Os clichês são evidentes, e é neles que se pensa ao deparar com essa mulher: atleta do boxe profissional, casada com o próprio treinador, criada na dureza da vida na roça. Logo vem a imagem de mulher durona, luvas de boxe na mão, semblante fechado, lutando no ringue e na vida. Logo vem a imagem das boxeadoras de filmes hollywoodianos: caladonas, agressivas, sempre com uma resposta seca na ponta da língua.
Tudo isso se desfaz ao entrar na academia Macaris Boxe, em um prédio antigo, no centro de Curitiba. Glamour zero no ambiente onde se treina e se aprende o esporte. A entrevistada da FOLHA também não tem clichês recorrentes. Rosilete dos Santos, nossa campeã, é de uma doçura sem par. Miudinha, bonita e simpática. Também mãezona, cheia de cuidados, que no meio da conversa pegou a filha no colo e ficou dando mil beijos na pequena.
''Fora do ringue não sou brava. Pelo contrário! Até meio molega eu sou. Choro em filme romântico'', confessa. Aliás, tem preferência por comédias românticas, com fundo histórico ''porque daí a gente aprende''. Sem contar, claro, os filmes sobre boxe, paixão declarada da família.
Olho no olho, sentada em um dos aparelhos da academia, ela fala com honestidade. Não faz pose nem gênero. ''Uma senhora uma vez me perguntou: Mas minha filha, como você consegue viver assim, brigando o tempo todo?'' Expliquei para ela que boxe não é briga, é esporte. No ringue não estou brigando. Violência é outra coisa bem diferente! Isso aqui é esporte, é minha vida e minha profissão'', diz Rosilete, apontando o ambiente da academia, onde ela e o marido, Macaris, estão diariamente.
Das 12h as 22h, de segunda a sexta, Rosilete e Macaris dão duro no local. Alunos, têm muitos. Um dos entusiastas do esporte é o respeitado cardiologista Constantino Costantini, dono de hospital do mesmo nome, que patrocina Rosilete. ''Doutor Constantino vive indicando alunos para cá. Recomenda aos pacientes porque boxe é um esporte completo, que condiciona, emagrece e faz bem para o coração'', explica Macaris do Nascimento, treinador e marido, ao lado de Rosilete durante a entrevista.
Enquanto falam, em um intervalo do treinamento de Rosilete, a academia pulsa. Alunos treinam. Há um rapazinho - ''esse leva jeito para o boxe'' -, aponta o casal, e um homem musculoso e tatuado, que Macaris afirma ser policial federal. Uma garota, alta e magra, chega para praticar. O piso de madeira do mezanino onde estamos - onde fica o escritório - vibra conforme a intensidade dos socos ali embaixo.
Nas paredes do escritório, decoração temática: dezenas de reproduções de matérias na imprensa, sobre Rosilete e Macaris. Registros de uma história bonita, de superações, títulos, reconhecimento nacional e mundial. No ambiente de treino, há banners de lutas dos campeões da casa: a própria Rosilete e Adonísio Negreti. Fora isso, só um ídolo tem espaço - e prestígio suficiente - para merecer foto emoldurada: Muhammad Ali, o norte-americano Cassius Clay. ''Pelé, Ali e Michael Jordan estão acima e além de todos os atletas. São deuses em um panteão'', explica Macaris.
Rosilete deu esta entrevista um dia depois de ser homenageanda na Câmara Municipal de Curitiba. Mostra com orgulho as fotos, junto ao vereador Mário Celso e ao secretário municipal de Turismo, Rudimar Fedrigo. Também fala com entusiasmo indisfarçável da viagem para a Alemanha para uma luta. Foi tratada a pão de ló, com direito a motorista 24 horas, hotel bacana, ringue enorme e lotado com 15 mil pessoas e muitos holofotes. ''Coisa de filme, sabe? Lá é outro mundo mesmo'', fala a jovem, acostumada com a dureza do boxe no Brasil e no Paraná: batalha por patrocínio, ringues pequenos, público restrito.
A Alemanha foi uma Hollywood para Rosilete - e ela, que já foi bóia-fria e empregada doméstica, sabe disso. Não disfarça a admiração pela oportunidade em que foi tratada como princesa. Da mesma forma, o casal se orgulha dos títulos, das lutas, de cada etapa da carreira dela e dele. É com a mesma honestidade que a boxeadora fala do passado na roça, em Barrinhas, interior do Paraná. E da mãe, pessoa simples, que não entende o esporte da filha e não assiste às lutas. ''Com muito esforço faço ela ver um ou outro DVD meu. No ringue, ela não vai. Não entende como tenho um trabalho onde levo soco, como ela diz''.
Aos 33 anos, mãe de uma menina, ela se prepara para o próximo desafio. Dia 17 de abril, no Ginásio Ney Braga, em São José dos Pinhais, enfrenta a argentina Silvia Gervassi, sua desafiante. Rosilete dos Santos vai defender o título atual de campeã brasileira. O cinturão é pela Comissão Mundial do Boxe, uma das dez federações mundiais do esporte. Macaris e Rosilete explicam que no Brasil valem cinco dessas entidades. Por isso é que alguns atletas possuem mais de um cinturão e muitas vezes, no jargão do boxe, ''unificam'' títulos.
Para a homenagem na Câmara, a atleta se produziu. Foi ao salão, fez cabelo e maquiagem. No dia-a-dia, não tem nada disso. O cabelo é curto porque é mais fácil de manter. ''Suo muito na cabeça'', explica. Unhas compridas, nem pensar. ''Mantenho-as limpas, curtas e bem cuidadas''. Rosilete rosto bonito, com traços fortes e muito femininos. A pele, impecável; o corpo, miúdo, delineado pelo esporte. Os olhos são límpidos - coisa de gente que encara a vida de frente.
Todo dia, ela acorda cedo e corre 10 km ao ar livre, chova ou faça sol. Depois, cuida da filha, do café, prepara e serve o almoço. De tarde, até a noite, treina na academia. E nos fins de semana dorme até mais tarde, ''mas só no domingo'', esclarece. Sábado é dia de futebol, ''no time dos homens na pelada mais antiga do Brasil'', em São José dos Pinhais. Rosilete é zagueira e manda ver ao lado dos barbudos. ''De resto, limpo a casa, coloco em dia todo o serviço caseiro, que acumula a semana inteira''. Ou seja, mais exercício. Ela gosta, está acostumada.
Acabou o tempo da entrevista. O marido, treinador firme e sério, chama para o exercício. Lá vai Rosilete, a atleta, a boxeadora, a campeã, dar seus socos. Lá vai Rosilete, a mãe, a esposa, a profissional experiente, construir seu futuro. Até a luta com a desafiante, daqui a poucos dias, ela precisa perder quase cinco quilos para se adequar a sua categoria. ''Coisa fácil, simples, basta treinar''. A gente acredita. Boa sorte, campeã!

mockup