Na adolescência, quando sonhava com o futuro, Carolina Ferraz jamais se imaginou como atriz. E até os 22 anos de idade, se dividia entre uma instável carreira de modelo e a apresentação de programas como o Shock e o Programa de Domingo, da extinta Rede Manchete. O rosto bonito, a voz bem-postada e o jeito descolado, no entanto, chamaram a atenção para integrar o elenco da novela Pantanal, que acabou sendo seu passaporte para a dramaturgia. ''Eu não havia feito nada antes, nem estudado teatro. Mas foi uma experiência que me marcou definitivamente. Foi ali que eu decidi que queria ser atriz e me dedicar a isso'', garante a atriz, que atualmente interpreta a Rebeca, de Belíssima.
Nestes 15 anos de carreira, Carolina Ferraz já pode dizer, sem medo de errar, que é uma atriz com uma carreira bem-sucedida. Depois de trabalhar em outras produções da Manchete, como A História de Ana Raio e Zé Trovão, ela se transferiu para a Globo em 1993, onde se destacou em novelas como Por Amor, Pecado Capital e Kubanacan. Atualmente, em seu primeiro trabalho com Silvio de Abreu, ela se sente à vontade como a sócia de uma agência de modelos, um mundo com o qual ela tem intimidade de sobra. ''Eu adoro esse universo, tenho amigos fotógrafos, designers, estilistas e convivo muito com essas pessoas. Então, acho que isso contribuiu para compor a personagem'', admite.
Além de estar em Belíssima, a atriz também pode ser vista no teatro com a peça O Rim, em cartaz no Rio de Janeiro, da qual também é produtora. Carolina, aliás, não resiste a fazer planos para novos espetáculos Mas o ritmo de trabalho intenso a atual é a terceira novela que Carolina emenda , a faz pensar que deveria tirar férias, tão logo terminem as gravações da novela, em julho. ''É um sonho, mas eu gostaria de viajar para um lugar onde pudesse estudar algo diferente, como culinária ou cerâmica'', vislumbra.
Enquanto o sonho não se realiza, Carolina vive Rebeca com muito prazer. ''Eu adoro o figurino dela. Pode parecer superficial, mas não é. Ela é uma personagem conceitual. A maneira como ela se veste... Eu não usaria todas aquelas roupas daquela maneira. Mas acho muito bacana que ela use. E, na verdade, eu ainda estou descobrindo a personagem. Em novela a gente nunca sabe muito tempo quem é que a gente está fazendo. Você recebe um perfil do personagem, dizendo qual será o desenvolvimento dele na história. Desde o início eu já sabia como seria essa entrada dela, mas agora, no decorrer da trama, eu começo a descobrir coisas mais importantes sobre a Rebeca.''
Famosa pela beleza e elegância. Carolina acha que o fato de já ter vivido esse ambiente da moda não contribuiu para a composição da personagem. ''Primeiro porque eu fui uma modelo fracassada. As pessoas não acreditam, mas eu nunca fui uma modelo famosa. Eu comecei a fotografar mesmo e adoro fotografar depois que virei atriz. A verdade é essa. Acho que toda a minha relação com o universo da moda me ajudou. Tenho muitos amigos fotógrafos, coleciono fotografias, tenho amigos designers, estilistas e convivo muito com essas pessoas, sou interessada por isso. Então, acho que isso tudo contribuiu. Mas eu nem sei como funciona uma agência de modelos.''
Apesar de nunca ter trabalhado em novelas de Silvio de Abreu, Carolina revela que existia um namoro antigo. ''Eu sempre tive um desejo profundo de estar com o Silvio. E com o Silvio acontecia a mesma coisa. Sempre que a gente se via ele falava que seria legal nós trabalharmos juntos. Eu não pensava em fazer nenhum trabalho agora, queria estar de férias. Mas eu falei: ''ah, eu vou, agora é a hora, não importa o tamanho da personagem.''
Em relação à novela abordar o culto à beleza, Carolina observa que essa abordagem não é um mito da sociedade contemporânea. ''No Egito Antigo ou em Roma a beleza também era cultuada da mesma maneira. Antigamente, as pessoas não colocavam silicone porque não existia. Mas já existiam aqueles pós brancos, as perucas, toda a indústria do luxo que a França inventou desde o Renascimento... O que eu acho é que o Silvio aborda a sociedade capitalista de consumo. A mitificação da beleza já existia. Mas eu acho que o belo, da maneira como esses grandes artistas viram e da maneira como abordavam, não era uma coisa sem conteúdo. Eles buscavam uma forma que se aproximasse da perfeição''.
Carolina lembra ainda do primeiro trabalho, na novela Pantanal, cujos direitos foram comprados pela Globo. ''Foi há tanto tempo, eu fui até lá, me jogaram naquele lugar com bandos de jacarés por todos os lados, acordando às quatro da manhã, tomando banho frio e dormindo às seis da tarde. A gente se comunicava com o mundo pelo rádio, porque telefone não funcionava. Significou um momento feliz. Foi uma delícia toda aquela aventura, com o Jayme Monjardim, naquele lugar maluco. Foi aí que realmente eu decidi que queria ser uma atriz e me dedicar a isso. E foi inesperado para todos nós na época. Foi uma conspiração de fatores favoráveis o que se realizou. Acho que ninguém imaginava que faria tanto sucesso. A ficha só caiu depois.''
Paixão tardia A maior parte dos atores, desde cedo, se descobrem apaixonados pelo palco ou pela câmara. Carolina Ferraz, ao contrário, nunca pensou em ser atriz. Até os 22 anos, a então modelo e apresentadora jamais tinha feito um curso de interpretação. Foi quando, em 1990, surgiu o convite para integrar o elenco de Pantanal, que acabou se tornando um estrondoso sucesso. A despeito da boa repercussão da novela, aquele trabalho acabaria se tornando um marco na vida de Carolina Ferraz. ''Eu nunca tinha feito nada até ali. Por isso foi uma loucura, especialmente para mim, entender o que aconteceu em Pantanal'', recorda.
Dali em diante, a atriz não teve mais dúvidas quanto ao desejo de seguir em frente como atriz. Em cerca de 15 anos de carreira, Carolina Ferraz já acumulou mais de 20 trabalhos na tevê, entre novelas, minisséries, seriados e participações especiais. ''Só é ator quem é completamente apaixonado pelo ofício. Porque é uma profissão muito dura, até cruel em certos aspectos e menos glamourosa do que as pessoas conseguem supor'', desabafa.
Reflexos da beleza Carolina Ferraz tem uma beleza capaz de criar estigma: não há personagem da atriz que não traga a estética como componente. Talvez por isso mesmo procure agregar, sempre que possível, uma visão intelectualizada ao seu trabalho, mesmo correndo o risco de parecer blasé. ''A intuição e o sensorial não são menos concretos ou menos reais do que uma idéia ou sentimento de dor, fome ou medo'', arrisca.
Quando tece suas impressões sobre o belo, ou sobre a abordagem da beleza que Silvio de Abreu faz em Belíssima, a atriz cita logo o mestre espanhol Pablo Picasso. ''Certa vez ele disse que se interessava mais por suas sensações, capazes de levá-lo a lugares mais interessantes que suas idéias''.
A atriz procura agregar um pouco dessa erudição também à sua rotina profissional. Na hora de compor um personagem, por exemplo. Entre suas referências, ela cita outro mestre, o ator inglês Anthony Hopkins. ''Ele falou que, para fazer o Hannibal Lecter lia cada cena umas 260 vezes e depois simplesmente declamava como um poema de Shakespeare''.

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