A cidade de São Paulo sempre fica mais calma no final de semana, mas não pára nunca. Ainda mais quando se tem os desfiles do maior evento de moda do País no sábado e domingo. Foram oito grifes – duas estreantes (Carlota Joaquina e Trosman Churba) com diferentes inspirações, transpirações e outras pirações.
O estilista Lino Villaventura trouxe de Fortaleza os mais variados e trabalhados tecidos para a passarela. O jeans ganha novas caras e chega creponado, encerado e xadrez. A idéia é fazer o jogo do equilíbrio entre a leveza e o peso das estruturas e dos aramados. As saias são armadas, amplas e as blusas são ajustadas ao corpo. O tule é todo fininho, mas tem fios de cobre para ficar encorpado.
As peles enfeitam o casaco e as penas de peru (são montadas no tecido e vêm da Itália) dão forma às saias. O resultado tanto dos tecidos elaborados quanto das formas é sempre requintado e aplaudido. E nos próximos dias 19 a 21, a coleção de Villaventura estará em Londres, num show-room montado na residência do embaixador brasileiro.
Na passarela cheia de fontes de Fause Haten, a mulher surge chique, mas um pouco decadente, como explica o estilista. Cigarro aceso na mão e levemente descabelada, a mulher precisa então de ‘‘roupas corajosas’’. A aposta é o guarda-roupa repleto de intenções, como justiça, bondade e otimismo. Nas estampas aparecem as penas e a grama e nos saiotes, a renda.
As saias são justas, mas também podem ser evasês, contanto que a cintura fique bem marcada. As golas das camisas são bicudas e as mangas ganham elásticos (como os antigos bustiês). O couro para o inverno de Haten traz pedrarias coloridas nas laterais.
Já a Triton aposta nas franjas do universo country para efeitar as calças, jaquetas e até as camisetas de malha. O chicote estala, o berrante toca e sobem à passarela as cowgirls urbanas, que combinam leggins, salto alto e jaquetinhas de couro. Tudo com muitas aplicações, seja de pérolas, broches, camurça e até penas. As tachas adornam cintos (muitos deles) e sapatos.
O patchwork é paixão declarada do mineiro Renato Loureiro, que para o outono-inverno 2001 une diferentes texturas e cores. Os tecidos coloridos feitos em teares manuais são destaque e aparecem nas calças, saias e casacos. O tricô tem a iluminação dos tons fluorescentes e também são listrados ou quadriculados. O grafismo é ponto-chave da coleção e as formas, como sempre, têm inspirações nipônicas.
E o olhar para o Japão é sempre presente nas coleções de Walter Rodrigues. Só que nesta temporada ele também procurou novos lugares, de olho na telinha do canal People & Arts, no programa Planeta Solitário. E em uma viagem ao Peru, o estilista descobriu ‘‘os homens que moram perto de Deus’’, sejam eles no Himalaia, nos Alpes ou nos Andes.
A novidade é a volta da coleção masculina (a última aconteceu em 1995) e tanto eles como elas usam risca de giz (no preto). Só elas usam blusas de segunda pele, que surgem como belas tatuagens, que aparecem ou se escondem sob finíssima organza – que ganha dobraduras lembrando mandalas ou o origami japonês.
Tudo é novo, tanto para eles como para nós. Então, a cada nova entrada de um modelo, uma surpresa. A grife brinca com texturas e volumes e o plissado ganha resina, que cobre a gaze, musseline ou o denim. A força está nas cores – quase nada é monocromático, que estampam as listras e grafismos das peças.
Outra que faz (boa) estréia no evento é Carlota Joaquina, que buscou inspiração no livro ‘‘O Pequeno Príncipe’’, que também serve de estampa para algumas peças. Na brincadeira com as malhas de camiseta, a estilista Carla Fincato faz cachecol de tranças coloridas, descontrói mangas e costura retalhos. Quem leu o livro (candidatas a Miss ou não), encontra muitas e muitas referências, como as estrelas, a rosa e até as contas do matemático. Mas o urbano também é tema recorrente e faz surgir na passarela cheia de setas e linhas, os grafites das grandes cidades, transformados em belas estampas.
Hora de dormir? Sommer coloca ursinho de pelúcia na passarela e brinca com o lúdico e o universo infantil. As estampas são da artista plástica londrinense Keila Alaver (radicada em São Paulo) e estão no feltro, na flanela e na lã. Os ícones da sorte também não deixam de aparecer, e o trevo de quatro até se transforma em saia. O jeans Levi’s surge com ‘‘interferências’’ do estilista Marcelo Sommer, que usa pespontos em cores contrastantes e muitos botões. A idéia é sempre sair do tradicional.
A jornalista Karla Matida viajou a São Paulo a convite da organização do evento.

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