SOB O SIGNO DO TRABALHO
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de fevereiro de 2001
Magda Carvalho 
Aos 18 anos, quando a maioria dos jovens ainda está decidindo o que fazer do futuro, Éderson Muffato se viu obrigado a assumir a maioridade sem ter muito tempo para pensar no que seria o amanhã. A morte prematura do pai, o empresário José Carlos (Tito) Muffato, em 1996, num acidente de avião, determinou de forma brusca sua passagem para a fase adulta. Herdeiro de uma cadeia de supermercados, com sede em Cascavel, hoje, aos 23 anos, ele é apontado como um dos nomes mais promissores da nova safra de empresários em todo o Estado.
Éderson trabalha desde os 9 anos de idade. Passou por quase todos os setores da empresa, até assumir os negócios do grupo, ao lado dos irmãos Everton, 20 anos, e Eduardo, 18. Sempre acompanhei os negócios do meu pai, mas nunca na direção, nunca na linha de frente. Eu acho que ele vinha nos preparando para um dia dividirmos com ele as tarefas, as decisões, por isso a morte dele foi um baque. Além da saudade, foi preciso ter muita força para erguer a cabeça e tocar os negócios, porque ele sempre foi o líder mor. Ainda assim, com todas as pressões, com toda dificuldade, conseguimos fazer o grupo crescer, diz. Quando Éderson assumiu os negócios ao lado da família, o grupo Super Muffato contava com 900 empregados e um faturamento de cerca de R$ 90 milhões. Em cinco anos o número de empregados subiu para 3,5 mil e o faturamento no ano passado fechou em R$ 400 milhões. O excelente desempenho da empresa é, segundo o empresário, resultado de um longo aprendizado ao lado do pai, mas o maior crédito fica por conta da união da família. É a base de tudo, justifica. As decisões são tomadas em conjunto. Foi assim quando foi convidado a disputar a presidência da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Cascavel. Éderson dificilmente conjuga seus verbos no singular. O pronome nós está presente na maioria de suas respostas, principalmente quando elas dizem respeito ao crescimento e expansão do grupo. Nós somos uma equipe. Sozinho não se vai a lugar nenhum. Além do meu tio Hermínio, em Foz do Iguaçu, um dos meus irmãos está em Londrina. Nós nos dividimos. Ele faz a área comercial e eu a administrativa. Temos um organograma bem definido na empresa, com diretores em várias áreas, como uma grande corporação, explica.
Ainda assim, o trabalho em equipe não tira o mérito de Éderson como revelação no meio empresarial. Não foi o sobrenome que o colocou como o presidente eleito mais jovem da história do CDL. Os votos de confiança dos 250 associados foram depositados no arrojo e determinação do empresário. Confiança que ele espera retribuir num curto prazo de tempo. Éderson só toma posse no dia 8 de março, mas já está enfrentando o primeiro desafio do cargo, tornar o principal evento do CDL, a Feira do Comércio (Fecom) num dos mais importantes do Estado. Para cumprir a tarefa, a Fecom passa esse ano por uma reformulação total. O número de estandes sobe de 90 para 226. A feira ganha ainda um novo leque de opções para o consumidor com a realização de uma feira automotiva, contará com uma praça de alimentação e um parque de diversões. Outro objetivo é atrair novos setores do comércio para expor na Fecom e aumentar a participação de indústrias.
As mudanças demonstram a visão de um empresário que não teme inovar. Consciente das diferenças entre dirigir uma entidade de classe e o próprio negócio Éderson acha que o novo desafio será uma troca de experiências. Eu quero dar a minha contribuição para o CDL e também aprender com a entidade, trazer coisas do CDL para a minha empresa. Tenho muito o que aprender até mesmo pelo convívio com outros lojistas, afirma.
Éderson tem um estilo de administrar a marcante. É impulsionado pela certeza de que é preciso apostar sempre no futuro. Essa, por sinal, é uma das poucas características, que segundo Éderson, o diferenciam do pai. Sempre tivemos a mesma linha, o modo de investir, o modo de agir, mas acho que pela circunstância do momento, eu tenho 23 anos, sou um pouco mais arrojado.
Quem procurar comparações com outro herdeiro famoso do setor supermercadista vai encontrar em comum só o mesmo segmento. Com um perfil muito diferente de outros jovens da sua faixa etária existe uma certa aversão a badalações. Dispensar fôlego e tempo com o trabalho é seu maior prazer. Com a pouca idade, o herdeiro do grupo Super Muffato poderia se dar ao luxo de apenas usufruir do patrimônio construído pelo pai. A questão é que Éderson não tem a mínima vocação para playboy. O tempo dispensado ao descanso é ínfimo, comparado ao vigor com que outros jovens se entregam ao lazer. Essa atitude de forma alguma é penitência: Não me frustro, a gente perde um pouco porque não tem sábado, nem domingo. Eu me criei ao lado do meu pai, aprendi a gostar das coisas que ele gostava em matéria de lazer, como uma boa pescaria ou estar na fazenda com os amigos. Mas o meu lazer, a minha realização, é estar dentro da loja, trabalhando, conversando com os clientes, ouvindo os funcionários. Talvez amanhã eu descubra uma nova fonte de lazer. Não gosto de ir a praia, em lugar nenhum, somente a fazenda, pescar e trabalhar, comenta.
Além do prazer, essa devoção pelo trabalho está na consciência que Éderson tem do tamanho de sua responsabilidade em manter a tradição da família e fortalecer um nome que hoje está na linha de frente do setor supermercadista em todo o Paraná. Espalhado pelas principais cidades do Estado, o grupo em breve inaugura uma moderna loja, em Maringá. É uma responsabilidade muito grande, mas eu acho que estamos conseguindo levar o nome dele e o que nós conseguimos herdar adiante, conseguimos crescer, criamos mais lojas, mais empregos, ajudamos mais a comunidade.
Na contabilidade positiva há, inclusive, espaço para a contribuição social. Há um ano foi criada a Fundação Tito Muffato. O trabalho consiste em adotar uma creche em cada praça onde nós atuamos. Começamos com um projeto piloto, em Cascavel, agora temos um projeto para Foz do Iguaçu, Maringá, Londrina, Ponta Grossa e Campo Mourão. O trabalho inclui ainda o Super Domingo. Um programa de recreação que chega a reunir cerca de 8 mil crianças em cada realização, além de projetos junto as escolas. O setor supermercadista é o carro-chefe nos negócios da família, mas a ele acrescentam-se outros ramos. Éderson também ajuda a administrar as fazendas, um hotel e a TV Tarobá, emissora que pertence ao grupo. Mesmo estando presente nas decisões que envolvem outros segmentos ele faz questão de frisar que sua vocação está na área de atuação do pai, o comércio é o que corre na veia.
Pretensões políticas? Para Éderson falar desse assunto é muito prematuro. Nunca posso dizer dessa água não beberei, mas por enquanto meu objetivo é trabalhar para a classe lojista da qual eu faço parte. Uma resposta que está de acordo com alguém que tem um longo futuro pela frente e já aprendeu a lidar com a rapidez dos acontecimentos.


