Ana Clara Garmendia
Equipe da Folha
  Curitiba- São três horas da tarde de uma segunda-feira, e Roberto Arad, único estilista curitibano a ter uma loja própria a levar seu nome, está no batente. Consagrado como o preferido da turma moderna da cidade, Arad está numa fase zen, cabala e religiosa. E é assim que esse paranaense, nascido no Norte do Estado, em Andirá, radicado na capital desde os dois anos de idade, enfrenta a fase de crises na economia e que certamente atingem em cheio quem trabalha com o fútil mundo da moda: labuta, sem estrelismos, na segunda-feira, para dar folga a sua única funcionária. Um agradecimento por ela ter trabalhado inclusive aos domingos que precederam a sua recente apresentação no Curitiba Fashion Art.
  Essa cabeça para a criação e para o comércio é assumidamente uma herança do estilista. Seu pai era comerciante e a mãe, uma costureira de mão cheia. ‘‘Acho que misturei os dois’’, explica. O trabalho de Arad contraria as expectativas de que a moda daqui tem que ter um referencial local. Arad vai muito além das fronteiras físicas e imaginárias que habitam na cabeça dos puristas paranaenses. Ele cria alinhado com a ordem ou desordem mundial das coisas e faz do universo pop seu campo de pesquisa.
  Para explicar como em pouco mais de 10 anos ele chegou ao lugar que está, é preciso conversar poucos minutos com o criador. Ele é um homem de idéias. Já nasceu assim. Na adolescência, época em que os pseudo-rebeldes obedecem a uma ditadura própria, Arad contrariava. Pedia à mãe para ela fazer versões próprias de suas roupas. Ele não queria andar igual a todo mundo. ‘‘Tinha minhas idéias e achava natural. Eu gostava e fazia sucesso no colégio com as roupas que eu bolava e minha mãe fazia’’.
  Dessa época uma lembrança: ‘‘Minha mãe fez para mim uma calça de jeans bruto e uma jaqueta estilo motoqueiro, que é uma coisa que eu tenho feito bastante atualmente. Ele era azul bruta, tinha umas listras e atrás tinha uma águia bordada. Eu arrasava no colégio e, às vezes, colocava roupas do meu pai. Uma linha oversize. Eu tinha uma coisa de criação, uma vontade de me expressar. Acho que se eu não puder me expressar de alguma forma, mesmo que seja uma roupa comercial, fica muito chato fazer roupa para vestir. Quero oferecer algo mais’’.
  Com esse depoimento, ele explica o fato de contar histórias a cada coleção. Curte cinema. Já falou sobre Christiane F. a drogada (quem lembra do polêmico livro cultuado no inicio dos anos 80 sobre a historia de uma adolescente alemã que aos 13 anos se drogava e prostituía?). Gosta de música eletrônica. ‘‘Uma camiseta com uma estampa conta uma historinha e vende uma idéia. Tem uma diferença nisso. As pessoas compram isso. Elas saem e reproduzem essa idéia. É muito legal.’’
  Voltando ao passado, onde tudo começou. ‘‘Minha mãe nunca desejou esse tipo de coisa para mim. Ela não queria que eu partisse para uma vida de trabalhar sozinho’’. Esse medo materno não vingou e Arad fez Artes Cênicas para se aproximar da cenografia. Naquela época não havia por aqui faculdade de Moda. Arad, no entanto, partia para uma luta por estilo. Fazia gravatas borboletas engraçadas com humor, tônica daquela época, para vender enquanto estudava. Foi aí que um amigo viu seu trabalho e o chamou para trabalhar em uma fábrica de roupas infantis. O amigo em questão é hoje diretor da Faculdade Tuiuti, Luis Guilherme Gurgel Santos. ‘‘Acho que ele foi uma das pessoas responsáveis por eu ter entrado nesse ofício’’.
  ‘‘Minha opção sempre foi por ser feliz. Posso cantar My Way antes de morrer’’, brinca. Com essa mentalidade, Arad abandonou a faculdade, ficou um tempo na confecção, ganhou muita experiência, mas se entediou e resolveu morar no Rio de Janeiro. Lá estudou em escolas alternativas de costura. ‘‘Trabalhava meio expediente num hotel e à tarde fazia uma academia de corte e costura. Já à noite estudava corte industrial’’.
  Pronto. Com pouco mais de dois anos em território carioca, Arad resolveu voltar para casa. Era aqui que ele gostaria de criar sua roupa. ‘‘Minha vontade era de vir fazer uma coisa que englobasse estilo, qualidade, marca’’.
  Quando voltou para Curitiba ‘‘com uma mão na frente e outra atrás’’, Roberto ainda não estava definido. Foi aí que um sobrinho pediu para que o tio lhe fizesse uma camiseta. ‘‘Eu disse: faço, mas tem que ser do meu jeito’’. Desta primeira criação veio o clique. O sobrinho chegou em casa eufórico. Sua camiseta tinha feito o maior sucesso entre os amigos. Começou a fazer mais. Vendia tudo. Ia a São Paulo buscar material para increntá-las. Nascia sua primeira grife, a Orson Welles. Era um processo tímido. Arad, ele mesmo ainda não tinha a segurança para se expor com uma marca homônima. Com o tempo começou a fabricar outras peças. Fazia sucesso. Era vendido em lojas modernas da cidade. Resolveu colocar seu nome a frente do negócio. Nasceu a Roberto Arad. Mais sucesso. Até para a a loja paulistana Doc Dog Arad chegou a vender seus transadíssimos jeans. Tudo foi acontecendo sempre com ele à frente de tudo. Alternando seus dois pólos: o da razão, herdado do pai, e o da sensibilidade, vindo da adorada mãe.
  Por isso, hoje, Arad tem sua própria loja em um ponto estratégico. Vende um estilo de vida já pós-moderno. É um criador consciente de seus limites que quer fazer da sua roupa uma tradução das histórias que permeiam seu consciente e inconsciente. É um homem da moda. Nasceu com isso. Por isso não segue tendências no que faz. Não que não as pesquise. Na verdade, ele anda junto com elas. As pressente quando elas estão chegando e muitas vezes as antecipa. Pura criação.

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