Quando foi para os Estados Unidos se especializar, a psicóloga Isabel Cristina Scarinci, formada pela Universidade Estadual de Londrina em 1984, tinha em mente a área da dor. Terminado o curso de mestrado em Psicologia Clínica na Universidade de Birgmingham, no Alabama, ela chegou à conclusão de que se sentiria mais realizada se, em vez de aplicar seus conhecimentos a casos isolados, pudesse atingir comunidades. Assim, partiu para o mestrado em Saúde Pública. Depois, fez doutorado em Louisiana e residência em Harvard.
O que, então, era para ser um ou dois anos fora do Brasil hoje são 12. E certamente serão muitos outros, já que Isabel Cristina, enquanto estudava, conheceu o marido, Richard Searles, que atua na área de informática. Hoje, eles moram em Memphis, Tennessee, onde a psicóloga trabalha no Center for Community Health da University of Memphis e na Tennessee University.
Em Londrina para o casamento do irmão, Orfeu, ela deu entrevista à Folha Gente, ontem, falou a funcionários do Hospital Universitário sobre ‘‘Perfil dos fumantes: como os profissionais da área de saúde podem ajudá-los a parar de fumar’’. Nascida em Cambará, Isabel Scarinci mudou-se para Londrina aos 14 anos. Depois de formada, trabalhou durante cinco anos no HU.
Segundo ela, o psicólogo tem uma grande importância na Saúde Pública porque qualquer campanha implica em mudança de comportamento. ‘‘Para que uma campanha seja eficaz, ela tem que ter como base as nuances culturais e comportamentais da população que ela pretende atingir’’, explica. São esses subsídios que o trabalho de Isabel Scarinci oferece para profissionais que desenvolvem programas no sentido de mudar comportamentos, sejam eles parar de fumar, emagrecer, usar filtro solar, usar cinto de segurança ou adotar como rotina exames preventivos de câncer.
Hoje, a psicóloga paranaense coordena vários projetos nos Estados Unidos. Um deles visa reduzir a incidência (muito alta) de câncer de colo de útero em mulheres hispânicas. Segundo Isabel, há um grande contingente de mulheres mexicanas ilegais em Memphis. Constatou-se que elas não fazem regularmente o exame de Papa Nicolau, por achar que, fatalmente, fazem parte de um grupo de risco, estando mais sujeitas a desenvolver a doença. ‘‘Como se fosse coisa do destino’’, explica a psicóloga. Somam-se a esta questão agravantes como a situação financeira e tratamentos adiados.
Outros projetos enfocam o tabagismo. Ela pesquisa uma população de 36 mil pessoas, jovens que ingressam na Força Aérea Americana e que, durante as seis primeiras semanas de treinamento básico, são proibidas de fumar. Seu objetivo é descobrir por que algumas voltam a fumar e outras não e, ainda, por que jovens que não fumavam antes de entrar para o serviço militar passam a fazê-lo. Pesquisa também mulheres fumantes que, durante a gravidez, abandonaram o vício e por que algumas voltam a fumar e outras não.
As pesquisas, tanto na área do câncer como do tabagismo, não visam apenas à publicação, não têm objetivo exclusivo acadêmico. Elas embasam campanhas de esclarecimento e ações preventivas. ‘‘Qualquer programa de educação em saúde, seja na mídia ou na própria comunidade, precisa levar em conta a estratégia, e é essa a participação do psicólogo. Um grande papel de consultor’’, observa.
Isabel Cristina Scarinci acha falsa a imagem de que a questão da saúde pública nos Estados Unidos esteja muito bem resolvida. ‘‘Temos, sim, água tratada, esgoto e saneamento básico. Mas não temos um sistema de saúde adequado. Um dos motivos é que não existe um sistema de prevenção. E outro, porque quem não tem um bom seguro saúde, seu acesso à assistência médica é limitado’’, diz.
Sempre que alguém pergunta se ela pretende voltar ao Brasil, Isabel Cristina responde que gostaria, e muito. ‘‘Sinto falta da espontaneidade, da afetividade do brasileiro’’. Mas reconhece que tem um comprometimento maior: meu compromisso é com comunidades carentes, estejam elas onde estiverem’’, afirma.

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