Reconhecimento que vem de longe
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domingo, 19 de dezembro de 2004
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Até a Segunda Guerra Mundial, os imperadores japoneses eram tratados como divindade pelos súditos da terra do sol nascente. Mesmo depois de o imperador Hiroito vir a público, logo após as bombas de Hiroshima e Nagasaki, e rejeitar a condição de ser divino, o respeito pela família imperial ainda é grande.
Discreto, o atual imperador Akihto só é visto em ocasiões especialíssimas. Quem consegue chegar perto já se considera um privilegiado. Que dirá encontrá-lo duas vezes, sendo que na última delas para ser homenageado. Pois foi o que aconteceu com a professora londrinense Estela Okabayaski Fuzii, que esteve no Japão no mês passado para receber a importante ''Ordem do Tesouro Sagrado Raios de Ouro e Roseta'', concedida pela Casa Imperial japonesa para as mais diversas áreas de conhecimento pelo mundo afora.
Ao lado da professora Estela, apenas outras 10 pessoas foram agraciadas com a condecoração. Aliás, foi a única mulher a receber a homenagem por conta do conjunto da sua obra em relação à cultura e educação. Pega de surpresa, a homenageada só pode contar o que iria fazer do outro lado do mundo um dia antes de embarcar.
Primeira nikkey (descendente de japoneses) nascida em Londrina, Estela passou os últimos 40 anos se dedicando à educação. Numa época em que as mulheres, principalmente as orientais, não iam muito longe na carreira estudantil, ela não só fez faculdade como também deixou a cidade para estudar em Curitiba. E sempre contou com apoio dos pais, que na época tiveram que enfrentar a oposição da comunidade nipônica. ''Meu pai dizia que essa situação (das mulheres não irem para a faculdade) iria mudar'', lembra Estela.
Formada em pedagogia, Estela voltou para a cidade e logo começou a trabalhar. Primeiro no Colégio Mãe de Deus e depois no que seria o embrião da Universidade Estadual de Londrina, instituição da qual fez parte até o final do ano passado, quando se aposentou.
Passou por diversos cargos de chefia e participou de projetos importantes como o Teleducação, programa de educação a distância para a América Latina, onde, além de coordenadora, também foi a representante do Brasil nas reuniões fora do País.
Durante toda a carreira pedagógica nunca esqueceu as origens nipônicas e, de um jeito ou de outro esteve ligada à cultura japonesa. Criou o Núcleo de Estudos Japoneses dentro da UEL e ajudou a fazer o intenso intercâmbio de estudiosos entre os dois países.
Não por acaso, quando sua condecoração foi noticiada nos jornais japoneses, a professora recebeu muitos convites para homenagens de ex-intercambistas. A viagem, que deveria durar 15 dias, acabou se estendendo por um mês. Na província de Okinawa, que há dez anos mantém relações estreitas com a UEL, foi recepcionada pelo prefeito e o reitor da universidade. ''Fiquei muito emocionada porque percebi que eles tinham um sentimento de agradecimento profundo. Lá, eles não ficam beijando e abraçando, mas a gente vê no olhar que estão agradecidos'', explica.
Como voluntária da Aliança Cultural Brasil Japão, a professora segue se dedicando às questões que envolvem brasileiros e japoneses. A visita ao Japão atrasou o início de um novo projeto destinado aos filhos de dekasseguis (trabalhadores brasileiros no Japão) que estão no Brasil e necessitam de acompanhamento especial. A idéia é logo logo abranger os adultos também.
Sobre o encontro com o imperador, Estela conta que foi instruída para não olhar nos olhos dele. ''Mas tive 'sorte' porque ele parou para conversar com um velhinho doente que estava ao meu lado. Pude ficar espiando com o canto dos olhos'', diz, com um semblante arteiro.
''Da primeira vez que o encontrei, quando ele esteve em Curitiba, fui apresentanda pelo cônsul japonês, mas era noite'', conta. Naquela ocasião, ao saber, pelo cônsul, do trabalho que a professora desenvolvia, o imperador ficou impressionado. ''A imperatriz me pediu para cuidar bem dos intercambistas que vinham para cá'', lembra. Nem precisava dizer, já que a dedicação da professora é quase divina.
''Agora, com essa condecoração, aumentou a minha responsabilidade. Vou ter que fazer muito mais'', avisa sorridente.


