Angelita Marques Visalli, docente de história medieval, tem 120 imagens de São Francisco de Assis em sua casa: grande variedade de apresentação do santo é só no Brasil
Angelita Marques Visalli, docente de história medieval, tem 120 imagens de São Francisco de Assis em sua casa: grande variedade de apresentação do santo é só no Brasil | Foto: Gina Mardones


Nas paredes da casa da professora universitária Angelita Marques Visalli, professora de história medieval e pesquisadora do departamento de História da UEL (Universidade Estadual de Londrina), algumas prateleiras chamam a atenção. Sobre elas é possível observar uma variedade de imagens representando São Francisco de Assis, de diversas maneiras: com pássaros, sozinho, em pé, sentado, magro, dançando. São cerca de 120, vindas de diversos cantos do Brasil e do mundo, compradas ou recebidas como presente.

Grande estudiosa do santo, ela começou a sua coleção após ver as imagens de um outro colecionador. E agora pede a colaboração da comunidade londrinense para uma grande exposição, que irá mostrar as diversas formas iconográficas de São Francisco de Assis, a ser realizada no Museu Histórico de Londrina em agosto.

O interesse pelo santo italiano começou ainda no mestrado, feito na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). "Quando entrei para o mestrado, entrei com um projeto de estudos da origem medieval da Festa do Divino, porque eu sou de Florianópolis e quando saí da graduação já tinha interesse em fazer história medieval. Ai entrei no mestrado, fiz uma disciplina chamada 'Os marginais da Idade Média' e a professora distribuiu documentação entre os alunos para fazer um trabalho específico. Calhou para mim as geografias franciscanas, que são as biografias de Francisco dos séculos 13 e 14 e eu fiquei apaixonada, me encantou. Era uma época em que a gente poderia mudar de ideia, acabei me empolgando", explica.

O franciscanismo acabou permeando também seu doutorado e o pós-doutorado, mas ela diz que, um dia, ao conversar com alguém, se deu conta que desde criança conhecia a oração de Francisco de Assis, escrita com letras góticas em um quadrinho que sua mãe mantinha no quarto de costura e que hoje está em sua casa. "Eu lia aquela oração várias vezes, me pareceu que tem um 'linkezinho' aí que a gente só vai se tocar depois de muito tempo."

A exposição "Francisco de Assis: as muitas faces de um santo homem" será realizada no Museu Histórico de Londrina, com abertura no dia 3 de agosto. O objetivo, segundo Visalli, é mostrar a construção da imagem dele ao longo do tempo e também a diversidade de representações, característica presente apenas no Brasil. Segundo a professora, o perfil de São Francisco, sua identificação com os pobres e com os animais possibilita um certo tipo de intimidade e com isso o artista sente liberdade para fazer um santo que se apresenta de forma pouco convencional.

OS PASSARINHOS

"Se você acompanha as formas de representação de Francisco desde o século 13 até hoje, tem muita variação, tanto em termos cronológicos como em termos regionais. Tem imagens de Francisco extremamente ascético, magro, envelhecido. Os atributos que normalmente vão caracterizá-lo nem sempre foram os passarinhos, muitas vezes é o Evangelho, a escudela – o pratinho de pedir esmolas, a caveira –, uma indicação de penitência. Dependendo do período você tem um padrão de iconografia diferente, que acompanha a política da Igreja, o investimento feito nas imagens, que acompanha a própria devoção. Por que hoje temos essa variedade incrível de formas de apresentação? Isso é característico do Brasil, da religiosidade popular brasileira. Em outros lugares você não tem essa variação", garante ela, acrescentando que outros santos, apesar de grande devoção como Santo Antônio e também Nossa Senhora, não têm a mesma variação na iconografia.

Quem deseja ver o seu São Francisco na exposição deve entrar em contato com o museu, sendo possível levar a imagem até lá ou solicitar que alguém vá buscá-la. A peça será registrada, ganhará um número e será fotografada, de forma a garantir a identificação para que seja devolvida ao dono depois de encerrada a mostra. Também estão sendo tomadas providências para garantir a segurança das peças.

CIDADE NATAL

Além da exposição das imagens, haverá uma mostra com fotografias da cidade de Assis, na Itália, feitas pelo mestrando em História Social André Pelegrinelli, que juntamente com Visalli é curador da exposição das imagens. Também paralelamente será realizado o 1º Encontro Internacional Francisco e Franciscanismo, de 29 a 31 de agosto, voltado à pesquisadores, que ocorre em paralelo com outros três eventos já tradicionais: VII Jornada Internacional de Estudos Antigos e Medievais, XVII Jornada de Estudos Antigos e Medievais e XII Ciclo de Estudos Antigos e Medievais.

"A exposição nos ancora com uma outra viagem, que é a relação com a comunidade externa, ela poder acompanhar sobre o que estamos refletindo. E um personagem que tem uma identificação muito grande com a vida religiosa das pessoas. Nosso objetivo com a exposição é atingir a população naquilo que a toca de algum modo e produzir uma reflexão também, temos de um lado a atividade acadêmica e do outro temos uma troca efetiva. Com a campanha temos uma participação efetiva das pessoas que trazem objetos das suas casas. Tem a questão de pertencimento, você traz a sua imagem, que está na sua casa, na sua prateleira, no seu oratório e leva para o museu da cidade, que é um lugar público. Isso é uma coisa muito bacana nesse sentido também. As pessoas podem efetivamente estar num espaço de demonstração do que é Londrina, que no caso é uma exposição sobre Francisco", afirma a professora.

Os interessados em contribuir com a exposição têm até o dia 20 de julho para levar as imagens para o museu. Mais informações através dos telefones (43) 3323-0082 e (43) 3324-4641.

mockup