Profissão: repórter
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 2008
Liliana Onozato<br> Reportagem Local 
O olhar atento por trás de uma objetiva mostra mais subjetividade do que um mero recorte de determinado fato. Isso, por si só, dá margem as reflexões sobre o fascínio revelado através das imagens assinadas pelo repórter e editor de fotografia da Folha de Londrina, Sergio Ranalli. Ora contra-luz, ora corte seco, o profissional se apropria das linguagens fotográficas e dos recursos técnicos para denunciar, destacar e, em alguns casos, chocar com seus registros.
Graduado em jornalismo, em 2004, Ranalli já enveredava pelo caminho da fotografia desde 1999. ''Com o mercado cada vez mais restrito para quem não tinha formação, ingressei na universidade para também cumprir uma exigência legal. Em 2003, fui contratado pela FOLHA para ser repórter fotográfico e, no dia da minha formatura, fui promovido a editor de fotografia'', lembra ele.
Antes de sua contratação, Ranalli realizava free lance para diversos veículos, priorizando sempre o trabalho autoral. ''Este sempre foi o meu enfoque e continua sendo. Foi a partir desse ângulo que conquistei algumas prêmios, entre eles, o Porto Seguro de Fotografia em duas categorias - Pesquisas Contemporâneas (2001) e São Paulo (2002) -, aponta o fotojornalista, que também coleciona premiações no exterior.
Enviado ao Haiti recentemente (ver reportagem nesta edição), Ranalli foi testemunha ocular de uma série de protestos ocorridos no país. A viagem surgiu depois de dois longos anos de negociação com o Ministério da Defesa. Durante os cinco dias em que ficou em Porto Príncipe - capital do sexto país mais instável do mundo, segundo relatório da revista britânica Jane's Information Group, - o editor enviou diariamente matérias e fotos exclusivas à FOLHA, relatando situações de risco no Haiti.
''Minha maior proposta com essa viagem foi mostrar a realidade do país mais pobre das Américas, que já foi considerado a ''pérola'' das Antilhas. Era uma forma de tentar descobrir quais os caminhos que levaram a essa realidade; a história de luta e guerra daquele povo. O que o Brasil está conseguindo fazer? Que relação existe entre esses dois países?'', questiona.
De acordo com Ranalli, o cenário que esteve desenhado para ele e outros dois repórteres televisivos e um cinegrafista, todos brasileiros, foi o mais desolador possível, já no segundo dia após sua chegada. ''Barricadas feitas com pedaços de carros, pneus queimados, pedras. Tudo o que aquele povo queria com essas manifestações era comida e água'', completa.
Lá, de acordo com sua impressões, ele pôde presenciar a miséria em estado absoluto e, como consequência, a capacidade que o ser humano tem de sobreviver. ''Para se ter uma idéia, eles faziam uma mistura de argila, sal e outros ingredientes e deixavam secar ao sol, para então se alimentar. Não há nada que possa ser dito que exemplifique essa experiência'', pondera.
Se por meio da fotografia é possível recortar o mundo conforme o enfoque, Ranalli se diz encantado por esta arte e faz dela uma necessária forma de auto-expressão. ''O repórter fotográfico tem a capacidade de recortar um pedaço da realidade, guardando para sempre esse fragmento num pequeno retângulo de celulose. Cada fotografia tirada acaba sendo um pouco de você, um fragmento do seu espelho'', reflete o editor.


