Sem pressa para chegar
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domingo, 28 de janeiro de 2007
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Quando era menino, o pediatra José Carlos Schaefer gostava de brincar perto da natureza e caçar passarinhos. Mas todas as brincadeiras eram sempre a pé porque ele só foi aprender a andar de bicicleta - algo comum para as crianças - quando já era adulto e pai de família. ''Foi em 1973'', lembra bem Schaefer, que desde então não parou mais de pedalar. Aliás, tem ido cada vez mais longe sobre duas rodas.
Por três vezes, o ciclista atravessou o Oceano Atlântico nos últimos 10 anos para viagens de cicloturismo na Europa. Mas se contabilizasse seus passeios semanais pela região rural de Londrina, já poderia ter dado bem mais que uma volta ao redor do planeta. Duas vezes durante a semana, ele cumpre uma jornada de 40 quilômetros (cada dia) e no final de semana, quando tem mais tempo livre, chega a pedalar 70 quilômetros. ''Mas nunca estou sozinho'', explica. Além de ser uma regra de ouro da segurança dos ciclistas, andar sempre acompanhado também é uma das vantagens do esporte.
Participante de grupos como o Pedais Vermelhos e o Point 700, o pediatra reforça suas amizades que se sustentam até quando não estão descobrindo novas trilhas. Mas não deixam de planejar. Com o amigo e também médico Flávio Zanoni passou boas horas planejando a mais recente aventura internacional. No segundo semestre do ano passado, a dupla passou duas semanas conhecendo algumas das mais belas paisagens da França.
''Sou um aficionado pelo cicloturismo'', conta Schaefer, que embarcou com sua bicicleta, pela primeira vez, com um grupo alemão há 10 anos em um passeio que foi de Viena (Áustria) até Munique (Alemanha). ''Era uma agência especializada, com mapas, reservas de hotéis e carros de apoio'', lembra. Cinco anos atrás, foi a vez de conhecer a Itália sobre duas rodas na companhia de um amigo radicado no país. Para a viagem à França, o pediatra utilizou a tecnologia para montar seu roteiro com a ajuda do Google Earth (ferramenta da internet que mapeia todo o planeta) e o sistema GPS.
Livros, guias e até aulas de francês fizeram parte de todo o processo que antecedeu a viagem. ''Gosto de estudar o idioma do país'', explica o ciclista, que mesmo depois de voltar continua praticando. ''Estamos planejando um retorno para o ano que vem. Mas vamos em um grupo maior e teremos a companhia das esposas, que irão no carro de apoio'', avisa.
''A gente vai adquirindo um know-how que capacita levar mais pessoas na próxima viagem. Mas não sou uma agência, então o grupo tem que ser pequeno'', diz. A idéia é conhecer uma outra parte da França muito além das regiões já visitadas, como a saborosa Borgonha, ''onde estão os melhores vinhos do mundo'', segundo o viajante. Ou então, a belíssima Provença e a badalada Côte D'Azur.
Com a bicicleta na bagagem, Schaefer e Zanoni - que um ano antes tinha percorrido o caminho de Santiago de Compostela - atravessaram o Atlântico rumo a Paris. Aproveitaram para conhecer a capital francesa de uma nova forma. ''É como aqui em Londrina, há muitos lugares que eu não conheceria se não estivesse pedalando'', diz. ''Lá em Paris fizemos questão de encerrar nosso passeio pela cidade no Arco do Triunfo'', diverte-se o pediatra, que repete o gesto vitorioso de levantar os braços para o alto.
''Como a saída de Paris é muito complicada, preferimos pegar um trem até Auxere'', ensina. Em 13 dias, a dupla percorreu 1.000 quilômetros e foi parar em Mônaco. ''De bicicleta é a melhor maneira de conhecer o país, falar, ou tentar falar a língua, vivenciar a cultura e saborear a gastronomia''.
Apesar do espírito aventureiro e mochileiro - ''carregamos nossas roupas em alforjes e por isso mesmo elas precisam ser leves e com tecnologia dry fit'' -, o ciclista faz questão de boas refeições. ''Tanto que levamos uma roupa melhor para frequentarmos os restaurantes'', explica ele, que não deixou de provar os queijos e vinhos franceses e outras delícias. Até mesmo nos piqueniques durante o percurso. ''A gente tinha uma etapa a cumprir todos os dias, mas sem pressa de chegar. Podia parar para comer e fazer muitas fotos''.
Em uma das etapas, a dupla chegou a pedalar 110 quilômetros - sendo que a média diária era de 70. ''Mas não cansa, é gostoso'', garante Schaefer. A única regra disciplinar era sempre acordar às 7 horas para começar o passeio lá pelas 8 horas sem hora de parar. ''Nem tínhamos reserva nos hotéis porque sempre nos hospedávamos em cidades bem pequenas''.
''É um esporte lúdico. Eu volto à minha infância entrando em contato com a natureza. O cicloturimo tem essa preocupação com o ambiente. Nós nunca deixamos nosso rastro. Não fica nenhum um papelzinho para trás'', avisa o pediatra.
Mas é claro que nem todo passeio é só bucólico. ''Costumo atender às mães dos meus pacientes usando o fone de ouvido do celular. Sem estresse e sem parar de pedalar, consigo resolver muita coisa''. E é sua formação médica que faz um alerta para os interessados em se iniciar no cicloturismo. ''É preciso ter preparo e também uma bicicleta de boa qualidade''. O equipamento de segurança - capacete e luvas - é imprescindível. Além dos alongamentos e das corridas regulares, Schaefer também tem participado de aulas de Pilates para fortalecer a musculatura, principalmente dos braços. ''Na bicicleta, a gente só exercita os músculos inferiores'', lembra. Tudo isso para ir cada vez mais longe.


