Michele Bravos: "Missão é contribuir com a construção de uma sociedade que seja justa socialmente e livre de preconceitos"
Michele Bravos: "Missão é contribuir com a construção de uma sociedade que seja justa socialmente e livre de preconceitos" | Foto: Divulgação

Foi ainda na adolescência que a jornalista Michele Bravos começou a sonhar em fundar uma ONG. Nascida em Curitiba e criada rodeada pela mãe, tia e avó, desde cedo começou a olhar o universo feminino e entender a luta das mulheres, como funciona o mercado de trabalho, a necessidade de conciliar vida profissional e maternidade e inúmeras renúncias. E foi nesse universo que começou a se envolver com causas sociais.

“Com 14, 15 anos, eu já era envolvida com projetos sociais em Curitiba, trabalhando com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social, muito por influência da escola e também da minha mãe, que sempre teve um olhar bastante voltado para as causas sociais, há anos é voluntária e acredita no poder do voluntariado para transformar as realidades pessoais e sistêmicas. A partir disso acabei tendo um sonho de ter uma ONG, já que o voluntariado pode transformar, já que os projetos sociais são necessários, que vivemos em um País com tantas desigualdades, e elas precisam ser transformadas”, explica.

A motivação no curso de Jornalismo era justamente poder ampliar as vozes de pessoas que não eram ouvidas. Bravos diz que inicialmente pensou em trabalhar em zonas de conflito, como guerras, mas acabou percebendo que não precisaria ir muito longe.

“Eu queria comunicar sobre as atrocidades que acontecem nesses espaços para que elas não se repitam e para que as pessoas tomem consciência do que acontece para além da bolha em que vivem. Na faculdade percebi que falar sobre zona de conflito não precisava ser distante. Falar de zona de conflito era também falar do Brasil, falar de contextos que aconteciam ainda mais perto de mim, aqui mesmo em Curitiba. E aí eu acho que comecei a entender com mais maturidade as desigualdades que o Brasil vivia e vive.”

RESGATE

Foi também nessa época que Bravos conheceu outras pessoas com o mesmo objetivo e passaram a fotografar gente em situação de vulnerabilidade social, com o objetivo de proporcionar um espaço de resgate de identidade. Foram feitas fotografias de pessoas idosas, que estavam em lares de acolhimento, crianças retiradas de seus lares por serem vítimas de abuso e também mulheres encarceradas.

“Foi nesse trabalho que percebemos que podíamos fazer mais. O trabalho de por meio da fotografia tentar trabalhar um resgate de identidade, fortalecimento de identidade daquelas mulheres era um passo do que poderia ser feito. A gente poderia fazer mais, poderia talvez trazer outras perspectivas de trabalho com aquele público. Foi assim que entendemos que poderíamos, além da fotografia, trazer rodas de conversa, em que a gente pudesse falar sobre identidade, sobre empoderamento feminino, sobre ser gente e ser visto e sobre ocupar espaço. Agregamos ao trabalho de fotografia essas rodas de conversa. Nesse contexto do cárcere, percebemos que essas mulheres eram totalmente destituídas de sua identidade, de quem elas eram. O espaço do cárcere anula a identidade das pessoas”, critica.

REFUGIADOS

Foram três anos desse trabalho voluntário, entre 2013 e 2016. Nesse período a jornalista já havia terminado a faculdade, passado por uma redação de jornal e foi trabalhar no Grupo Marista. Em paralelo também se envolveu em um outro trabalho voluntário, dessa vez com a população de refugiados que chegavam a Curitiba. O desejo por conhecer mais a levou para um mês de trabalho na Jordânia, em uma viagem de ação humanitária.

“Lá tive contato com outros profissionais de diversas áreas que estavam chegando naquele país para fortalecer a equipe de missão humanitária local, para trabalhar na acolhida de refugiados sírios que estavam chegando no país. Era o quinto ano da crise migratória provocada pelo conflito na Síria, foi o auge da crise em termos de deslocamento. Eu voltei muito transformada, obviamente, e com um olhar de que era necessário falar desse assunto, que o Brasil e o Paraná precisavam conhecer o que estava acontecendo lá fora, até porque boa parte dessas pessoas estavam chegando aqui. Desde aquela época o Paraná é o terceiro estado que mais acolhe pessoas refugiadas da Síria.”

MOTIVAÇÕES

Bravos começou a fazer palestras onde falava sobre sua experiência e sobre as motivações que levavam as pessoas a deixarem seu país de origem, com o objetivo de quebrar o preconceito que os refugiados sofrem. Ela também estagiou na Acnur – Agência da ONU (Organização das Nações Unidas) para Refugiados e ainda em 2016 ingressou no mestrado em Direitos Humanos e Políticas Públicas.

“O estágio foi uma experiência de extrema importância para a minha carreira, para minha consciência como pessoa e como profissional, e foi quando eu entendi que uma grande organização como a ONU não tem força local se não contar com a ajuda de instituições locais. São elas que conseguem trazer uma transformação real. Nessa perspectiva iniciei meu mestrado, estava fazendo estágio, palestras. Em 2018 finalizei o meu curso e já no final do curso entendi que era o tempo de resgatar aquele sonho de infância de ter uma ONG até porque com toda essa história pude perceber que aquele sonho não era tão ingênuo assim. Com essa bagagem de vida, mesmo não tão vasta, eu poderia junto com outras pessoas criar algo que fosse relevante para a sociedade, algo que tivesse potência de transformação. Assim nasceu o Instituto Aurora em dezembro de 2017.”

PRECONCEITOS

Hoje o Instituto é composto por ela e mais quatro mulheres, de formações diversas que juntamente com voluntários tentam alcançar a missão de “contribuir com a construção de uma sociedade que seja justa socialmente e livre de preconceitos”. Para isso são realizados diversos projetos, muitos deles envolvendo a arte.

Com pouco mais de um ano a iniciativa recebeu um aporte financeiro do Instituto Avon em parceria com o Fundo Elas, um fundo de investimento social para mulheres. Também participou do Projeto Legado, de aceleração de organizações sociais.

Para quem muitas vezes foi motivo de piada por desejar ter uma ONG, a premiação é um forte indicativo de estar no caminho certo. “O sonho só se realizou e tem se realizado porque eu não caminhei sozinha. Houve muitas pessoas nessa jornada que acreditaram e somaram comigo, fosse no apoio mencionado em uma palavra, ou no apoio de ir junto em uma ação voluntária que eu tivesse criado. Isso é um reconhecimento, me enche de alegria e é impossível negar a existência dessas outras pessoas na jornada para que o sonho se mantivesse vivo de alguma maneira.“

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