Sem renovação, não há solução
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sábado, 25 de julho de 2009
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
O chef capixaba Gustavo Corrêa costuma lembrar uma história curiosa relacionada ao seu nascimento. Conta que quando sua mãe estava nos últimos dias da gravidez - esperando por ele, o terceiro de quatro filhos - a família oferecia mais um dos inúmeros jantares que preparava para os amigos. No meio do evento, a bolsa estourou. Em vez de ir ao hospital, porém, a mãe calmamente chamou o marido de lado e disse: vamos primeiro terminar o jantar, depois saímos. Nascia assim, em Vitória, no Espírito Santo, um dos mais premiados chefs de cozinha.
O mestre, que acumula experiências gastronômicas nacionais e internacionais, desembarcou em Curitiba recentemente para montar um cardápio de um restaurante que promete ser inovador: no Mondo Birre todas as receitas são harmonizadas com cerveja, das mais variadas marcas e sabores. A experiência não aconteceu por acaso. Há dois anos, convidado pela Vale do Rio Doce (agora apenas Vale), ele já havia desenvolvido um cardápio harmonizado com a bebida. Começava ali seu interesse pelo tema, que ganha cada vez mais adeptos no Brasil.
O evento também marcou seu relacionamento com empresários curitibanos. Sobre combinar as receitas com a popular bebida, o chef revela: ''A variedade de cervejas é tão grande quanto a de vinhos e harmonizar os pratos com a bebida não é uma dificuldade tão grande assim''.
Desde seu nascimento, Corrêa acumula histórias e experiências variadas relacionadas à gastronomia. Ao contrário de muitos chefs, ele não se inspirou na demanda da profissão para escolhê-la. Pelo contrário. Já aos 16 anos foi trabalhar no Buffet Itamaraty, empresa fundada pela família dele e que existe até hoje, em Vitória. Em 1994, decidiu aperfeiçoar-se na área e seguiu para a renomada escola Le Cordon Bleu, em Paris. Desde então já voltou três vezes à Cidade-Luz, sempre em busca de renovação da sua arte.
Corrêa lembra que sua afeição (e talento) pela área é herança de família. Além dos pais, a avó, nascida no exótico estado do Amazonas, desenvolvia saborosas receitas e era responsável pelos pratos servidos nas festas de casamento e aniversário de toda a família. A relação familiar influenciou até mesmo a escolha de Corrêa na hora de preparar as receitas que desenvolve. ''Eu costumo dizer que não faço alta gastronomia, faço uma comida gostosa, saborosa, até com uma apresentação mais simples'', revela.
Corrêa busca trabalhar ingredientes bem brasileiros nos seus pratos e produzir receita acessíveis ao mais diversos paladares. Portanto, não viu dificuldade quando foi chamado pelos proprietários do restaurante curitibano para desenvolver o cardápio da casa, que pode ser degustado com uma das centenas de cervejas oferecidas por lá. E ele salienta que, diferentemente da harmonização com vinhos, não existem ''pecados'' na hora de escolher a bebida. ''Em termos de harmonização tudo é possível. A única coisa que não é recomendada é beber a cerveja com caldos'', exemplifica.
Sobre a profissão que escolheu desde a adolescência (ou desde que estava na barriga da mãe, como gosta de brincar), Corrêa analisa o momento inusitado em que a atividade atravessa. ''Muita gente se autointitula chef ou diz que faz curso de chef. Eu até brinco com isso. Ninguém que estuda gastronomia vira automaticamente chef, assim como ninguém que faz administração vira imediatamente diretor de empresas. Para ser chef é preciso se formar na vida. Acumular muita experiência'', defende.
Para ele, a gastronomia está em alta, mas é preciso ter ressalvas antes de achar que a carreira é só glamour. ''A profissão virou moda, mas para sobreviver é preciso renovar-se constantemente. O sucesso de hoje não significa a prosperidade de amanhã'', salienta. Essa é a receita, aliás, que ele recomenda para quem está na área. ''Ninguém sobrevive, em profissão nenhuma, se não se atualiza constantemente. E a renovação é o meu combustível'', acrescenta.


