"Ter achado essa força me faz cada dia uma pessoa melhor", diz Angélika Favoretto
"Ter achado essa força me faz cada dia uma pessoa melhor", diz Angélika Favoretto | Foto: Gina Mardones



Recomeçar. Redescobrir-se. Reinventar-se. Por opção ou necessidade, muitas pessoas acabam mudando de carreira em algum ponto da vida. Para a coach e ex-empresária Angélika Favoretto essa guinada veio aos 50 anos, depois que ela precisou fechar uma empresa que produzia roupas para o Brasil inteiro.

Descendente de alemães e italianos, ela conta que desde a adolescência tinha dificuldades para encontrar roupas que lhe caíssem bem. Com 1,78 de altura, todas ficavam "curtas, justas, decotadas". Foi então que em companhia da mãe resolveu abrir a própria loja, aos 23 anos, para atender mulheres que o mercado não atendia. "Eu queria trazer felicidade ao ser humano. Não queria que uma mulher perdesse horas procurando uma camisa. Mas a roupa é algo importante, se você não estiver bem vai ficar se 'economizando', não vai se levantar para conhecer uma pessoa nova, não vai se levantar para se servir."

Por outro lado, Favoretto conta que viu muitas situações que a deixavam desapontada. Vinda de uma família de posses, a ex-empresária conta que cedo descobriu que o dinheiro não trazia felicidade. "A moda me angustiou porque eu achava muito fútil. Eu só consegui me entregar quando virei 'indústria', porque daí fui pensar na geração de emprego, no desenvolvimento do pessoal, em uma estratégia de negócio. Fui empreender a nível nacional e exportamos para a Angola também", explica.

As peças produzidas faziam sucesso não somente entre lojistas e consumidores. Artistas da Globo também se vestiam com a grife, que cedia peças para personagens de novelas e apresentadoras, como Fátima Bernardes.

Apesar de todo o sucesso, a situação econômica exigiu uma solução drástica e Favoretto optou por fechar as portas da indústria, depois de 27 anos como empresária. "Chegamos a crescer 325% em um ano. Depois veio a eleição, a Copa do Mundo, a crise. Depois de 2016 o Brasil parou de junho a fevereiro (de 2017), foram oito meses de uma estagnação absurda, a indústria de confecção sofreu muito. Embora chegassem pedidos, os lojistas não tinham como fazer as compras porque estavam inadimplentes. Tínhamos um faturamento de oito dígitos, que em uma coleção caiu 40% e depois mais 30% na próxima. Como manter seus compromissos sem esse dinheiro no caixa?"

As atividades foram encerradas em julho de 2016. Ela conta que nos primeiros dias sentia o mundo em câmera lenta e teve até dor física. Mudar aos 50 anos pode parecer estranho, já que muitas pessoas encaram isso como um fracasso, ou acham que é tarde demais para pensar em algo novo. "Não é fácil, tem gente que não consegue olhar isso e ver o que tem por trás. Eu fiquei sentada dias, pensando no que estava acontecendo, foi um processo muito dolorido. E você tem duas formas de encarar. Nunca me senti incapaz, nem tive culpa, porque eu tinha dentro de mim o quão bem-intencionada eu era e o quão bem eu queria que as coisas funcionassem."

Favoretto se proporcionou um ano sabático, foi fazer academia e estudar espanhol. Enquanto isso lia, pesquisava e passou por processos de coach. Foi então que se encontrou. Como já havia pensado em cursar Psicologia e tinha aptidão por ouvir os amigos, descobriu no processo de coach como poderia trabalhar.

"Fui empreender para esse lado humano. Quando fui fazer mentoria vi o quanto o comportamento humano e a pessoa me interessam. Antes eu cuidava do exterior das pessoas e agora, do interior. Agora transformo pessoas, porque não há roupa que vai te empoderar a alma. Eu quero que a pessoa tenha essa paz de espírito, quero que ela entenda que é uma alma habitando um corpo e não o contrário", explica.

O foco do processo de trabalho de Favoretto é ajudar as pessoas a se conhecerem e desta maneira mudarem o que lhes incomoda. Mas alerta que nem todas as pessoas estão preparadas para um processo de coach, o que não resultaria em algo satisfatório.

Quanto a voltar ao mercado da moda, a ex-empresária diz que não é algo fora de cogitação, mas talvez invista em coleções cápsula, com materiais naturais, mais de acordo com suas convicções. E alerta que a moda também precisa mudar, assim como toda a sociedade, já que da forma como está não é possível continuar.

"Estou me reconstruindo, totalmente. Estou indo para o terceiro coach. Meu lado empreendedor é muito forte, quero ver o que consigo fazer nesse modelo, na internet. Meu sonho é escrever um livro sobre essa guinada aos 50 anos. Pela indústria da beleza parece que você chegou no final. Ter achado essa força me faz cada dia uma pessoa melhor."

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