Questão de sobrevivência
Curitiba - A sustentabilidade não é só uma questão de mercado, de moda ou de tendência. É uma questão de sobrevivência. Portanto, profissionais de várias áreas estão antenados com o tema. A arquiteta londrinense Rose Guazzi segue essa linha de raciocínio, com uma diferença: ela começou a pensar e a desenvolver produtos com uma preocupação ambiental numa época em que a abordagem do assunto era ainda bastante superficial. Hoje, ela é referência na pesquisa de novos materiais utilizados na arquitetura. Trabalho que rendeu o convite para que ela coordenasse a 1 Mostra Muller Ecodesign, que reuniu móveis feitos com matéria-prima naturais e sustentáveis em Curitiba.
O interesse da arquiteta pelo tema começou já na década de 90, mas foi no início dos anos 2000 que ela desenvolveu os primeiros produtos com um material inusitado e ainda inédito na arquitetura: o capim dourado, uma gramínea nativa do Estado do Tocantins. Ela desenvolveu um móvel de madeira com 21 gavetas que recebeu aplicações do capim.
A idéia foi lançada na Casa Cor Paraná 2005 e garantiu a ela o prêmio nacional Top of Quality, da Ordem dos Parlamentares do Brasil, pelo ambiente da mostra. Peças que utilizam o material já foram encomendadas também por empresas dos Estados Unidos e Canadá.
O couro de tilápia - até então inédito na arquitetura e decoração - foi outro material que a londrinense levou para dentro de casa. O couro do peixe criado em cativeiro geralmente era descartado ou utilizado apenas na produção de sapatos e bolsas. Rose deu um tratamento especial ao material e revestiu pufes que chamaram a atenção de especialistas e ambientalistas, tanto pelo tratamento da peça como por dar um novo destino para o couro antes descartado.
A busca constante de novos materiais parece ser um trabalho árduo, mas é encarado como lazer pela arquiteta. Radicada em Curitiba há 12 anos, Rose diz que mescla o trabalho corporativo com a pesquisa. ''Não sou ambientalista, sou uma defensora da arte que resolveu valorizar o meio ambiente'', salienta. Filha de um empresário do ramo da contrução civil, ela começou a trabalhar no escritório do pai aos 14 anos. Por lá, envolvida com os projetos de engenheiros e arquitetos decidiu-se pela profissão ainda bem jovem, assim como uma de suas três irmãs.
Quando se casou com o engenheiro Diógenes Bellinati Guazzi, a dedicação à profissão ficou ainda mais forte. Atualmente trabalhando com o marido, ela concilia os projetos do escritório familiar com as pesquisas na área ambiental e ainda com os cuidados com o filho Renan, de 11 anos. No ano passado, ela foi para o Chile em busca de novas propostas de produtos na área. Numa visita ao museu em homenagem à Pablo Neruda, Rose trouxe a inspiração para fazer um tributo ao escritor: uma mesa feita com uma roda de carroça de 40 anos, um barril de carvalho e vidro. O barril ela trouxe do país que visitou, já a roda da carroça garimpou no norte do Paraná.
''É uma maneira de aproveitar materiais descartados para uma utilização funcional'', explica. A mesa rendeu ofertas valiosas, mas ela preferiu descartar a venda para ficar com o objeto, agregado de valor sentimental. ''Meu intuito não é vender e nem fazer uma produção em série, mas pesquisar materiais que possam ser utilizados sem agredir a natureza e que tenham um preço acessível'', reforça.
Focada nesse objetivo, ela foi este ano para o Hawai. Lá encontrou outro material que tem potencial para ser utilizado em objetos de decoração, a casca de macadâmia. Rose ainda não sabe em que produto vai utilizar a peça, mas está pesquisando. Até lá, só tem uma certeza: que além da arquitetura, todos os segmentos devem se voltar para a preocupação ambiental. Pois o futuro, defende ela, depende dessa atenção.





