Sucesso contemporâneo
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de janeiro de 2004
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba Quando abriram as atividades de seu serviço de bufê para festas e escolheram o nome Indra, Beto Motter e Gustavo Skrobot não sabiam o verdadeiro significado da palavra. Naquela época, há uns três anos, eles estavam embalados pelos sonoros acordes de uma música composta por um DJ famoso. Em homenagem ao que era o som do momento para eles, a dupla resolveu intitular sua nova investida profissional com o nome Indra.
Algum tempo depois descobriram que era uma das reencarnações de Kryshna (deus que faz parte da filosofia pluralista hindu e que atrai seguidores num raro caso de monoteísmo dentro da cultura politeísta predominante na Índia). A informação, dada por um cliente ao telefone, relatava um dos muitos sentidos da palavra: Indra seria tartaruga e essa significa perseverança e longevidade.
Se tivessem procurado talvez não acertassem tanto. É com o espírito de insistência que os meninos do Indra, como são conhecidos na cidade, tomam conta de uma série de festas comentadas pelo que servem para beber e comer.
Entre eles a ordem para o trabalho funcionar é uma só: fugir do tradicional. imprimir o conceito de criar iguarias como terrines e mousses, em substituição às coxinhas, risoles, brigadeiros e dois amores que, desde sempre, o povo esteve acostumado a servir em celebrações, a batalha tem sido grande.
''Temos que fazer o que o cliente gosta, sem perder a personalidade da nossa empresa. Aquela coisa rococó não fazemos. Por mais que seja uma formatura ou um casamento, a gente tenta traduzir este mundo tradicional para alguma coisa mais elaborada'', frisa Beto.
É realmente complicado mudar a cabeça de uma sociedade aparentemente conservadora. Mas até que os curitibanos não são tão caretas assim. Os negócios entre um bacharel em engenharia química e administração de empresas (Beto) e um ator (Gustavo) vão bem. Em tempos difíceis, como os anunciados pelos indicadores econômicos e previstos na mídia, estar com festas marcadas até o final de 2004 é fato para não reclamar de nada. Só trabalhar.
E o jeito inventado para fazer do trabalho uma fonte inesgotável de idéias agradáveis que viram comidas, é pesquisar o tempo todo em tudo o que vêem pela frente. Como Gustavo é ator e investe na profissão com cursos em São Paulo, Beto vai para lá junto e pesquisa novos sabores. Idas a restaurantes que estão na moda trazem novas tendências de pratos para o Indra. ''A gente garimpa e o pessoal da cozinha executa'', revela Beto.
E assim fazem, de casamentos a aniversários de 15 anos. Tudo com a marca própria. É uma espécie de grife onde palavras estrangeiras como crostinis se misturam as nacionalíssimas berinjelas.
O trabalho com ''comida para festas'' começou depois de Beto ter tocado durante três anos o Yutz, um bar, boate e restaurante. Como ficava numa ala que na época ainda não era a festejada pela cidade (hoje o bairro Rebouças começa a crescer como anfitrião de casas de entretenimento), o Yutz ''cansou''.
''Eu tinha que mudar e fazer alguma coisa. Já que sou um glutão resolvi dar continuidade ao que eu gostava de fazer'', conta Beto. Para Gustavo foi um novo caminho entre os antagônicos que ele já trilhava. ''Eu fazia medicina. Depois larguei e fui fazer teatro, foi aí que conheci o Beto e acabamos sócios.''
O currículo diversificado dos dois ajuda bastante no sucesso da parceria. O cardápio não pode perder o princípio básico de manter a fidelidade ao inusitado. Festas temáticas, por exemplo, eles fazem. Mas tem que ter um toque de criação. ''É complicado você convencer que o nosso perfil é contemporâneo. E que não queremos fugir disso. Temos um nicho de mercado e queremos viver em cima dele''. Com isso Beto e Gustavo encerram o assunto e provam que é possível, sim, transformar o que era para ser uma simples festa em um evento com estilo.
''Aqui é um trabalho personalizado. Para quem tem bom gosto, sabe que tem valor e que paga por isso'', diz Gustavo ao explicar como já se sustentam somente com a renda gerada no Indra. A persistência num princípio de só fazer aquilo que gostam, com um talento agregado de outras histórias vividas, vira um exemplo bom para ser seguido. Ao não se corromperem apenas pelo dinheiro que poderiam ganhar com todas as festas que são chamados para fazer, Beto e Gustavo conquistam a sociedade curitibana e viram referência.


