmente, na capital paulista. Em 2005, lançou o CD independente ''Volume Zero'', com várias composições próprias com referências eletrônicas, tendo a participação de artistas locais. Já em 2009, ''A Vontade Superstar'', seu segundo trabalho, teve a participação de mais de 40 colaboradores. Trabalho este que ele relançou há pouco tempo em vinil. Na mesma onda nostálgica, lançou dois compactos em vinil com músicas avulsas. A empreitada inclui, ainda, a versão de ''Sorriso dela'', de Eramos Carlos, elogiada pelo próprio cantor e compositor.

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