Acostumada a rodar o mundo atrás de lugares inusitados para suas matérias, a jornalista Glória Maria não escondeu sua surpresa com o trabalho precioso de Adriana de Oliveira Silva. "Ao anunciar o prêmio ela disse que se surpreendeu com o nível de detalhes", conta a londrinense sobre a conquista do AuDitions Brasil, no início do mês. Mas para muita gente, o maior espanto é descobrir que Adriana é docente de Odontologia e que faz joias apenas nas horas vagas.
Considerado o maior prêmio de designer de joias em ouro do mundo, o AuDitions é promovido pela AngloGold Ashanti, mineradora com sede em Johanesburgo e com operações em Minas Gerais e Goiás. O concurso é realizado a cada dois anos na África do Sul, Brasil e China e acontece em duas etapas, a primeira seleciona 100 trabalhos e a segunda elege 18 finalistas. Este ano, a cerimônia de entrega teve apresentação de Glória Maria e a participação de atrizes como Letícia Spiller, Cris Vianna e Fiorella Matheis, escolhida como a Golden Girl da edição.
Nascida em São Carlos (SP), Adriana afirma com paixão que se considera londrinense. "Minha família escolheu Londrina para morar", conta. Ela também reiterou seu amor pela cidade na hora de ir para a faculdade. "Passei em Arquitetura na Unesp (Bauru) e Odontologia aqui e acabei ficando", lembra. Se na época do vestibular haviam dois caminhos distintos a seguir, Adriana conta que durante o curso foi se encantando cada vez mais.
Além de ter passado pela clínica e atendido pacientes, ela também seguiu paralelamente a carreira acadêmica concluindo mestrado e doutorado. "Ser docente sempre foi meu sonho", enfatiza Adriana, professora de Odontologia Restauradora da Universidade Estadual de Londrina (UEL). E são as habilidades profissionais que a ajudam com a joalheria, que ela encara como hobby. "Há quatro anos quis dar um pingente para a minha irmã", conta. Foi quando decidiu se matricular em um curso específico.
Em uma espiada nas fotos do portfólio de Adriana dá para perceber que o tema animais é o mais recorrente. "É o meu enfoque", confirma. "E como eu falo para os meus alunos que só reproduzimos o que conhecemos, faço muito estudo anatômico com livros de anatomia de gatos e cachorros", explica. A vertente realística também se faz presente nas suas criações, assim como também nos desenhos em grafite que ela assina. "De desenho nunca fiz curso", diz.
"O concurso foi um marco para mim", relata Adriana, que surpreende quando se refere à edição anterior do AuDitions, não esta que conquistou o primeiro lugar. "Eu tinha saído da clínica que trabalhava e ainda não estava na UEL. Até pensei em mudar de área e aí coloquei no Google curso de joias e apareceu concurso de joias", lembra. "O tema era brasilidade e eu me inscrevi." Qual não foi a surpresa quando ficou entre os 100 selecionados.
"Pois eu esperei dois anos, um tempo longo, para a próxima edição", diz. As inscrições foram abertas no ano passado com o tema Recombinações. Algo como a união de duas coisas diferentes para formar uma terceira totalmente nova. Para Adriana, além da sua recombinação pessoal da Odontologia com a Joalheria, a recombinação para o concurso se deu com design e a música Rapte-me Camaleoa, de Caetano Veloso, e suas metáforas.
Ao ser eleita finalista, Adriana recebeu 400 gramas de ouro 24 quilates para dar forma ao camaleão. "Foram quatro meses desenvolvendo o protótipo, sendo que o primeiro mês eu fiz tudo na cera odontológica." Para chegar à peça premiada, ela contou com o empenho de uma empresa de semijoias de Paranavaí, a Belatriz. "É outra história curiosa como eu cheguei até eles. É que tenho um cavalo que fica em um haras. Há um tempo fiz um broche para dar para o dono do haras e Edson Gandolfi me disse que tinha uma empresa de semijoias." Quando precisou de ajuda especializada, Adriana soube a quem recorrer.
"Ele abraçou a causa. Como mora em Londrina e vai para Paranavaí nos finais de semana, levava e trazia as peças", conta. "Como só poderíamos ter 5% de perda de ouro, decidimos fazer o protótipo em prata antes para que quando fosse para o ouro estivesse tudo totalmente planejado. Para Adriana, o prêmio foi realmente uma surpresa já que concorria com designers mais experientes. "Quando falaram meu nome, não acreditei", afirma. "Nunca tinha feito um réptil, achava que as pessoas estranhariam", diz, ainda sem saber o que o prêmio vai repercutir.

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