No jargão dos artistas, a expressão ''levar o personagem para a cama'' se aplica a um ator que não se desliga do papel que interpreta. Com 44 anos de idade e 27 de carreira, Edson Celulari jura que esse nunca foi seu caso. Mas admite que tem dificuldades para esquecer o atormentado Jean Valjean quando deixa os estúdios onde grava ''Sabor da Paixão'', de Ana Maria Moretzsohn. E não por uma questão psicológica, mas estética. Para reforçar o aspecto sujo do pintor francês, ele usa uma pasta especial no cabelo. E não consegue se livrar dela facilmente. ''Eu lavo, seco, penteio e os fios continuam ensebados. Essa coisa não sai de jeito nenhum!'', reclama, sem desgrudar os olhos do espelho.
A não ser pela briga diária com as madeixas, Edson não tem do que se lamentar. ''Nunca fiz nada parecido com o Jean Valjean na tevê'', reconhece. De fato, o maltrapilho personagem da novela das seis em nada lembra um outro Jean que marcou a carreira do ator, há 13 anos - o épico Jean Pierre, de ''Que Rei Sou Eu?'', de Cassiano Gabus Mendes. Na verdade, o currículo de Edson na televisão é recheado de galãs - embora ele consiga dar nuances bem particulares a cada um. Diante de seus gestos refinados e vibrantes olhos azuis, não há como esquecer, por exemplo, o misterioso Raimundo Flamel, de ''Fera Ferida'', e o safado Vadinho, da minissérie ''Dona Flor e Seus Dois Maridos''.
Na opinião de Edson, o único tipo 'desglamourizado' que havia interpretado até então tinha sido lutador Totó, de ''Brasileiras e Brasileiros'', no SBT em 1990. ''Mas nem dá para considerar... Aquela foi uma proposta que, infelizmente, não deu certo'', descarta, em alusão ao fracasso da experiência de Walter Avancini de tentar emplacar uma história neo-realista, centrada nos problemas da classe baixa. Já para viver o atual artista-mendigo, Edson recorreu às orientações do pintor Maurício Arraes, mas teve também outras ''referências''. ''Em matéria de pintura, minha maior experiência é com meu filho Enzo... Ele desenha, pinta e eu fico só admirando...'', entrega o pai coruja e marido da atriz Cláudia Raia - grávida de uma menina.
No meio de muitos mocinhos, um personagem nada simpático cativou Edson Celulari - que viu nele a oportunidade de se livrar da pecha de típico galã. Foi o pastor evangélico Dom Mariel, da minissérie ''Decadência'', de Dias Gomes. A trama, exibida na Globo em 95, provocou protestos de membros de igrejas evangélicas, que se sentiram caricaturadas em Dom Mariel. Para compor o personagem, o ator visitou vários cultos e se surpreendeu com a histeria da pregação das seitas.
Em outra minissérie de Dias Gomes, dois anos depois, Edson experimentou a reação inversa do público. O mulherengo Vadinho, de ''Dona Flor e Seus Dois Maridos'' só rendeu declarações de amor. ''Também pudera...! O malandro é um tipo fascinante, que vive no imaginário do brasileiro'', justifica. De fato, a adaptação da Globo para o romance de Jorge Amado, mexeu com a cabeça do ator. Tanto que ele passou a se achar ''certinho demais''. ''Não que eu quisesse mudar. Só percebi que, às vezes, uma dose de irresponsabilidade faz bem à vida'', explica.
Mas, na verdade, não foi com o baiano mulherengo da ficção -e sim com os cariocas do mundo real - que Edson teve as primeiras lições sobre a ''arte de viver bem''. No início dos anos 80, o paulistano recém-chegado ao Rio de Janeiro trabalhava dia e noite para se firmar como ator. E não entendia como tanta gente podia passar horas na praia ''sem fazer nada''. Até que um dia largou todos os compromissos e aderiu à turma. ''Aí, sim, passei a entender melhor esse espírito carioca'', reconhece, bem-humorado.

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