Recordações de uma dama
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de abril de 2010
Diogo Cavazotti<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Nascida em Irati (135 km ao norte de União da Vitória), Arlete Richa entrou aos seis anos no colégio interno Nossa Senhora das Graças, quando a mãe adoeceu. Dois anos depois, a família se mudou para Londrina, onde ela prosseguiu os estudos, também em regime de internato, no Colégio Mãe de Deus. Lá, formou-se normalista e chegou a lecionar na instituição. Foi quando conheceu José Richa, que dava os primeiros passos na carreira política.
Quando se casaram, em 1962, o jovem político havia acabado de se eleger deputado federal. ''Meu pai falava que ele não ia ganhar. Mas o Richa conseguiu um pouco de votos em quase todo o Paraná, e conseguiu se eleger'', conta Arlete, em conversa com a FOLHA no apartamento onde mora, no bairro Batel, em Curitiba.
Ela então resolveu se dedicar à família, além de ajudar o marido na política. Primeiro José Richa foi eleito deputado, depois, prefeito (1972), período em que ele foi escolhido como um dos 10 melhores administradores públicos do Brasil. Na época, a então primeira-dama de Londrina acompanhava o marido em muitos compromissos e exercia papel ativo no trabalho social da cidade.
''Tenho muita saudade; Londrina me deu muita alegria e grandes amigos numa fase em que tive a oportunidade de ajudar ao próximo. Representei a cidade como esposa de prefeito e sempre contei com o apoio e entusiasmo dos londrinenses nessa caminhada'', revela Arlete, que explica não gostar do termo ''primeira-dama'' por achar antipático.
Em uma ocasião, Arlete lembra que visitou o local onde haviam sido construídas muitas casas populares. Ela então percebeu que os casais que foram morar lá não haviam legalizado a união. Com a ajuda da comunidade, ela promoveu um grande casamento coletivo, com direito a bolo e, de presente para os noivos, garrafas térmicas arrecadadas entre os londrinenses.
A principal lembrança que tem desse período é dos amigos que aqui deixou. Com o tempo, acabou perdendo o contato com muitos deles. Na memória, a recordação das atividades beneficentes e dos momentos de lazer. ''Íamos ao Lago Igapó, onde as crianças corriam e brincavam'', lembra ela, que morava no Centro da cidade, com o marido e os três filhos, que nasceram aqui.
Em 1978, José Richa foi eleito senador. Ele e a família dividiram tempo e moradia entre Londrina e Brasília. Richa não quis ir definitivamente para Brasília para não perder o vínculo e a convivência com os paranaenses. Esta relação com o Estado ficou ainda mais forte quando, anos depois, Richa foi eleito governador (1982). A família então mudou-se definitivamente para Curitiba, e Arlete iniciou um extenso trabalho como primeira-dama do Paraná, ou melhor, como mulher de governador.
''Foi um trabalho dignificante'', revela ela, que logo assumiu a coordenadoria da Provopar e depois foi convidada para ocupar o mesmo posto na Legião Brasileira da Assistência (LBA), dois trabalhos na área social. ''Dividi o Estado em 17 microrregiões e fazia reuniões mensais com as mulheres dos prefeitos. Atuei muito na área rural. Foi um trabalho maravilhoso, tinha uma equipe muito boa. Como mulher de governador eu me senti honrada'', revela.
Desse período, Arlete guarda muitas lembranças. Uma, em especial, ocorreu no dia em que a rainha Sílvia, da Suécia, visitou o Paraná, e ela e Richa a levaram para um passeio em Foz do Iguaçu. Durante uma caminhada num parque, diversas borboletas passaram em frente ao grupo. A rainha, maravilhada, disse que era um sinal de que ali não havia poluição. ''Sempre que vejo uma borboleta, eu lembro desse dia e falo que ali não existe poluição'', conta.
Arlete também recorda que, no período em que Richa foi governador, o Paraná sofreu com uma grande enchente que afetou algumas cidades do Estado. O trabalho de auxílio aos desabrigados foi intensificado. ''Levamos muita coisa de avião. Tínhamos um grande barracão para distribuição de comida. Até abrigar todos foi um trabalho bastante pesado''.
Ainda jovem, Carlos Alberto, o filho do meio do casal manifestou interesse pela política, adotando o nome de Beto e ocupando cargos de secretário de obras, vereador e deputado federal até chegar à Prefeitura de Curitiba, onde cumpriu dois mandatos. No mês passado, Beto entregou o cargo ao vice, Luciano Ducci, para concorrer ao governo do Estado. Na ocasião, Arlete estava presente e lembra que teve de se controlar para não chorar. ''Sou muito emotiva. Coloquei até os óculos escuros'', revela a orgulhosa mãe, com os olhos brilhantes.
As semanas que antecedem o período de campanha fazem Arlete lembrar de quando o filho avisou ao pai que iria se candidatar a vereador. ''O meu marido disse para ele não sair (candidato). O pai tem sempre aquela preocupação para que o filho não sofra. Porque a vida de um político é de muito sacrifício. Eu sei porque vivenciei isso durante muitos anos''. E vai vivenciar mais um pouco, já que irá visitar algumas regiões da cidade durante a campanha eleitoral do filho, que começa em julho. Porém, com menos intensidade do que fazia antigamente. É uma rara oportunidade de rever a mulher que traduziu e personificou com dignidade o sentido da palavra dama.


