Quase um século para comemorar
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sábado, 08 de março de 2003
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Dizem que todo homem tem que escrever um livro, gerar um filho e plantar uma árvore. No caso do médico paranaense João Dias Ayres, além do livro e das quatro filhas, ele resolveu logo construir um hospital inteirinho, ao invés de plantar uma árvore apenas. Nascido em Palmas, formado em medicina em Curitiba, foi um pioneiro desbravador do norte do Paraná. Saiu da Capital no final de 1937 com o caminho traçado: estabelecer-se em Sertanópolis. E foi onde construiu, com recursos próprios, o primeiro hospital da cidade.
No dia primeiro de março, comemorou 90 anos. Ontem, uma festa estava programada para reunir a família e celebrar quase um século de histórias. As quatro filhas deram ao médico 14 netos e sete bisnetos. ''Acho que daqui uns dois ou três anos posso ter um tatataraneto'', avisa. De toda a família, por enquanto, apenas dois netos seguiram a carreira médica. ''Mas os outros já estão encaminhados também, 11 netos são formados'', orgulha-se.
''Não sei se tenho um segredo, talvez seja sorte'', explica Ayres sobre sua vitalidade. Frequenta aulas de natação e planeja voltar para os treinos de tênis teve que parar por conta de uma fratura na perna. ''Minha filosofia é a do esforço continuado'', ensina o médico. ''Desde pequeno meu pai me fazia estar sempre em atividade'', lembra.
Viúvo há quase três anos, Ayres foi casado durante 63 anos com a professora Mary. ''Ela foi a mola propulsora da minha vida'', explica. ''A nossa riqueza foram as grandes amizades que fizemos'', diz o médico, que também morou em São Paulo, para uma especialização em cirurgia.
''Podia ter ficado lá, já estava estabelecido e bem encaminhado'', diz. ''Voltei porque os amigos de Sertanópolis pediram. Foi quando construí o hospital com 30 leitos'', conta Ayres. Quando se mudou para Londrina, nos anos 1950, pensava em trilhar o mesmo caminho. ''Mas a cidade já tinha hospitais e bons profissionais'', completa. Mesmo assim, seu pioneirismo foi reconhecido, em 1970, quando recebeu o título de cidadão honorário. Em 1989, foi a vez de Sertanópolis oferecer ao médico o mesmo título.
Com a ajuda da esposa, reuniu lembranças e escreveu o livro ''Portal da Esperança'' com suas memórias e conquistas. ''Não era para publicar, era para ser um documento para a família, mas depois de ler alguns trechos no Rotary (do qual foi governador nos anos 1970), as pessoas me pediram o livro'', recorda-se. ''Tenho vivido a história de Londrina e região'', diz Ayres. Já virou patrimônio da cidade.


