Reflexões de uma jovem atriz
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sábado, 02 de agosto de 2008
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O papel na peça da escola exigia que a personagem caísse de bumbum no meio do espetáculo. Ninguém queria ''pagar aquele mico'', mas já consciente do que o riso é capaz de fazer com o ser humano, a espevitada Fabiula Nascimento, então com seis anos, quis encarar o desafio. ''Naquele dia, eu fui para casa ainda com as gargalhadas da platéia na cabeça'', lembra. A experiência se transformou em muito mais do que uma recordação.
Foi a partir desse primeiro contato com o teatro que Fabiula decidiu seguir a carreira. Hoje, o teatro e o cinema fazem parte da vida dessa curitibana de 29 anos. E com mais intensidade ainda desde que participou do longa ''Estômago'', do cineasta Marcos Jorge. Viver a comilona Íria, no premiado filme paranaense, rendeu outros dois convites para o cinema. Fabiula acaba de gravar ''Guerra dos Vizinhos'', de Rubens Xavier, e foi convidada pelo cineasta André Klotzel (do clássico ''A Marvada Carne'') para participar do próximo trabalho do cineasta: ''Reflexões de um Liquidificador'', que já está em produção.
Antes de contracenar com João Miguel (''Estômago'') e Eva Wilma (''Guerra dos Vizinhos''), porém, muita coisa aconteceu. ''Eu nem podia imaginar que 'Estômago' teria todo esse retorno'', diz. Acostumada a ajudar o pai no comércio da família, foi só anos depois daquele primeiro tombo no palco que ela pôde fazer um curso de teatro e, finalmente, se familiarizar com a área. ''Eu sempre fui muito exibida.'', brinca.
Com o aval da mãe, Fabiula matriculou-se em um curso de férias no Teatro Lala Schneider, em Curitiba. Foi pouco tempo, mas o suficiente para que a menina ousasse - meses depois - participar de um teste para o espetáculo Cinderela, no Espaço da Criança, em Curitiba. Mesmo sem muita experiência, foi aprovada para a produção e outras tantas se seguiram. Foram quatro anos nesse universo infantil, o que rendeu vários colegas da área e alguns amigos que realmente acreditavam no potencial da garota.
O ator Mário Schoemberg, um dos maiores talentos paranaenses, foi um deles. Foi ele quem incentivou a garota a buscar experiências cênicas além do teatro infantil. ''Existe muito preconceito nessa área. As pessoas não levam a sério. Mas eu adoro. A criança tem um controle remoto na mão. É um termômetro que diz se a montagem é boa ou não''. Mas quatro anos, fazendo cerca de três montagens por ano, foi uma experiência e tanto na área. Decidida a acumular ainda mais montagens teatrais, ela saiu da companhia, especializada em produções infantis, com um currículo de duas folhas na mão, mas sem uma indicação específica. Isso em um mercado em que conhecer as pessoas certas é um precedente ainda maior do que o talento.
Mas algumas coincidências e muita dedicação levaram a atriz a trabalhar com alguns dos mais experientes diretores e produtores paranaeses, como Regina Vogue. Foram mais de 30 espetáculos desde que ela começou a carreira. Em 2006, um convite de Marcos Jorge para fazer uma ponta no longa ''Corpos Celestes'' mudaria essa experiência. Foi a primeira participação da atriz no cinema. Logo em seguida, o mesmo diretor a convidou para viver a cheinha Íria em ''Estômago''. Para o papel, ela teve de engordar seis quilos. ''Foi fácil. Foi só fazer tudo o que eu sempre quis'', diverte-se a atriz.
Ela ressalta a experiência no cinema, mas lamenta que a personagem tenha virado um estereótipo. ''Me chamaram para fazer uma participação em uma série de TV e adivinha qual era a personagem? Uma gordinha'', conta. Cinco quilos mais magra desde que que gravou ''Estômago'', a atriz diz que driblaria a vaidade em função do trabalho também em outras ocasiões. ''Só não faria algo muito radical, como cerrar os dentes'', brinca.
Casada com o também ator Alexandre Nero (que interpreta o Vanderlei, na novela A Favorita), ela prefere não deixar o sucesso recente subir à cabeça. ''Acho que ser atriz é meu trabalho, meu ofício. Não posso confundir as coisas'', analisa. Em meio às constantes viagens para filmar fora de Curitiba, onde continua morando com o marido, ela já decidiu que não quer sair da terra natal. ''Posso viajar para qualquer lugar do mundo, mas Curitiba é a minha casa''.
Em setembro, depois das gravações de ''Reflexões de um Liquidificador'', Fabiula viaja novamente para uma temporada do espetáculo de comédia ''De Graça, mas tem que pagar'', que montou com a também curitibana Katiuscia Canoro (do elenco de Zorra Total). ''Eu quero aproveitar essa fase porque pode passar. Entrar nesse meio é fácil, o difícil é se manter'', diz. É talvez por isso que a atriz tenha uma visão bem racional quando o assunto é o futuro: ''Que horas são? 11h17? Sei de mim até agora, sobre 11h18 já não sei mais nada. Só sei que quero trabalhar com isso até ficar velha''. E quando a velhice acontece? ''Quando a gente cansa'', diz Fabiula. Então, para ela, isso está longe de acontecer.


