Quem entra no ateliê-escritório da artista plástica Bia Moreira, 47 anos, percebe logo que a pintura ocupa lugar de destaque em sua rotina. Os vasos na escada são pintados, as paredes estão cheias de quadros, o banquinho mais parece um objeto decorativo e as portas do armário são telas enormes para belas paisagens. Para onde se olha é possível encontrar uma pintura.
''Nunca vendi nada do que qu pinto, costumo dar as pinturas para pessoas de quem eu gosto. E nem tudo que está aqui é meu. Algumas coisas são de amigos'', comenta ela, enquanto pede à filha mais nova que apanhe um pacote de balas de coco para nos oferecer e chama uma funcionária para apanhar tela e tinta para uma demonstração.
Bia é o tempo todo assim: agitada, falante, brincalhona. ''Mesmo quando estava passando por momentos difíceis, não ficava para baixo. Os amigos diziam que eu devia ser louca para me manter tão animada com tanto problema ao meu redor. Mas não costumo dar espaço para baixo-astral. Ficar mal não leva ninguém a lugar algum''.
Talvez tenha sido essa postura que levou a menina simples, nascida em Ibiporã e criada em Jataizinho, a se tornar uma estrela editorial no segmento de revistas de pintura, com cinco publicações em seu nome vendidas em vários países da América Latina e até na Europa. ''Às vezes, as pessoas ligam aqui e quando percebem que estão falando comigo ficam emocionadas, choram. É legal porque sei que mudei a vida delas, que ensinei alguma coisa prazerosa. Sei de gente que se livrou da depressão depois que aprendeu a pintar''.
Mas até chegar a essa fase, Bia enfrentou muitos desafios pessoais e profissionais. A mãe faleceu quando ela ainda era pequena e a menina foi criada pelo pai. Por volta dos dez anos, ele a colocou para trabalhar em seu ofício, pintando carrocerias de caminhão. ''Para mim era ótimo porque eu sempre gostei de desenhar e pintar''.
O que era um hobby passou a ser trabalho sério quando ela teve o primeiro filho, hoje com 20 anos. ''Daí vieram mais três filhos em três anos e eu tinha que ganhar dinheiro. Resolvi dar aulas de pintura, embora não soubesse quase nada ainda. Mas quando você ensina alguma coisa, você aprende muito, e eu descobri uma maneira de fugir da técnica da cópia. Foi isso que chamou a atenção de muita gente''.
Bia resolveu então mandar um trabalho seu para a revista Manequim, da Editora Abril, que publicou o material e deu esperanças para a até então professora de pintura. ''Isso foi em 1992, quando resolvi fazer uma revista minha sobre o assunto A Magia da Pintura , ensinando meu método. Banquei a publicação e viajei o Brasil todo dando cursos''.
Depois de um tempo foi a vez de Bia chegar à tevê. ''Decidi mandar uma proposta para o programa da Ana Maria Braga, então na Record. Fui chamada para uma apresentação e ela gostou tanto que acabei ficando a semana toda. Quando saía do estúdio tinha gente na porta para falar comigo. Comecei a ver que o que eu ensinava era legal. Aprendendo cinco movimentos básicos, como o avião, a ventania, a espinha de peixe, o serrotinho e a vírgula, a pessoa consegue pintar qualquer coisa. Eu tinha desmistificado a pintura. Em alguns minutos os alunos aprendiam coisas que levariam semanas em um curso normal. Fiquei no programa por três anos.''
Como o mercado nacional ainda era pobre de revistas sobre artesanato, Bia acreditou que era hora de transformar a Magia da Pintura em algo maior. A artista procurou editoras na capital paulista para distribuir a revista pelo Brasil. ''Mas ninguém se interessou porque achavam que não haveria público para isso''.
Mais uma vez ela resolveu bancar o projeto. ''Fiz a revista Bia-bá da Pintura fiado em uma gráfica. Custou cerca de R$ 100 mil e em 45 dias de vendas já tinha essa quantia para quitar a gráfica. Foi recorde de vendas e acabei montando montando uma editora. Mesmo assim continuava viajando, dando cursos e divulgando a publicação''.
Isso foi em 1996. De lá para cá, ela lembra que teve momentos difíceis. ''Não estava preparada para o sucesso. Me divorciei e acabei perdendo amigos por causa do dinheiro. Mas nunca desanimei''.
Hoje, Bia mora em Londrina. Sua editora, que fica no mesmo prédio do ateliê, pulbica outras cinco revistas de artesanato e pintura, todas administradas por ela com a ajuda de 12 funcionários. ''Chego na editora às 8h30 e saio daqui às 11 horas da noite. Tudo o que sai nas revistas passa por mim''.
A cada três meses, ela viaja para fora do País, convidada para participar de eventos de pintura. Já esteve no Chile, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai, Espanha e Portugal. Embora garanta que a vida está muito boa, a inquieta Bia Moreira ainda tem planos ambiciosos. ''Quero fazer uma versão em espanhol para o público latino e outra em inglês para as revistas e os DVDs que temos hoje e entrar no mercado americano. Agora é só colher os frutos do que foi plantado.''

mockup