Dia desses fui à uma festa. Não sou muito dado a fazer esse tipo de coisa, até porque era uma festa dessas enormes, cheias de gente, onde um grupo musical fazia um show no palco e a galera dançava na platéia. Sou muito tímido e não sou capaz, por pura vergonha, de dar um passo de dança sequer. Até sei, se for preciso. Mas não tem jeito: tenho um senso crítico forte demais e ninguém consegue me convencer de que aqueles trejeitos todos que as pessoas fazem ao dançar não são, no mínimo, ridículos. Que me perdoem os dançarinos mas, pra quem está de fora, que é engraçado é.
Então: consegui descolar um lugar meio fora do tumulto, num plano superior ao da platéia e dali pude ver o show sossegado e ainda ter uma visão privilegiada do que acontecia na pista de dança. E foi aí que me deu o estalo. Aquela massa toda tinha alguma coisa estranha no seu comportamento e eu não conseguia descobrir o que era. Deixei de olhar para o palco e me concentrei em descobrir que diabos me incomodava tanto naquele ondular de gente ao som da música vibrante do show.
Não, não eram as caras e bocas que aquela loirinha fazia, nem a espécie de êxtase com que aquela morena levantava os braços e balançava no ritmo da música. Não eram os olhares apaixonados que quase todas dirigiam para o cantor em cima do palco. Nada disso: eram os homens. Como pinos cravados no chão, pivôs de um bailado ensandecido, nenhum dos homens dançava. Nenhum. Com seus copos de bebida na mão, no máximo arriscavam um tímido mexer da cabeça, acompanhando o bate-bate do compasso. Nenhum. A coisa era mesmo engraçada. Aqueles dois de paus fincados aqui e ali, cercados de um mar alucinante de alegria. Sim, porque elas davam um verdadeiro show na pista. Cantavam, pulavam, gritavam, numa demonstração esfuziante de alegria, sensualidade e prazer. As mulheres daquela festa. As mulheres de todas as festas. Tentei imaginar aquele momento sem a presença delas e não pude conter o riso diante da visão que teria: a platéia coalhada de senhores sisudos compenetrados na sua postura de verdadeiros caçadores, rebatendo obstinados a onda de calor que emanava do palco – um tédio. E não pude deixar de pensar com carinho no quanto nós que lidamos vez ou outra com a sensibilidade devemos ao sexo feminino. São elas que arrastam literalmente seus homens aos teatros: elas que se emocionam à frente da televisão. Nas vernissages, nos lançamentos literários, até nos rodeios, tão em moda, é a presença delas que faz de qualquer evento uma festa. As mulheres e sua alegria contagiante. As mulheres de todo o planeta. Talvez a Bíblia esteja enganada e nós, os homens, é que tenhamos nascido da imaginação delas. Pra que elas possam dançar em volta. E nós ali, espectadores privilegiados de tanta vida.

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