Segunda chance
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de maio de 2018
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 

Peculiar talvez seja o adjetivo mais adequado para definir o jornalista Rafael Henzel, se fosse necessário qualificá-lo com apenas uma palavra. Ele é um dos seis sobreviventes do Voo LaMia 2933, que caiu na Colômbia na madrugada do dia 28 de novembro de 2016, matando 71 pessoas, entre elas, quase todo o time da
Associação Chapecoense de Futebol. Henzel fraturou sete costelas, teve perfuração nos pulmões e lesões nos pés e foi o penúltimo a ser resgatado, quatro horas e meia após a queda.
Embora acidentes com vítimas fatais envolvendo aviões sejam raros, em média 10 a cada 10 milhões de voos de acordo com dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata na sigla em inglês), sobreviver a um deles é algo chamado por muitos de um verdadeiro milagre.
Henzel chama a atenção por não negar em momento algum ser fruto desse milagre, porém, não faz dele uma bandeira de vida nem se considera alguém especial. Ele esteve em Londrina na semana passada, a convite da Adama Brasil, para palestra durante a Sipat (Semana Interna de Prevenção de Acidentes no Trabalho).
Radialista em Chapecó, Santa Catarina, ele trabalha diariamente em dois programas de rádio e continua narrando os jogos da Chapecoense como faz desde 2011. Casado, pai de um adolescente de 13 anos, Henzel diz que faz questão de manter a mesma vida de sempre, trabalhando, jogando futebol e fazendo churrasco com os amigos.
Entretanto, não passa um dia sem que fale do acidente, seja respondendo perguntas, escutando relatos de pessoas que se inspiraram pela experiência dos sobreviventes ou ainda fazendo palestras, que ele encaixa entre seus afazeres. Em 2017 Henzel também lançou o livro "Viva Como se Estivesse de Partida", em que conta sobre a experiência. No mesmo dia da entrevista à FOLHA, 27 de abril, a Aeronáutica Civil da Colômbia divulgou o relatório final sobre o acidente, que constatou que a falta de combustível foi a causa.
"Hoje faz um ano, 4 meses e 29 dias do acidente. (Na hora)Ninguém informou nada do que ia acontecer, os motores desligaram, as luzes apagaram, tudo o que foi divulgado no relatório hoje, eu e Follmann (goleiro reserva Jackson Follmann) já sabíamos", disse o radialista.
Henzel afirma que no dia do acidente foi improvável o que aconteceu, seis pessoas terem sobrevivido. "Voltei em maio do ano passado (à Colômbia), e aí descobri que o improvável aconteceu. Você tem a queda, você tem o arremesso do seu corpo contra árvores, tem os dois pulmões perfurados, as costelas quebradas, tem o frio de zero grau, tem o tempo de espera, eu tinha a respiração muito curta por causa dos pulmões. Foram quatro horas e meia até o resgate, entre a batida e o meu resgate. Tinha uma série de elementos que poderiam ter me deixado ali, como muitos ficaram, duas pessoas morreram do meu lado, meu colega Renan (Agnolin) e o Djalma (Araújo Neto, cinegrafista da RBS TV), três técnicos da LaMia morreram atrás de mim. E as pessoas te colocam isso do milagre. Alguma coisa muito forte aconteceu. Não sou nem melhor nem pior do que aqueles que se foram, mas a minha passagem ainda não está completa", afirma.
Henzel ressalta que nunca fala em milagre, apenas deixa subentendido em suas palestras. "As pessoas às vezes acreditam em milagre mas nunca viram um. Eu nunca me utilizei dessa questão do milagre. Eu não fico citando salmos. Eu não sou padre. Eu não vou na frente da igreja para dizer, eu não vou no culto evangélico para dizer. Eu sou muito convidado e eu digo que posso orbitar em todas (as religiões) porque eu tenho um dever com essas pessoas por algum motivo. Eu digo que não sei se pensamento negativo tem força, mas o pensamento positivo tem uma baita força. Não estou aí para discutir religião, apenas absorvi tudo aquilo que me deram, me propuseram, que era alegria de orar por mim, de acreditar nos sobreviventes. Eu digo que nós não temos CPF, nós éramos os sobreviventes, os seis, independentemente do país onde morávamos. Então a oração seria por mim, por ti, por todo mundo. As pessoas acreditam, são muito boas. Eu viajo no Brasil para fazer futebol e as pessoas vêm e me abraçam, porque elas acreditaram e eu sempre digo que se elas oraram, pode ter certeza de que eu estou aqui por causa dessa oração também. E aí tem a questão do milagre. Nós temos seis milagres dessa tragédia, pena que não temos mais", lamenta.
Henzel conta que durante o tempo em que ficou internado não tinha noção do que estava acontecendo fora dali e, com a exposição, muitas pessoas passaram a procurá-lo para contar suas histórias de superação. Desde um dependente químico de álcool que decidiu parar de beber até um garoto que tinha dificuldades de interação por não ter uma das mãos e após ver os sobreviventes do acidente se encorajou a sair de casa. Fazer as palestras e escrever o livro foram uma forma de contar sua experiência e motivar outras pessoas, embora algumas vezes seja difícil contar novamente a história.
O jornalista afirma que hoje viaja normalmente de avião, principalmente por saber a causa do acidente com o avião da Chapecoense (falta de combustível). Também não faz terapia e não tem pesadelos com a queda. "Eu naturalizei bem dentro de mim, de tanto falar, externar, de contar. Ninguém falou que ia cair, ninguém pediu para fazer posição de impacto, todos fomos surpreendidos, inclusive os próprios tripulantes, eles eram 11 e sobreviveram dois. As perguntas vêm, eu sou jornalista, eu sei que as perguntas virão porque eu também faria perguntas. Não tenho problemas nenhum com isso."
Depois do acidente, ele diz que apenas uma coisa ficou: uma certa intolerância à intolerância. Desde a lição de solidariedade que os colombianos deram, acolhendo as famílias das vítimas e sobreviventes, até a rapidez com que os serviços liberaram os corpos das vítimas para voltarem aos países de origem, tudo marcou muito o jornalista.
"Você não consegue entender como as pessoas conseguem se odiar sem se conhecer. Eu fiquei meio intolerante à intolerância, para não dizer total. As pessoas fazem prejulgamento sem se conhecer. Em todos os grupos há pessoas ruins e pessoas boas. Como as pessoas não dão valor ao que têm! Você acha que seu problema é maior do que o outro, ou que o outro tem uma vida muito melhor do que a sua. Todos temos nossos problemas, vai da gente tentar encaixar, solucionar esses problemas ou tentar deixar esses problemas menos importantes na sua vida. O que eu fico mais feliz é poder continuar trabalhando, poder conversar com pessoas, conhecer pessoas novas, pessoas que fazem parte da minha vida e poder levar essa palavra. Eu não falo em nome de Deus. Eu sempre digo, eu não sou hipócrita, eu podia ter dito que naqueles minutos que antecederam a queda eu rezei, eu chamei santo, mas como jornalista eu estava tentando entender a situação. E vamos seguir a vida, não pretendo parar, estou com 44 anos, em agosto faço 45, não vou perder essa chance de poder viver minha segunda vida."


