Dezoito anos após a morte de Ayrton, a Williams volta a ter um Senna pilotando um de seus carros. Bruno, o sobrinho de um dos maiores ídolos do esporte brasileiro e um mito no automobilismo mundial, vai defender a escuderia em 2012. Será sua terceira temporada na F-1 - ele já passou pela Renault-Lotus e HRT (Hispania Racing Team). Sem querer traçar objetivos na nova equipe, o piloto limita-se a dizer que o que realmente espera ''é extrair todo o potencial do carro e, se no final do campeonato tiver a certeza de que tirou 100% do que ele poderia andar, o ano já terá valido a pena''.
Ser piloto era um sonho que esse paulistano alimentava desde criança. A morte do tio, em 1994, segundo ele, influenciou ainda mais no seu futuro. ''Mas nunca deixei de pensar em seguir esse caminho. A arrancada veio num belo dia em que minha mãe me perguntou o que eu queria fazer na vida. Eu tinha quase 20 anos, falei que queria ser piloto, ela ficou extremamente surpresa, mas quando se recobrou me apoiou logo de cara'', disse. Bruno conversou com nossa reportagem e, entre os assuntos, falou sobre o atual momento e claro, seu tio, Ayrton Senna.
Como você foi recebido em sua nova equipe, a Williams?
Muito bem. Por incrível que pareça, algumas pessoas da época do Ayrton ainda trabalham lá. Já estive várias vezes na equipe e me sinto cada vez mais entrosado com o pessoal. O trabalho começou para valer antes da definição do acordo, porque fui submetido a uma série de testes. E o mais legal é que nesta quinta-feira (dia 19) vi o carro de 2012 pela primeira vez no túnel de vento.
Você está com 28 anos. Sebastian Vettel, por exemplo, aos 23 anos é bicampeão mundial de F-1. As oportunidades para você demoraram a chegar?
A questão é que comecei muito tarde. Fiz minha primeira corrida na Fórmula BMW, praticamente uma escolinha de pilotagem, já com 20 anos. Com essa idade, o Felipe Massa já tinha contrato assinado com a Ferrari. Felizmente, no entanto, acho que tenho compensado o início tardio e a falta da base no kart com muita dedicação e a capacidade de aprender as coisas muito rapidamente. Tanto que até na Fórmula GP2, a série logo abaixo da F-1, venci logo na terceira corrida.
Sua entrada na Williams pode ser a aposentadoria de Rubens Barrichello?
Espero que não. Ainda tem pelo menos uma equipe com vaga na F-1, mas não sei como ele se encaixa nos projetos dela e nem se ele teria interesse em ir para lá.
Quais são os próximos brasileiros com chance de chegar a F-1?
Essa é uma pergunta para a qual não tenho uma resposta segura. A verdade é que o número de brasileiros correndo nas divisões de base na Europa, e mesmo no Brasil, vem caindo a cada ano, o que torna complicada a reposição de nomes na F-1. E não é fácil chegar, porque é necessário uma série de fatores que nem sempre se consegue reunir ao mesmo tempo.
Você acha que de certa forma a F-1 perdeu a 'graça' para os brasileiros depois da morte de Ayrton Senna?
Pode ter perdido um pouco da parte daquelas pessoas que não acompanham exatamente um esporte, mas um brasileiro que esteja se destacando. Isso já aconteceu em outras modalidades, como o tênis na época do Guga, do vôlei e outros esportes. Mas a F-1 já está enraizada na cultura esportiva do brasileiro. Depois de algumas décadas de exposição, os torcedores estão acostumados e acompanham as corridas independentemente das chances dos brasileiros.
Você disse certa vez em uma entrevista à revista Veja que Ayrton não era seu ídolo. Você tem ídolos nesse meio?
É bom esclarecer esse ponto. Minha relação com Ayrton era diferente daquela dos torcedores, porque ele era meu tio e eu estava habituado à presença dele. Mas isso não quer dizer que eu não tenha uma profunda admiração pelo que ele realizou e pelo que representou como piloto. Da mesma forma, não dá para deixar de se reconhecer o valor de Michael Schumacher, do Sebastian Vettel, do Fernando Alonso, enfim, piloto bom é coisa que nunca faltou na F-1.
Por ser um esporte de alto risco, você tem medo?
Não tenho medo. Conheço os riscos do esporte e faço o que estiver ao meu alcance para minimizá-los. Já sofri alguns acidentes bem feios, como um na época da Fórmula 3 inglesa num dia em que minha mãe estava no autódromo, mas depois que a poeira baixa você esquece rapidamente e logo está pronto para acelerar novamente.
Quais os maiores entraves de um piloto para chegar na F-1?
Nossa, são tantos que nem sei por onde começar...(risos). Além de ser um esporte muito caro, que requer altas verbas de patrocínio por longos anos, o funil é muito estreito para tanta gente querendo chegar lá. Atualmente, são apenas 12 equipes e a renovação a cada ano é muito pequena. Nas chamadas grandes, por exemplo, não houve nenhuma mudança em 2012. Na verdade, quando você começa a correr atrás desse sonho, as chances de realizá-lo são bastante remotas.
O patrocínio de Eike Batista teve peso na sua contratação pela Williams?
O patrocínio da OGX, uma das empresas do Eike Batista, é muito importante e tem me ajudado desde o ano passado, já naquelas oito corridas que fiz pela Renault. Mas ele não está sozinho, pelo contrário: também conto com o apoio da Procter & Gamble, que me patrocina com as marcas Gillette e Head & Shoulders, da Embratel e da MRV. E ainda estamos negociando outras parcerias com empresas que estão aproveitando esse bom momento da economia brasileira para divulgarem suas marcas.
Até que ponto carregar o sobrenome Senna é bom e ruim?
Existem os dois lados, claro. O bom é que facilita o contato, abre portas com empresas que enxergam no meu nome um excelente potencial de marketing. O ruim é que tende a gerar expectativas elevadas, mas já estou acostumado a elas. Na medida em que construo minha própria carreira, as associações tendem a perder um pouco o impacto.
Como é Bruno Senna no trânsito? Você é ''pé de chumbo''? Entende de mecânica?
Vivo a maior parte do ano em Mônaco, onde as punições por infrações no trânsito são severas. Acho que sou um motorista como os demais, que procura respeitar as regras. Em São Paulo, até por conta do trânsito maluco que incomoda, muitas vezes recorro ao motorista da família. Entendo de mecânica, sim, porque desde criança sempre tive muita curiosidade a esse respeito.
Você se cansa das comparações com seu tio Ayrton?
Não, tiro de letra. As comparações não são apenas profissionais, mas também pessoais. Muita gente se surpreende pela nossa semelhança, como se pessoas da mesma família não se parecessem entre elas.
Qual era o maior defeito e a maior qualidade dele em sua opinião?
Olha, é difícil apontar um defeito porque eu era muito pequeno na época da morte dele. Nas pistas, ele sempre foi muito perfeccionista e essa é também uma característica da minha família. Como tio, sempre foi muito carinhoso e gostava de estar reunido com a gente sempre que voltava ao Brasil.

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