(Danuza Leão)




Ser homem por uns dias
Mas quanta mentira nos contaram; tudo começou quando disseram que a gente podia ser livre.
Só que não é verdade, e ninguém é livre: todos dependemos uns dos outros, numa trama muito bem amarrada.
Do começo: depois de um planejamento estratégico digno de um general de Napoleão, ficou combinado que ele iria jantar na sua casa terça-feira. Você conseguiu saber que seu prato predileto era camarão ensopado com chuchu, acompanhado de arroz branco. Morando sozinho, ele, na nostalgia da casa materna, gostava de uma comida caseira, mas dava mais valor a um arroz soltinho feito na hora do que a qualquer outra coisa nesse mundo.
Na véspera você comprou as flores, o camarão, e explicou à empregada que eles deveriam ser cozidos no vapor com a casca, e só depois descascados. Quanto ao arroz, nem era preciso falar; achou que por aí estava tudo certo, e só precisava cuidar da roupa, do fundo musical, etc.
Só que para que tudo dê certo na cozinha é preciso que a empregada esteja de bom humor; e o bom humor dela vai depender de como passou o fim de semana – o que por sua vez vai depender de como o namorado a tratou. Tudo teria ido bem, se ele não tivesse tido uma grande discussão com sua ex, por achar que as crianças estavam muito largadas – véspera de Carnaval, já viu.
A ex rodou a baiana: e que história era essa de querer mandar na vida dela, ele que só aparecia um sábado por mês, justamente no dia do ensaio da escola? Briga de Kramer X Kramer por causa de filho é mais antiga do que a Sé de Braga, e não tem fim. Quando os filhos estiverem casados a briga vai continuar e continuar através dos séculos, e essa é uma das únicas seguranças que a vida nos dá.
E foi por tudo isso e por mais alguma coisa que, quando o jantar foi servido – aquele lá de cima, do camarão com chuchu –, o arroz estava uma papa e a noite foi mais ou menos um fracasso. Por quê? Porque a ex-mulher do namorado da empregada estava aprontando na quadra – que tal?
Ah, se fosse só isso. Quando o ônibus não passa você não chega ao trabalho, se os táxis estiverem cheios não se chega em casa, e os que têm carro e motorista não podem, jamais, ter certeza de que chegarão a tempo e a hora no lugar que determinaram, a não ser que seja um lugar onde possam ir a pé – só assim não estarão dependendo de ninguém.
E no trabalho? Quem pode trabalhar direito se o namorado sumiu ou não telefonou na hora combinada? E quem vai ter abertura para explicar ao chefe que assim não dá para se concentrar, verificar os números, acompanhar o mundo das fusões milionárias, falar sobre como a Internet está mudando a vida das pessoas, prestar atenção se o a é ou não do verbo haver, se é ou não craseado; enquanto ele não telefonar o mundo vai estar parado, e dane-se a empresa, o emprego, a família, a tradição e a propriedade. Como tudo seria fácil se o telefone tocasse – e agora, com os telefones funcionando, não há nem a desculpa de ele não ter conseguido ligar; mas que vida.
A nossa vida, claro; quanto ao colega que não consegue se concentrar, não existe nem ao menos um momento de compreensão – e de lembrança dos tempos em que também era assim, ou talvez pior – e compaixão por suas dependências que agora parecem ridículas, mas que já foram tão reais.
As pessoas deveriam se relacionar apenas por seus interesses do momento; os alcoólatras com seus semelhantes, os viciados em droga com seus idem, os felizes apaixonados com seus amigos também apaixonados, e os abandonados com os abandonados, os para quem o telefone não toca com seus iguais.
Mas a gente começou falando das mentiras que nos contaram sobre a liberdade. É verdade que em algum momento da vida as pessoas até se sentiram livres, mas fizeram o que dessa liberdade? Quem mais fez, fez muito pouco.
É mais fácil dizer que a sensação de poder fazer o que se quer é suficiente, mas o melhor de tudo seria mesmo usar essa liberdade, como fazem os homens. Só que nós, mulheres, não podemos – não como os homens podem.
É preciso reconhecer às vezes: seria bem-bom ser homem, para poder ser completamente livre.
As mulheres que me desculpem, mas deve ser muito bom ser homem, pelo menos por uns dias.
Deve ser muito bom mesmo.

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