Sempre à noite
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sábado, 12 de junho de 2004
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Nascido em São Paulo, criado em Ourinhos (SP), Marcelo Camargo escolheu Londrina para se estabelecer. Foi por aqui que se lançou como músico profissional, quase uma década e meia atrás. Por aqui também ele agora se lança como dono de bar e restaurante. Em pleno funcionamento desde fevereiro deste ano, o Brasiliano marcou uma nova fase na vida de Camargo. ''Depois de 13 anos tocando, viajando muito, cansei um pouco de viver de música'', conta.
''Mudou muito o perfil da noite, o repertório. Hoje dificilmente se toca Chico Buarque e João Bosco nos bares. Isso foi tirando um pouco do meu prazer de tocar'', explica Camargo. ''Achei que já era hora de ouvir um pouco. Na verdade, durante um tempo, eu quis um pouco de silêncio'', lembra. Aproveitando a calmaria, ele acabou colocando em prática um sonho antigo, ser dono do próprio bar.
''Meu pai tinha um restaurante em Ourinhos, com música ao vivo. Então, muito novo eu já me envolvi com a noite. Foi o início dessa minha ligação com a música e a noite'', conta Camargo, que no início da adolescência foi estudar violão. E foi por causa dos estudos que ele veio para Londrina, só que para frequentar o curso de psicologia. Um ano e meio depois da matrícula, Camargo precisou abandonar as aulas. ''Tive que trabalhar'', lembra.
Depois de estabilizado no emprego de representante comercial, Camargo voltou para a faculdade, só que no curso de economia. ''Era um assunto em evidência, na época do governo Collor''. Trabalhando de dia e estudando à noite, tudo se encaminhava bem. Até que, depois de tocar ocasionalmente em alguns bares da cidade, ele passou a se interessar em se profissionalizar. ''O Bravo's Bar era um local pequeno por onde passavam os músicos de final de noite para dar uma canja. Fui até o dono perguntar se eu não poderia tocar também'', lembra. O dono aceitou, meio que para ver no que dava, e acabou gostando do que ouviu.
''Com o choque de horários na faculdade, acabei optando pela música. Mas fiquei com dó de deixar'', conta. Anos depois, em 1999, Camargo acabou conquistando o tal diploma universitário. Mas foi no curso de música, claro. ''O envolvimento é outro. Música é paixão mesmo, e o contato com outros músicos durante as aulas foi muito importante'', diz.
Quanto mais ele se envolvia com a noite londrinense, mais o trabalho de representante ia ficando para o segundo plano. Até que foi convidado a gerenciar um dos bares no qual se apresentava. ''Foram duas experiências muito importantes porque vi muita coisa e aprendi. Sempre tive um envolvimento com os bares em que trabalhei, sempre tive disposição para absorver os conhecimentos'', lembra.
''Eu poderia até ter dado continuidade nessa carreira administrativa, mas não quis'', relata Camargo. Sempre o sonho do negócio próprio rondando. Mas tudo sem grandes planejamentos. Até que numa das caminhadas pela vizinhança logo botou reparo em uma casa abandonada. ''Aqui daria um bom bar'', pensou na hora. Pesquisa pra cá, pesquisa pra lá, ele acabou descobrindo que a casa estava disponível e, numa conversa com a irmã engenheira, sentiu que ela ficaria apresentável. Mas só depois de muitas reformas.
Na verdade, foram três meses de reformas, até na estrutura da casa. Quando o bar abriu, em fevereiro, muita gente que sempre passava por ali antes não acreditou na transformação. ''Deu um friozão na barriga pouco antes da abertura'', diz Camargo. Não era pra menos. Além de ser o primeiro negócio próprio, ele também deixava o banquinho de músico, com o qual já havia se acostumado nos últimos 13 anos, para se instalar na cozinha.
''Sempre gostei de cozinhar e chamar os amigos, sendo ou não data especial'', conta. Foram os amigos que provaram e aprovaram as receitas que hoje são servidas no Brasiliano. Dos risotos às saladas, tudo tem o tempero de Marcelo. ''Só que não dá para ficar na cozinha o tempo todo. Tenho que vir pra frente (o bar em si) para ver como está o atendimento, conversar com o clientes'', revela. Dos anos na noite, acabou conhecendo muitas pessoas. Gente que agora vira e mexe aparece no bar, já sabendo que vai encontrar um expert atrás do balcão. ''Por onde passei fui colecionando idéias que deram certo para um dia colocar em prática'', entrega.
''Mas por incrível que pareça, apesar de eu ser músico, o bar não tem música ao vivo direto'', diz. ''A lei do silêncio de Londrina já me fez ficar sem trabalho e tive vários problemas. Por isso mesmo procurei focar na cozinha que é outra paixão, depois ou tanto quanto a música. Quero que a casa pegue por aquilo que tem de principal'', afirma.
Com toda a energia voltada para o bar ele faz as compras, administra as contas, supervisiona a equipe da cozinha e, em geral, fica até o último cliente , Marcelo Camargo acabou sem tempo para um dos seus projetos, o festival de MPB que realizou durante quatro edições. ''Tem muita gente cobrando a volta do festival, que eu sei que é importante para a cidade, para a música, mas agora era hora de fazer algo para mim'', conta. ''Mas assim que tiver condições, vou retornar. O festival revela talentos e faço por idealismo'', avisa. Ou seja, é um olho no fogão e outro no violão.


