Além dos adjetivos que seus projetos evocam, mais alguns podem ser acrescidos à figura do arquiteto paulistano João Armentano: extremamente simples, simpático e acessível. Se assim não fosse, qual profissional de renome atenderia a reportagem da Folha, passando de meia-noite, no lobby do hotel, depois de madrugar para um dia cheio de compromissos em Londrina e com a perspectiva de ter de acordar quatro horas mais tarde para retornar a São Paulo?
  Pedindo desculpas pela ‘‘cara de sono’’ (ele estava na cama quando foi acordado para a entrevista), Armentano já começa falando da paixão por Londrina. ‘‘Adorei esta grande cidade pequena, tão nova, tão rica, tão gostosa de se morar. São apenas 70 anos e o que tem de prédios, condomínios, espaços culturais e, acima de tudo, qualidade de vida...’’, diz entusiasmado com o que viu e vai rever em outras aterrissagens por aqui, para acompanhar o projeto de uma casa que assina no Royal Golf. ‘‘Outras virão’’, prevê, batendo na madeira.
  Um dos arquitetos mais importantes no cenário nacional, Armentano veio à Cidade para uma palestra e visita à MD&I, a convite da Todeschini, empresa de móveis planejados, para quem empresta seu nome na campanha que está sendo veiculada em revistas e catálogos. Numa segunda etapa, ele deverá desenvolver peças exclusivas para a marca, a exemplo do que vem fazendo com uma nova linha de metais criada para a Deca.
  Criar, sem dúvida, é a sua vocação. Desde criança queria ser arquiteto. Reconhece que a rebeldia, a transgressão, sempre foi um lado forte de sua personalidade desde os tempos em que estagiava em grande escritórios de arquitetura e contestava tudo o que era certinho. ‘‘Hoje conquisto várias ‘casinhas’ por causa dessas intervenções nos layouts tradicionais, sugerindo coisas novas’’. E por falar em ‘casinhas’, ele confessa: ‘‘30% do meu trabalho é decoração, que é o que dá fama e dinheiro; os outros 70% são relacionados à arquitetura, que dá dor de cabeça’’.
  Com fama de quebrar conceitos pré-estabelecidos, Armentano é figura carimbada na Casa Cor São Paulo, onde suas idéias inovadoras sempre ganham as páginas das revistas e conquistam novos clientes. Há 11 anos transformou um sótão numa sala de estar com tudo o que não se usava na época. Em outra edição da Casa levou o prêmio de Melhor Espaço com uma sala de pé-direito altíssimo. Em 1996, foi a vez da Garagem, onde colocou um Audi e uma bicicleta dividindo espaço com um aconchegante canto de estar com sofás pretos e baús antigos fazendo contraponto ao belo design da chaise em couro branco de Mies van der Rohe. Para a edição 2004, ele está ambientando um Spa de 350 metros quadrados.
  Mas foi o projeto de interiores do Hotel Unique, em São Paulo, que lhe abriu portas e levou seu nome para além das fronteiras tupiniquins. E não era para ser assim. Afinal, Armentano ‘‘queria ficar invisível’’ nessa obra arrojada da arquitetura moderna assinada pelo colega Ruy Ohtake. ‘‘O mínimo seria o máximo para valorizar as linhas do grande mestre’’, lembra. Referência na hotelaria mundial, o Unique foi considerado a 8ªmaravilha do mundo pela revista Traveller. ‘‘Hoje, quando viajo para o exterior, meu nome sempre é relacionado ao hotel’’.
  Apaixonado pelo estilo loft de viver, o arquiteto garante que esta é uma forma de moradia que veio para ficar, ‘‘um jeito jeans de morar – como a velha calça imortalizada, o loft não é moda, é modo de vida’’. Uma analogia que para ele traduz a essência dos lofts, velhas fábricas e galpões novaiorquinos transformados em moradias sem paredes e com tubulações à vista.
  Partindo da idéia americana, Armentano transportou o desenho do loft para a atualidade. Construiu em São Paulo, desde 1997, vários prédios com apartamentos de pé-direito duplo, mezanino, um mínimo de paredes, materiais contemporâneos e alta tecnologia. O sucesso foi tanto que despertou o interesse de Joseph Pell Lombardi, o papa dos lofts antigos de Nova York, que o chamou para uma troca de experiências.
  Ao falar sobre estilo, Armentano se define como um profissional atual, que sempre busca o presente. Avesso a excessos e modismos, seus projetos ‘‘têm focos de coisas que estão na moda, mas quando não estiverem mais, é só trocar, atualizar, pois a base é atemporal e aceita essa substituição’’, argumenta, assumindo sua porção minimalista: ‘‘Sou contra os exageros, jamais adotaria um Versace, gosto das coisas neutras’’.
  Praticidade, conforto e qualidade estão na essência de seu trabalho. Três palavrinhas mágicas que, com uma dose extra de criatividade e senso estético apurado, se transformam em espaços cheios de surpresas a serviço do morador. ‘‘Não adianta ter um espaço superbonito para ficar olhando, a casa atual tem que ser projetada para ser usada em cada metro quadrado’’.
  Festejado pela mídia nacional, com status de celebridade, Armentano sabe que este é um campo minado e não alimenta seu ego com o fato de estar na crista da onda. ‘‘De repente, chega um novato que pendura as cadeiras de ponta-cabeça e estamos ultrapassados. Por mais que a gente evolua, é tudo muito efêmero, as coisas mudam num piscar de olhos. Somos vendedores de emoções movidos a desafios’’.

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