Socialite sem frescuras
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de novembro de 2004
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba- A curitibana Neuza Madalosso está acostumada a sair em colunas sociais de revistas e jornais da Capital, mas nem por isso tem a síndrome dos loucos por flash que acompanham a maioria das mulheres ricas que nunca trabalharam na vida. Ao contrário do que possa parecer, Neuza é uma mulher simples, de hábitos requintados, mas um requinte de base, somente perceptível por pessoas que realmente sabem que os valores da vida não se restringem somente a aparentar, mas ser sorvidos com sapiência. E isso Neuza tem de sobra.
Ao conversar com ela na sala de sua casa, no bairro de Santa Felicidade, surge uma nova Neuza. De aparência jovial, sem ser do tipo plastificada (se as fez são todas naturais), Neuza conta com naturalidade que está trabalhando pela primeira vez na vida. Não se gaba por isso. Desde que eu me casei nunca havia trabalhado. Somente agora que meu marido abriu um segundo restaurante é que dou uma mão para ele.
Como casou muito cedo e teve uma criação rígida dada pela mãe que, ao se separar cedo, cobrava muita da filha, Neuza não conheceu muito das badalações da vida antes do casamento. Ao ser assediada pelo então futuro marido, não se entregou de primeira. Não foi amor à primeira vista. Ele me viu em algum lugar e pediu para me apresentarem. Ele começou a fazer marcação, passava na frente da minha casa e eu comecei a achar que era legal. Ele era um playboy naquela época, hoje ele mudou muito. Acho que ele casou comigo porque eu nunca forcei nada.
Essa conquista gerou quatro filhos: Giovana, Beto, Lorenzo e Isadora. Foi a eles que Neuza dedicou quase 20 anos de sua vida. Somente depois que eles estavam criados, a volta às colunas sociais aconteceu. Mas sempre sem ser forçado. Quando nós casamos, o Carlos já era conhecido. Então nós saíamos em colunas sociais. Eu não batalhei por isso. Foi tudo acontecendo devagarzinho, das pessoas
me colocarem em colunas,
mas a minha vida é aqui, voltada para cá.
Na verdade, Neuza não está dando muita bola para isso não. Em casa segue uma rotina rígida, sem precisar. Mesmo podendo dormir até a hora que bem entender, acorda cedo. Não acha certo ficar sem fazer nada. Então, depois daquela passada básica na academia, vai para casa e faz o almoço para a família. E apesar de ter empregadas, é Neuza quem
faz a comida para a família desde sempre.
E uma mulher que tem uma posição privilegiada na sociedade, como encara as diferenças sociais? Como encara as relações sociais de uma maneira geral? Eu encaro de uma maneira normal. Primeiro porque eu não era milionária, então já é diferente. Eu sempre vi o outro lado da vida. Segundo porque as pessoas que andam comigo eu trato sempre igual. Por exemplo: as minhas amigas de antes de eu me casar estão perto de mim até hoje. Eu não mudei. Outra coisa: minhas empregadas trabalham há 15 anos comigo e eu procuro sempre ajudá-las, mas se você quer saber se eu faço algum trabalho social, de minha iniciativa não. Participo quando os outros fazem.
Um outro indicativo de que Neuza realmente é uma socialite sem frescuras é a maneira como criou os filhos. Os quatro são estudiosos. A mais velha, Giovana, formou-se em comunicação e foi morar em Nova York e depois em São Paulo. Redatora de uma grande agência de publicidade lá, a filha mais velha é quem estimula e faz a troca intelectual com Neuza. As duas têm o hábito de recomendar uma a outra, filmes, discos e livros. E o que Neuza lê? Adoro Gabriel Garcia Márquez. O Amor nos Tempos do Cólera eu li quatro vezes. E as músicas? No momento da entrevista tocava o CD do grupo Gotan Project, uma compilação de músicas de Astor Piazzola com leitura eletrônica feita por um argentino e dois franceses.
E é desse jeito que Neuza leva a vida. Sem inverter valores em sua casa, está fazendo de seus filhos não protótipos de playboys e patricinhas deslumbradas e, sim, jovens privilegiados que aproveitam a vantagem que a vida lhes ofereceu. Ah, se todas as socialites fossem assim.


