Quando chegou ao Brasil, para uma temporada de três meses de aulas e treinos na Academia Iron Works, em Londrina, a iugoslava Duda Jankovich (agora Guimarães), 24 anos, não imaginava que sua vida mudaria radicalmente. Casou-se com o dono da academia, o professor de Educação Física Waldemar Guimarães, seu preparador físico, e está requerendo a naturalização. Duda (nome adaptado foneticamente para o português, já que o verdadeiro é quase impronunciável na língua portuguesa), agora quer defender a bandeira verde-amarela numa modalidade em que é a primeira no ranking mundial: o kick boxing (na categoria low kicks, até 60 kg).
Duda e Waldemar se conheceram há cerca de três anos, em São Paulo. Casualmente, estavam hospedados no mesmo hotel. Um breve encontro foi o suficiente para perceberem que havia muita afinidade entre eles. Passaram, então, a manter contato via Internet e telefone. ‘‘Waldemar me passava treinamentos por e-mail, do Brasil e da Inglaterra, onde ele morou alguns anos’’, lembra a atleta.
Duda desembarcou no Brasil há apenas dez meses e já fala admiravelmente bem o português. ‘‘Aprendi com meus alunos’’, diz ela. Resta, claro, um certo sotaque, que acrescenta um pouco mais de charme à sua dona. Charme, aliás, que já foi inúmeras vezes reconhecido, em capas de revistas e comerciais. ‘‘Minha imagem foi muito utilizada pela mídia na Europa. Como atleta, quando eu obtinha bom resultado numa competição, ou como mulher, por ter escolhido um esporte ‘diferente’’’. Ela se orgulha de ter sido capa de diversas revistas e tem um book fotográfico de fazer inveja a muita modelo profissional.
Glamour à parte, o que direciona a vida dessa moça é o esporte. Ela passa o dia todo na academia. Quando não está dando aulas (de kick boxing ou personal trainning) está treinando, sob a orientação do técnico Miguel de Oliveira. Waldemar, o preparador físico, segundo Duda, na hora de trabalhar não tem nem m de marido, porque não facilita. ‘‘Ela está entre as melhores atletas do mundo, precisa de treinamento de alto nível’’, justifica Waldemar. E ele sabe o que está dizendo: tem vários livros publicados e é referência nacional quando se trata de musculação. Acaba de lançar o quarto volume da coleção ‘‘Musculação Total’’, livro e vídeo gravado com Duda e com Ismael Souza, campeão brasileiro de jiu-jitsu e mundial de vale-tudo.
A dedicação ao esporte vem da infância. Duda lembra que treina desde muito nova. Começou pela natação, praticou diversos outros esportes e, antes de chegar ao kick boxing, passou pelo karatê. ‘‘Percebi que me saía bem em qualquer esporte. Tinha vocação. Passei, então, a investir nisso’’, explica. Ela admite que teve que abrir mão de muita coisa para chegar aonde chegou. ‘‘Sempre dormi cedo, para acordar cedo e treinar no dia seguinte. Isso, na adolescência, era um pouco difícil, pois minhas amigas saíam à noite e eu quase nunca podia acompanhá-las. Mas valeu a pena’’, pondera. E valeu mesmo: Duda coleciona títulos, troféus e medalhas. Foi várias vezes campeã iugoslava, campeã dos Bálcãs, campeã mediterrânea, além de estar sempre entre os primeiros lugares nos campeonatos europeus e pan americanos.
Defensora de que toda pessoa deve praticar uma atividade física, seja ela qual for, Duda Jankovich não acha que tenha optado por um esporte violento. ‘‘Qualquer treinamento profissional na área do esporte é violento. Treinamento três vezes por semana é saúde; treinamento com vistas a uma carreira atlética é sofrimento e dedicação’’, compara. Ela já teve o nariz quebrado três vezes, mas lembra que se machucava mais quando jogava handebol. Chegou até a fraturar o tornozelo. ‘‘No ringue, você entra preparado, com luvas, capacete, tornozeleira; numa quadra, não. Aí está a diferença’’, explica.
E para quem quer ver Duda em ação, está marcada para o dia 25 de março, no Santo Ponto, em Londrina, uma luta entre ela e Ana Paula, da Combat Sport, de São Paulo. ‘‘Vai ser uma luta de verdade, mas com ambiente de show, com muita música e iluminação especial’’, avisa. Também estarão no ringue alunos dela. Por enquanto, apenas os homens. ‘‘Tenho alunas com possibilidade de se saírem bem no kick boxing, mas elas ainda não estão preparadas para lutar diante do público’’, justifica.
Vaidosa, ela não abre mão de usar maquiagem, salto alto e perfume. A alimentação é saudável: muita carne, legumes, verduras, fibras e frutas. ‘‘As frutas brasileiras são maravilhosas’’, comenta. Ela adora as cítricas, como carambola e abacaxi. ‘‘No Brasil encontrei tudo o que eu precisava para ser feliz. Sol, calor, um povo gentil, acolhedor. E mais: um marido e um preparador físico dos melhores’’, elogia. ‘‘Em termos de relações humanas, de afetividade, o brasileiro está muito à frente’’, acrescenta. Por enquanto, só uma coisa a desagradou no Brasil: a distância de sua terra natal, a Iugoslávia, onde mora toda a sua família. ‘‘É muito, muito longe!’’, lamenta.

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