Curitiba - Se fosse para ser adjetivado pela tradicional família curitibana em que nasceu, Diogo Portugal seria o que Rita Lee cantou há anos, a tal ‘‘ovelha negra’’ da família. Longe de ter um perfil certinho, ele sempre fez um caminho diferente dos pais, irmãos e parentes, na maioria envolvidos com a Justiça. ‘‘Eu sempre brinco que se chamarem por um Portugal no Tribunal de Justiça, o prédio esvazia. Tenho irmão juiz. Meu pai, que morreu ano passado, era desembargador aposentado; tenho primo desembargador e um monte de advogados na família’’, relata ao contar que até poderia ter seguido o caminho mais fácil.
  Mas não foi assim que as coisas aconteceram e, hoje, aos 35 anos, Diogo Portugal é um humorista conhecido na cidade. Com uma carreira meteórica iniciada por brincadeira há cinco anos, o rapaz tem um programa que é um sucesso de audiência na rádio Transamérica (das 6 horas às 7 horas, todos os dias ou ainda durante a transmissão de partidas de futebol) e um show lotado há mais de um ano.
  Seus personagens sempre tiram do nosso cotidiano características engraçadas. É o caso do motoboy Elvisley, cheio de gírias, que diverte os ouvintes com tiradas geniais que fazem qualquer um rir ao ouvi-lo, ou Pamela, uma ex-prostituta que viaja pelo Brasil fazendo palestras para meninas que querem ingressar na profissão.
  O começo de tudo isso não foi pensado. A carreira surgiu de brincadeira. Portugal viajava com grupos de adolescentes para a Disney, nos Estados Unidos, e, como tinha que ‘‘entreter a galera’’, inventava personagens. Com o passar das viagens, sua interação virou meio que um laboratório antichatice – ‘‘eu levava tudo na brincadeira’’. ‘‘Imitava um, brincava com outro. Depois, com o tempo, acabou virando praxe – quando eles iam vender os pacotes viagem me chamavam para falar para turmas inteiras. Então, eu comecei a me obrigar a criar fios condutores entre uma piada e outra. E aquilo foi se tornando um esquete. Disso para virar um show de humor foi rápido.’’
  Embalado pela empolgação do sucesso entre adolescentes e pais, Diogo Portugal ficou sabendo de um concurso de humoristas promovido pelo canal de televisão fechada Multishow. ‘‘Mandei minha fita e fui selecionado. Fiquei na semifinal com pessoas renomadas no corpo de jurados como os integrantes do Casseta e Planeta. Daí teve uma final em Ribeirão Preto que eu ganhei. Ali foi legal. Comecei a encarar como uma carreira. Isso vai fazer cinco anos.’’
  Seu processo de criação parte sempre de piadas que não têm dono, de domínio público, como as de loiras ou portugueses. Depois disso, o humorista cria seus próprios personagens em cima de pessoas que observa na sociedade e até de amigos íntimos. Outra característica forte de seu trabalho é cercar-se de colaboradores. ‘‘Tenho o Maurício Guérius junto comigo. Ele é um cara de texto. Era meio fã do meu trabalho. Descobrimos que temos uma sintonia juntos por ele ter morado nos Estados Unidos e conhecer os mesmos comediantes americanos que eu admirava.’’
  Com a mesma técnica de grandes ídolos (um deles é o humorista norte-americano Seinfield), o curitibano se baseia em observações e na entrega total aos personagens para compor seu show que lota há mais de um ano, todas as terças-feiras, em uma casa noturna da cidade. ‘‘Quando entro no palco, eu viro a Pamela. Acho que isso é muito do ator. Não que eu me considere um, pois nunca fiz curso de teatro. Mas me entrego totalmente, dando vida a ele.’’
  No espetáculo com mais de 1h30 de duração, Diogo tira sarro de figuras como o publicitário que se ama, de situações como ser casado, solteiro ou separado e de hábitos cotidianos como ir ao supermercado.
  Fora o programa de rádio e o show semanal, o humorista tem uma agenda lotada de shows para empresas, aonde leva o riso para locais formais como a Faculdade Getúlio Vargas (FGV). O resultado é uma satisfação pessoal e financeira. Uma conquista e tanto para quem começou por brincadeira. ‘‘Trabalho como um camelo. Mas hoje o trabalho como humorista me sustenta.’’
  Para chegar num nível de aprovação em tão pouco tempo, Diogo conta com uma qualidade que deve ser a de qualquer um que mexe com o público: aceitar as críticas. ‘‘Já passei por maus bocados. Já fiz show que ninguém riu. Já passei até por vaia. Mas isso você tem que trabalhar na tua cabeça. Você não pode deixar se levar por uma platéia ruim. Hoje eu tenho bagagem para enfrentar isso.’’
  E por saber enfrentar as barras que a vida coloca como empecilho, Diogo Portugal vai em frente com características natas e uma pitada de oportunismo também. ‘‘Hoje em dia você tem que ter talento, saber criar e ter o marketing envolvido. Tem gente que não sabe canalizar o trabalho por falta de fazer contatos.’’ Atiçando essa autopromoção, ele já está com passagem marcada para um programa com comediantes de alto gabarito em São Paulo. No próximo dia 15, Diogo contracenará nos palcos paulistas ao lado do veterano Agildo Ribeiro. Alguém se arrisca a duvidar do talento do moço?

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